Depois das manifestações de 24 de Julho. E agora? – Por Valerio Arcary

Na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente, a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores

Mas, então: como definir a vanguarda? Se o quisermos fazer com a ajuda da lógica dialética, diríamos que a vanguarda é um fenômeno (…) diferente das classes e superestruturas, não tem uma existência permanente durante toda uma época. Os setores que na luta estão à frente, são a vanguarda. É um termo relativo; seu próprio nome indica que existe uma retaguarda.[1] (tradução nossa).

Nahuel Moreno.

A esperança para derrotar Bolsonaro são as massas populares. São as pessoas comuns, os filhos do povo, a juventude da classe trabalhadora, os mais simples. São eles que têm a força social necessária para abrir o caminho do impeachment. São eles os milhões necessários para deslocar Bolsonaro da presidência e enterrar o golpismo. Com eles, tudo é possível. Sem eles, não.  

Quando se abre uma situação de relativo impasse, como agora depois do dia 24J, há dois perigos. O primeiro é a desesperança ou desmoralização, quando a retaguarda de massas demora demais, ou até não se mobiliza. O segundo é a ruptura de parcelas desta nova vanguarda com as massas, e a vertigem de ações isoladas. Que facilita a ação da repressão. Aumentam as pressões ultras sobre setores de vanguarda. A tentação de avançarem sozinhos, precipitando ações mais radicais e isoladas é arriscada. O desafio é entender como construir as grandes mobilizações de massas que são necessárias, reconhecendo e lutando para superar os obstáculos.

No último sábado, dia 24 de Julho, realizou-se o quarto dia de mobilização nacional e internacional pelo Fora Bolsonaro. Não houve uma mudança qualitativa na dimensão dos atos. Nem para mais, nem para menos, mas com uma redução do dia 3 para o dia 24. No intervalo de dois meses, mesmo em plena pandemia, foi possível ir às ruas, por quatro vezes, em centenas de cidades, com dezenas de milhares nas capitais, para defender a necessidade do impeachment. A questão que se coloca é: agora, o que fazer?

Dois anos e meio depois da posse do governo de extrema direita, a esquerda recuperou o protagonismo nas ruas. Trata-se de uma vitória política que incide, favoravelmente, na relação social de forças. Mas a escala dos atos, apoiados em uma vanguarda ampla que se organiza nos sindicatos e partidos de esquerda, movimentos sociais de juventude e de moradia, feministas e negros, LGBT’s, ambientais e indígenas revelou-se, até o momento, insuficiente para abrir o caminho do impeachment. A questão é compreender os fatores que explicam a força e os limites da campanha.

A força das mobilizações Fora Bolsonaro não deve ser diminuída. Lembremos que não foi simples decidir ir para as ruas em plena segunda onda da pandemia, com a devastação de mais de sessenta mil contágios, e o sacrifício, todos os dias, de milhares de vidas. A construção de um consenso entre as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo repousou, essencialmente, em cinco fatores objetivos e subjetivos.

Os mais importantes foram: (a) a experiência do cataclismo sanitário; (b) a tragédia social do desemprego, a pressão da inflação e do crescimento da miséria; (c) os impactos das denúncias de corrupção no Ministério da Saúde na CPI; (d) o aumento do desgaste do governo confirmado pelas pesquisas; (e) a unidade das Frentes e dos partidos de esquerda para convocar os atos, e a iniciativa do superpedido de impeachment.

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Mas pesam ainda contrafatores que explicam por que os quatro atos tiveram o caráter de protestos. Ou por que não estamos ainda diante de uma explosão da disposição de luta popular: (a) a percepção de que a derrubada do governo não é imediata, porque a esquerda é muito minoritária no Congresso Nacional; (b) a pandemia limita o alcance da agitação para ir às ruas, afinal, são 200 dias com mais mil óbitos; (c) o flagelo do desemprego desorganiza e diminui a confiança da classe em si mesma; (d) as escolas e universidades ainda estão sem aulas presenciais; (e) a maioria dos funcionários públicos, onde a esquerda tem implantação mais orgânica, ainda estão no teletrabalho; (f) por último, mas, talvez, não menos importante, o calendário eleitoral em 2022 não parece mais tão distante, e as pesquisas indicam a possibilidade de Lula vencer até em primeiro turno.

Diante desse impasse, se polemiza nas franjas mais radicais da esquerda, se a orientação das Frentes não seria, também, responsável porque não somos milhões nas ruas. Há quatro argumentos perigosos. O primeiro é aquele que denuncia que os partidos de esquerda, até o PSOL, para alguns, não mobilizaram como deveriam. É evidente que há diferenças táticas diante do governo Bolsonaro. PT e, também, PCdoB apostam na tática do lento desgaste. Prevalece no PSOL a defesa da tática da Frente Única de Esquerda, mas há também setores que apostam na tática da ofensiva permanente. Mas não é verdade que o PT, ainda que dividido, não apostou na convocação dos atos. Chegou atrasado, mas apoiou. 

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A expectativa de que as direções dos partidos mais moderados da esquerda poderiam colocar em movimento milhões de pessoas é uma ilusão. A autoridade de Lula aumentou, mas não depende da vontade individual de ninguém a derrubada imediata de Bolsonaro. Nenhum partido jamais teve esse poder. A idealização da disposição de luta das massas populares, neste momento, é um erro de avaliação. É razoável que seria possível investir mais nas convocações, mas parece desproporcional imaginar que o resultado teria sido muito superior, depois de quatro tentativas.

O segundo é que as duas reivindicações principais, vacina no braço e comida no prato, associadas ao Fora Bolsonaro, seriam um programa insuficiente. Tampouco é convincente que alguma palavra de ordem, por mais justa, teria a capacidade “mágica” de mudar o patamar alcançado.

Os dois outros são a defesa de um intervalo mais curto ainda entre os dias de manifestação e a defesa da marcação de um dia de greve geral. Não há razão alguma, além do justo e legítimo desejo, para acreditar que atos em sequência frenética teriam um apelo mais forte. E menos razões ainda para pensar que, nas condições defensivas que prevalecem nas fábricas e empresas, e considerando a debilidade dos sindicatos, seria possível parar a produção, mesmo que parcialmente, nas grandes cidades, para não falar nos interiores.

Estamos, portanto, em uma situação, em que é necessário pensar as relações da vanguarda ampla mais radicalizada e suas organizações com as massas da classe trabalhadora. O que é uma vanguarda? São aquelas pessoas mais ativas ou mais determinadas que nascem, espontaneamente, em cada luta e se colocam na primeira linha da defesa dos interesses da maioria.

A vanguarda é um fenômeno. Um fenômeno quer dizer que tem uma realidade transitória, efêmera, provisória, temporária. Tem um estatuto diferente, tanto das massas populares, quanto das organizações que buscam representá-las. É um fenômeno no sentido, também, de que é expressão de um aspecto subjetivo da realidade em movimento, e pode tanto se organizar em uma superestrutura da classe já existente, quanto pode voltar a se integrar na massa, e abandonar a luta ativa ao final do combate. A luta pelo Fora Bolsonaro está sendo uma escola para uma nova geração.

Quando esta vanguarda arrasta setores das massas cumpre um papel de liderança. Nas suas fileiras surgem algumas pessoas que conquistam autoridade moral pela sua capacidade de traduzir em ideias ou em ações as aspirações da maioria. Mas há dois perigos.    

Na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente, a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores. Procurará, então, se educar, politicamente, e estabelecerá mais relações entre os fins e os meios, isto é, entre estratégia e tática, escolhendo a adesão a um movimento, partido ou sindicato, como via para a sua própria construção como liderança permanente.

Entretanto, nesse processo, a vanguarda vive um conflito, que pode se resolver, esquematicamente de três maneiras. O conflito é uma luta, em certo sentido, contra si mesmo. Não é simples nem fácil elevar-se acima das angústias das massas que, como sabemos, hesitam e retrocedem durante a luta, para depois voltar a avançar, e depois voltar a recuar. Não é incomum que a vanguarda se exaspere diante dessas oscilações das massas, e desenvolva um sentimento de frustração e decepção em relação aos que lutam ao seu lado, mas não com o mesmo grau de compromisso.

Esse sentimento, potencialmente, conduz a três atitudes diferentes: uma parte da vanguarda fica tão desmoralizada com as limitações das massas em luta, que abandona o combate e desiste de tudo, guardando um ressentimento, às vezes, maior contra sua própria base social, do que contra as classes socialmente hostis e suas lideranças; outra parte da vanguarda, amargurada com o recuo e abandono das massas, se separa destas, e se inclina por ações isoladas e exemplares, para decidir sozinha a sorte do combate; uma terceira camada escolhe o caminho de avançar junto com a massa e recuar, também, junto com ela, para ajudá-la a aprender as lições da luta, e garantir melhores condições de organização nos combates que se colocarão no futuro.

Se esta vanguarda encontra, durante a luta, um ponto de apoio para a sua formação como liderança de massas, uma boa parte dela pode se organizar de forma mais estável, se educar e se construir como direção, para, na luta seguinte, combater em melhores condições.

Mas, caso contrário, a maior parte das lideranças “naturais” se perderá, e será necessário um novo ciclo de lutas para que se possa gestar uma nova geração de ativistas. Esse processo de seleção “selvagem” de lideranças, em que uma incrível quantidade de energias se desperdiça, tem sido uma das maiores dificuldades da construção de uma subjetividade da classe trabalhadora.

Outro aspecto da questão é a relação da vanguarda “emergente” com as organizações sindicais e políticas pré-existentes, que expressam a tradição anterior de organização das classes populares: sendo elas plurais, e estando em luta umas contra as outras, para conquistar maior influência, é previsível que a vanguarda, em um primeiro momento, se enerve contra todas elas, simplesmente por lhe ser difícil compreender as razões de suas rivalidades. Quais são as diferenças que as separam? Sejam elas moderadas ou radicais, para a vanguarda “emergente”, as divisões são razão de angústia e desesperação.

Há momentos, muito raros, portanto, muito valiosos, em que a nova vanguarda não se sente identificada ou representada pela direção majoritária pré-existente. Nessas circunstâncias, abre-se um período de disputa aberta pela direção da classe, de “rebelião de base”, de reorganização sindical e política.

Um período assim, só é possível depois de esgotada uma experiência histórica, e exige, muito além de argumentos, e com menos razão, a repetição de velhos argumentos, a força inapelável de grandes acontecimentos.

[1] MORENO, Nahuel. El partido y la revolución. Página 227

www.elsoca.org/pdf/libreria/Morenazo.pdf

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


 

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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