Raphael Silva Fagundes

27 de fevereiro de 2019, 17h18

E o Oscar de ministro mais estúpido vai para…

Raphael Silva Fagundes aborda, em formato de crônica, as polêmicas protagonizadas por ministros em uma fictícia entrega de prêmios

Oscar (Foto: Divulgação/AMPAS)

Era tarde. Minhas pálpebras pesavam. Densas, pareciam carregar multidões, caminhões, cidades. Mas era necessário me manter acordado e não tirar os olhos da TV.

Toda vez, impreterivelmente, uma semana após o Oscar, uma premiação chacoalhava a imprensa brasileira: a escolha do ministro mais estúpido. Todo ano acontecia, mas nunca havia sido tão especial como daquela vez.

O ministro Alfredo Nery havia ganhado três anos consecutivos. Estávamos cansados de ver aquele sorriso idiota, aquelas mãos pequenas erguendo o troféu, uma cópia barata do de ouro que contemplava o vencedor da cerimônia norte-americana. Mas nada indicava que Nery venceria aquele ano. Outro ministro, Ricardo Méllez, adotou uma técnica fenomenal. Ele repetia idiotices seguidas vezes até que ninguém mais as percebia. Tornou-se tão banal dizer besteiras homofóbicas, comunicados que feriam a Constituição e outras sandices que as pessoas pouco se importavam. Nos acostumamos com o absurdo.

Deste modo, Méllez propôs uma série de medidas absurdas, como as crianças terem que entoar o slogan de sua campanha política todas as segundas-feiras na escola, filmá-las cantando o Hino Nacional etc.. Essas medidas foram sendo aprovadas no Congresso sem que as pessoas percebessem e a própria mídia, por seu turno, deixou de relatar. Não havia resistência e, como é natural, o que se torna normal deixa de ser notícia.

Mas ele tinha concorrência. A ministra Damores usou a mesma estratégia até que se tornou lei meninas usarem rosa e meninos azul. O mercado inflou-se destas cores, enquanto a cor vermelha desapareceu das prateleiras de roupas, papelarias etc.. Inclusive, o tapete vermelho da cerimônia em questão foi substituído pelo tapete laranja. A ministra, por sua vez, ainda fez questão de informar a todos que era mestre em Educação pela Igreja e asseverou:  “Diferentemente do mestre secular, que precisa ir a uma universidade para fazer mestrado, nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico”.

Um outro ministro entrou na competição. Era Ricardo Solles. Embora fosse ministro do Meio Ambiente, disse não saber quem era Chico Mendes, figura mais famosa da história do Brasil na luta contra a exploração irresponsável da natureza. Para não se passar de estúpido, esse ministro forjou um mestrado em Yale, que foi desmentido no dia seguinte após o título ter sido divulgado por sua assessoria. Mas tudo foi de propósito, planejado para concorrer ao prêmio tão cobiçado de ministro mais estúpido do ano.

Havia o ministro que jurou se desculpar com Deus, o que foi a razão para se livrar da condenação por corrupção. Outro que foi chamado de mentiroso pelo filho do presidente, vereador do Rio de Janeiro, que, mesmo tendo o cargo mais baixo da hierarquia política, conseguiu demitir um ministro. Enfim, eram muitas opções.

Era uma hora da manhã e, em pouco tempo, eu precisava estar de pé para trabalhar. Mas não perderia aquela premiação por nada. Nunca na história desse país houve uma disputa tão acirrada, nem o campeonato brasileiro na era dos pontos corridos um dia chamou tanta atenção.

A chuva caía implacavelmente do lado de fora. Aumentei o volume da TV para poder abafar o som das trovoadas. Nenhum vizinho se incomodou, pois todos estavam acordados com os olhos pregados no televisor.

Na tela bailava aquela burguesia vestida de gala em pleno calor infernal do período do Retiro, festividade que substituiu o Carnaval após a ascensão da bancada da Bíblia ao poder. Aqueles homens e mulheres ricos que se acotovelavam no auditório, buscavam copiar as roupas dos atores hollywoodianos que concorreram ao Oscar na semana anterior. Coisas mirabolantes eram feitas por um vestido ou um fraque das atrizes e atores do outro lado do hemisfério. Muitos ficavam ridículos, mas o importante era se parecer como os norte americanos.

Ventava. De modo que o prédio balançava em períodos curtos de tempo. Mas nada abalava a curiosidade das pessoas de saber quem seria o vencedor daquela premiação tão aguardada. Entretanto, no momento em que o mediador começou o seu discurso para finalmente anunciar que colocaria as mãos no prêmio, a energia faltou. Corri desesperadamente, procurando o meu celular para ligar no aplicativo da única rede de TV que transmitia a celebração. Mas não o achava por nada. Estava escuro e minha casa não dispunha de velas, geralmente eu iluminava o caminho com o próprio celular que naquele momento era mais um dos objetos afogados na escuridão que inundou minha sala.

O mistério, o calor e o som dos trovões não me deixaram dormir. Sem o barulho do ventilador, mosquitos zuniam nos meus ouvidos impedindo que eu pegasse no sono. “Pago uma luz caríssima e ainda passo por essas coisas”, disse eu para mim mesmo. Bebia um café velho, adormecido, para ver se conseguia combater o sono.

Deu 4:30 da manhã e o maldito do celular despertou o alarme no horário que programei. Era a hora que acordava e começava a me preparar para mais um dia de trabalho. Foi automática a minha ação para acessar as redes sociais e saber o resultado. O ministro Ricardo Méllez venceu por um voto em relação à ministra Damores. Foi muito acirrada a disputa, mas não foi daquela vez que tivemos a primeira mulher a vencer a premiação. Um absurdo!

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