O que o brasileiro pensa?
24 de setembro de 2019, 15h14

Entrevista com Lubi Prates: “Meu corpo – não meu país – é meu lugar de fala”

Tomaz Amorim entrevista a poeta Lubi Prates sobre seu livro “um corpo negro”

Foto: Mayara Barbosa/Divulgação

A paulistana Lubi Prates é poeta, editora e tradutora. Tem três livros publicados: coração na boca (2012), triz (2016) e um corpo negro (2018), que foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia. É sócia-fundadora e editora da Nosotros, Editorial, e é editora da revista literária Parênteses.

Na conversa abaixo ela fala sobre a sua literatura e também o país: “O Brasil não pode ser considerado, pra mim, como uma “terra-mãe”, já que possui valores patriarcais bem arraigados, que se traduzem no tratamento dado às mulheres – negras, sobretudo; isto posto é evidenciado porque a cor da pele determina algumas condições de tratamentos diferenciadas. Eu sou uma mulher negra, uma feminista negra e sonho com um país onde minha existência seja respeitada”.

Segue abaixo a entrevista completa:

Tomaz Amorim: Seu livro traça um tipo de cartografia. A partir da experiência histórica coletiva negra, traumática, o livro ao mesmo tempo em que olha para esse passado, da travessia sequestrada pelo Atlântico, tem um olhar para o futuro, considera se não novas rotas, pelo menos algum tipo de reterritorialização que não seja em um estado branco e patriarcal resumido na ideia de “pátria”. Pode falar um pouco deste passado coletivo e desta busca subjetiva por um futuro?

Lubi Prates: Quando estive com a escritora Conceição Evaristo, durante a FLIP, ela fez uma pergunta. “Quem seríamos, que experiências teríamos se não tivéssemos sido arrancados da África?”. Essa pergunta ficou ecoando na minha cabeça por dias. Fiquei pensando como a história teria se construído de outra maneira se os colonizadores não tivessem explorado os países invadidos e seus habitantes, com apoio da Igreja e “Ciência”. Talvez, tivéssemos a possibilidade de viver uma vida mais digna, com respeito às diferenças culturais – e acho que esse é o lugar para onde caminhamos. Eu, constantemente, me faço a pergunta: qual o futuro possível? E essa pergunta me impele a lutar. Sinto que somos atravessados o tempo inteiro por estes três tempos: passado, presente e futuro. Infelizmente, somos muito influenciadas/influenciados ainda pela construção racista da história, que se apresenta através do genocídio e do encarceramento em massa da população negra, da “guerra às drogas”, do projeto de branqueamento, da marginalização, da falta de políticas públicas que visem nosso bem-estar e da falta de acesso à ascensão social, e é neste presente que podemos pensar sobre as possibilidades de superá-lo, a fim de criarmos um futuro, onde, primeiramente, existamos – e possamos viver com dignidade.

Tomaz Amorim: O livro diz que o país não é mãe. Sua poesia parece sonhar com uma mátria. O que seria um coletivo político que fosse mais como uma mãe? É um tipo de matriarcado? O que sua literatura tem a ver com isso?

Lubi Prates: O Brasil não pode ser considerado, pra mim, como uma “terra-mãe”, já que possui valores patriarcais bem arraigados, que se traduzem no tratamento dado às mulheres – negras, sobretudo; isto posto é evidenciado porque a cor da pele determina algumas condições de tratamentos diferenciadas. Eu sou uma mulher negra, uma feminista negra e sonho com um país onde minha existência seja respeitada. Minha literatura tem a ver com isso na medida em que entendi que ela era uma ferramenta para que eu pudesse falar sobre a minha existência, sobre as minhas experiências: o “um corpo negro” é inteiro sobre isso. Eu acredito que este “lugar” é, simplesmente, o contrário do que vivemos hoje, no Brasil.

Tomaz Amorim: Como você descobriu que existia algo chamado literatura? Como começou a escrever?

Lubi Prates: Eu descobri a literatura no colégio. Fui muito, muito influenciada pelo que a professora de literatura apresentava porque a escola era minha possibilidade de educação. Lembro também de um livro didático de literatura que foi doado para mim e minhas irmãs pelos patrões da minha mãe – esse livro foi um grande companheiro durante meu Ensino Médio. Meu interesse maior de leitura sempre foi poesia, li muitos “clássicos” e aprendi a escrever com eles. No terceiro ano, mostrei alguns poemas para minha professora, ela nunca devolveu e eu pensei: poxa, talvez, eles sejam bem ruins. Isso me marcou muito e passei anos sem escrever, mas lendo muito. Em 2004, quando teve o boom dos blogs, comecei a escrever e publicar prosas e contos. Testando uma forma de expressão mais concisa – que tem muito mais a ver com a minha voz, com a forma que me comunico – retornei à poesia e estou aqui até hoje. Com a minha identificação enquanto negra, percebi que minhas referências literárias eram brancas e isso aparecia na minha escrita. Passei a buscar referências com as quais me sentia representada – graças aos Orixás muitas delas ainda são vivas e, por isso, mantenho relações próximas, me reeduco.

Tomaz Amorim: Quem está começando a ler (e a escrever) procura referências de quem já está na função há mais tempo. Quem eram esses clássicos brancos que você lia? O que ficou deles na sua literatura? Quem são as referências negras vivas com as quais você se reeduca?

Lubi Prates: Não ter referências negras, nos meus anos de formação, me marcou muito, porque fez com que eu acreditasse que só determinados tipos poderiam ser consideradas/considerados escritoras/escritores, só determinados temas e formas poderiam ser considerados poesia: e eu não poderia fazer parte disso. Todos nós sabemos que existe um projeto de apagamento de negras/negros e esse projeto também está presente na literatura. Quem mais publica, no Brasil, é o homem branco heterossexual, do sudeste do país, e as negras e os negros e participantes de outras minorias são relegados à margem e é foda crescer com esse sentimento de não pertencimento.

Eu li muito, principalmente: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes… Amava Mário Quintana, Thiago de Mello, Ferreira Gullar… Cecília Meirelles e eles/ela foram responsáveis pelo meu despertar para a poesia, para a beleza das palavras, para a beleza das pequenas coisas. E, sem dúvida, fundamentais.

Mas, quando comecei a me aprofundar no estudo do feminismo negro e das relações raciais, quando entendi como a aplicação do racismo e do machismo na literatura – que eu citei aí em cima, fui buscar pessoas que escreviam também a partir do lugar que eu ocupo na sociedade. Aí, muita coisa mudou! E, hoje, eu leio basicamente apenas autoras/autores negras/negros: é a minha forma de contrabalancear os mais de vinte anos de educação embranquecida.

Solano Trindade, Oliveira Silveira, Oswaldo de Camargo, Ele Semog, Cuti, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Alzira Rufino, Esmeralda Ribeiro abriram os caminhos para que eu e muitas/muitos outras/outros chegassem até aqui, escrevendo e publicando, e eu tenho total gratidão e admiração! Tenho algumas/alguns delas/deles de mãos dadas comigo, assim como poetas que se aproximam mais ou são da minha geração, como Lívia Natália, André Capilé, Nina Rizzi, Jarid Arraes, Renato Negrão, Viviane Nogueira, Natasha Felix, Diogo Cardoso, Neide Almeida, Valeska Torres, entre outras/outros.

Tomaz Amorim: A voz no livro subjetiva um passado coletivo. Ao mesmo tempo em que se esforça para se delimitar como sujeito individual: “para criar limites e dizer: eu”. É parte de um grupo, de um coletivo, sem se reduzir a ele. É atravessada por uma identidade sem se reduzir, ou ser reduzida, a ela. Me parece uma estratégia poderosa num contexto literário em que tudo parece ser reduzido a identidades. Melhor dizendo: em “um corpo negro” há identidades, mas elas são ponto de partida para investigações literárias, experimentações. Como você entende este momento literário sem dúvida importante em torno das questões identitárias e suas possibilidades e/ou limitações literárias?

Lubi Prates: “um corpo negro” é construído a partir do território e da minha experiência com ele – que se assemelha à experiência de muitas outras pessoas negras, por isso, se identificam. O livro parte de um lugar para chegar a mim, indivíduo: afinal, o título do livro está no singular. Eu me torno negra a cada página virada do livro.

Tomaz Amorim: Gosto muito da inversão que você faz do Gonçalves Dias. O exílio não é estar na Europa, longe do Brasil, mas estar no Brasil, longe da África. Ao mesmo tempo, não é um retorno ingênuo a um mundo que não existe mais, a África imaginada antes da escravidão, uma África presente que a maioria de nós nunca conheceu. Ao mesmo tempo em que corrige, dialoga com a tradição literária. Parece que é um local específico, preciso, esse de onde fala o livro: nem nostálgico, nem completamente anárquico. Ele parece reposicionar os sujeitos nos mapas históricos e geográficos. Estou viajando?

Lubi Prates: Eu realmente desejo isso! :) Acho que quase todo mundo tem os versos de “Canção do exílio” na ponta da língua, embora lindos, eles não dão conta da experiência das/dos negras/negros em diáspora. Quando escuto as minhas e os meus, eu escuto, geralmente, sobre uma sensação de não pertencimento, é duro.

Tomaz Amorim: Um poema diz “Meu corpo é meu lugar de fala”. Lembrei da Elza Soares cantando que o país, esse aqui que o seu livro revela e do qual ao mesmo tempo foge, é o lugar de fala dela. Lembrei da Toni Morrison quando, num dos momentos mais poderosos da literatura do século XX em “Amada” também cita e aprofunda Nina Simone: “I got my arms, got my hands”. O que você ouve de música?

Lubi Prates: Quando a Elza lançou “Deus é mulher”, o verso “o meu país é meu lugar de fala” ficou na minha cabeça. Eu estava finalizando o livro e pensando muito sobre a minha relação com o Brasil. Por tudo que “um corpo negro” carrega, eu não pude concordar com este verso e continuo não concordando, pelo momento político que enfrentamos, com um presidente eleito que não me representa em nada. Embora “mil nações moldaram a minha cara” e “minha voz uso para dizer o que se cala”, prefiro usar meu corpo como remetente de uma experiência – um lugar bem menor do que um território.

Eu cresci escutando muita coisa. Seguem sendo referências musicais: Roberto Carlos (um beijo, mãe!), Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Chico Buarque, Gilberto Gil, Belchior… Atualmente, escuto muito hip hop. Com meu aprofundamento nas questões raciais, são os rappers que tem me falado sobre o que me interessa ouvir: as nossas experiências. Escuto, principalmente, rappers brasileiros e norte-americanos. De fora: Kendrick Lamar, Jay-Z, Saba, Tyler – The Creator, Kenneth Whalum, entre outros. Do Brasil:   Racionais, Black Alien, Emicida, Criolo, Rincon Sapiência, Djonga, Febem, BK, F.B.C., Akira Presidente… Os rappers do Norte e Nordeste, como Baco Exu do Blues, Vandal, Don L, Diomedes Chinaski, Coro Mc, Nego Gallo, Victor Xamã, me trazem outros pontos de vista além do sudeste como centro do país – o que me interessa muito.

Tomaz Amorim: Que leitor, leitora, você está procurando? Que escritor, escritora ainda precisa aparecer no Brasil?

Lubi Prates: Eu quero chegar cada vez mais em pessoas negras que estejam construindo suas referências literárias, justamente, porque eu não tive isso durante etapas importantes da minha educação: a infância e adolescência. Espero que minha voz seja uma possibilidade para que escritoras/escritores sintam que podem também erguer suas vozes.

Tomaz Amorim: Obrigado pela entrevista. Quer mandar um recado para ela/ele (escritor por vir)?

Lubi Prates: Só você pode contar a sua história. Apenas faça.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum