Daniela Lima

feminismo e política

18 de fevereiro de 2018, 11h04

A espetacularização da intervenção militar

Será que a falsa sensação de segurança das classes mais altas por meio da intervenção militar garantirá algum capital eleitoral para um governo com índices altíssimos de rejeição?

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“Senhores moradores, o Exército Brasileiro está realizando um mandado judicial em cumprimento da Lei. Fechem suas portas e janelas e aguardem orientações. Quando solicitado, abra a porta. Obedeça todas as instruções. Qualquer ação contrária será considerada como ato hostil e receberá a resposta necessária”. A mensagem gravada era emitida em carros de som  que circulavam pelas ruas e vielas das 13 favelas que compõem o Complexo do Alemão. Quase 70 mil pessoas vivendo sob Estado de exceção: isso foi o que chamaram de “pacificação”.

Segundo testemunhos reunidos no livro UPP: o novo dono da favela – cadê o Amarildo?, de Patrick Granja, casas foram invadidas sem mandado, pessoas foram executadas e tiveram seus corpos enterrados em cemitérios clandestinos ou atirados aos porcos numa região conhecida como Vacaria. O número oficial de 17 mortos não corresponde à realidade. Como apontou Derrida, “não se contam os mortos da mesma maneira em todos os lugares do mundo”.

Não precisamos ler sobre os “excessos” do Exército Brasileiro no Haiti, basta ouvir os testemunhos dos moradores do Complexo: “os militares estão entrando nas casas arrombando portas, levando tudo que tem valor. Na TV, só mostra que estão apreendendo armas e drogas. E o dinheiro e os pertences de quem foi roubado? Isso eles não mostram. […] Eles não mostram eles roubando, matando e espancando aqui dentro”.

Desde 2012, já se falava do fracasso do modelo de pacificação/Unidades de Polícia Pacificadora, devido às constante denúncias de corrupção e de execuções sumárias legitimadas pelo chamados “autos de resistência”, aberração jurídica que obstruiu a investigação de milhares de homicídios.

Mesmo aqueles que defendiam a militarização de áreas consideradas de risco, hoje admitem seu fracasso e apontam tanto a violação de direitos humanos como o aumento da violência como sinais de que não é por meio da força, ou melhor, da efetivação do racismo de Estado, já que 70% das mortes são de pessoas negras, que haverá uma solução para a violência no Rio de Janeiro. Ou seja, os próprios idealizadores do modelo pacificação/UPPs passaram a reproduzir o discurso dos movimentos sociais de que “polícia não basta, é preciso educação, cultura e redistribuição de renda”.

Embora seja cedo para identificar todos as razões que levaram o presidente ilegítimo Michel Temer a investir num modelo fracassado, é possível lembrar-se da espetacularização da invasão militar do Alemão, que rendeu até prêmios internacionais para a Rede Globo e capital político para Sérgio Cabral, então governador do Rio de Janeiro. Estamos à beira das eleições e alimentar o pânico social e, consequentemente, a demanda pela ordem e pela militarização é encontrar uma via de diálogo com os setores mais conservadores da sociedade.

Será que a falsa sensação de segurança das classes mais altas por meio da intervenção militar garantirá algum capital eleitoral para um governo com índices altíssimos de rejeição? Apesar das respostas ainda serem vagas e imprecisas, é preciso também questionar quais são os precedentes que se abrem a partir da primeira intervenção militar desde a promulgação da Constituição de 1988.


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