Tomaz Amorim

crítica cultural e literatura

02 de julho de 2019, 06h00

“Estamos em uma dimensão ruim” ou as realidades paralelas como resposta da ficção à catástrofe social

Na coluna de Tomaz Amorim: Por que tantos filmes e séries de ficção científica têm utilizado o recurso do multiverso e das realidades paralelas? O que isso diz sobre nosso presente político?

Foto: Reprodução

The OA, série da Netflix, é uma entre tantas obras contemporâneas de ficção que tem como mote central o recurso às viagens interplanares, às realidades paralelas. Ela se equilibra em uma fina linha entre o misticismo new age, ficção científica e uma reflexão metafísica sobre o espaço-tempo.

Na segunda temporada, um dos jovens personagens, desiludido com a violência das relações humanas contemporâneas e a transição para uma vida adulta sem sentido, propõe uma resposta simplista e sintomática: “Estamos em uma dimensão ruim”.

Se, como a série propõe, há múltiplas dimensões, é possível imaginar que haja diferentes qualidades de dimensões. (Um pouco como em certas linhas do espiritismo para as quais haveria diversos mundos para onde os espíritos evoluiriam ou desevoluiriam, de acordo com seu progresso).

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A ideia é que das múltiplas dimensões possíveis, nós simplesmente estamos em uma que é ruim. A saída é tentadora e poucas pessoas vivendo em 2019 poderão dizer que não se sentem, já há mais ou menos uns seis anos, em uma dimensão ruim, absurda, sem sentido, cruel e, sobretudo, sem perspectiva de melhora. Uma dimensão que é menos fruto de um processo histórico do que de uma condição natural, como algum tipo de destino perverso.

A profusão de viagens no tempo, realidades paralelas, toda uma riqueza da multiplicidade e das possibilidades em filmes e livros comerciais contrasta com o sentimento generalizado de repetição, asfixia, unidimensionalidade política diante da conjuntura global.

A Praça Tahrir, a Acampada del Sol, o Occupy Wall Street, as Jornadas de Junho, cada pequeno momento de criatividade política, de “imaginação no poder”, da última década parece ter sido invertido e suas forças mobilizadas para o retorno do mais arcaico. Se tornou mais fácil imaginar viagens no tempo para passados ainda não corrompidos, para futuros emancipados, mais fácil imaginar realidades paralelas em que Trump e Bolsonaro não foram eleitos, em que o planeta não foi levado ao limite da catástrofe ecológica, em que as alternativas políticas não sejam a desigualdade faraônica americana e o controle social chinês, que do que imaginar, por exemplo, o fim das formas contemporâneas de exploração sob o Capitalismo.

Onde falha a imaginação política (reformas cada vez menores propagandeadas como grandes revoluções, administração da miséria etc) opera a arte e a indústria cultural tematizando as infinitas formas do mundo terminar, formas visíveis em qualquer caminhada pelo centro de uma metrópole, e seu inverso: sua salvação via viagem no tempo, via mudanças para uma realidade paralela melhor, isso tudo em um tipo de “revisionismo histórico ficcional”. A impossibilidade de imaginar de uma revolução política faz com que a ficção de massa sonhe com uma “revolução metafísica”.

O filme de maior bilheteria na história do cinema mundial, lançado neste ano, conta uma história deste tipo. A situação global atual não tem alguma semelhança com o começo de Vingadores Ultimato? O planeta vive o luto de uma perda irreparável, presente, a partir de um poder conhecido, porém fora do nosso controle. De nada adiantaram os grandes mitos, os estados, os exércitos, os super-heróis nacionais. Fomos derrotados. (Como é possível que o Reino Unido tenha votado pelo Brexit?) No filme, a solução milagrosa cabe à aleatoriedade da passagem de um rato ou de uma formiga. A solução é voltar no tempo, saltar para outras realidades que não sejam tão ruins quanto a nossa. Enfim, fingir que tudo não aconteceu. Infelizmente, no entanto, politicamente, não temos a mesma opção e a melancolia costumeira no fim destes filmes aponta para algo disso. Passamos duas ou três horas em uma dimensão mais esperançosa para sermos jogados cruelmente de volta a esta, com a trilha sonora dos créditos subindo ao fundo. Mesmo a tentação new age de fingir que não existe Capitalismo e fugir para o mato está bloqueada. Os povos autóctones do planeta, última linha de resistência, sabem bem disso em sua luta contra as multinacionais e o envenenamento industrial das terras.

Mas se falando em índios, ficção científica e utopias, é sintomático que Vingadores Ultimato tome o posto de maior bilheteria da história de outro filme sci-fi, mas de dez anos atrás e, portanto, a partir de um contexto global um pouco diferente. Em Avatar, os invasores alienígenas somos nós, os humanos. Nós é que cometeremos um ecocídio contra a população autóctone e contra um planeta recém-invadido. A menos, é claro, que algo aconteça – e, no filme, algo acontece: Gaia, como sistema natural-social, reage. Vai ser interessante ver como isso aparece nas continuações do filme que têm previsão de lançamento a partir de 2021. O final do primeiro filme oferece um respiro, mas aponta também para uma situação que prometia ficar mais trágica.

O Capital sob a forma dos exércitos humanos, com potência destrutiva superior a dos índios, prometia voltar e terminar o serviço. Diagnóstico preciso justamente da década que viria nesta Terra real. Havia, no entanto, ainda, uma potência a partir de métodos não tradicionais – ou melhor, a partir de métodos tradicionais hibridizados com métodos não tradicionais. Cibernético, encarnando em outros corpos e culturas, misturando o que era humano e o que não era.

Todo este tecnoxamanismo, esta criatividade de resistir, parece que desapareceu, por um momento, do horizonte político contemporâneo. Da esquerda tradicional, passando pelos movimentos sociais, chegando até mesmo na teoria política.

Em Avatar, assim como em 2019, não há viagem no tempo, não há outra Terra em que se possa viver (ao contrário da propaganda de bilionários como Elon Musk): a luta é presente e local, e nisto o filme tem um nível de realismo que o desencantamento global contemporâneo simplesmente não tem conseguido imaginar.

A questão parece ser do nosso momento, não uma limitação dos próprios gêneros fantasia e ou ficção científica. A utopia, afinal, é um gênero tanto literário, quanto político. Nela já estão contidos em forma de sonho as reivindicações das gerações futura.

A distopia, por sua vez, é a vitória do negativo, a delimitação exatamente do que deve ser expurgado na sociedade atual, o exagero das tendências nefastas que dormem no presente e ameaçam o futuro. É sintomático notar que neste universo dos Vingadores a única utopia conhecida seja de Wakanda, a parte “revisada” da África que não foi colonizada. (Asgard, a utopia nórdica, também funcionava como um tipo de utopia, até ser, sintomaticamente, destruída a partir de sua própria dinâmica interna…).

Enquanto a branquitude e o ocidente produzem distopias como reação à realidade política, pautando assim o imaginário ficcional, estranhamente vem de outros campos fagulhas de resistência criativa na forma de afrofuturismo etc. Como exceção, é claro. Wakanda mal aparece em Ultimato, e o filme recente de ficção científica adolescente, A gente se vê ontem, produzido por Spike Lee, tampouco traz aquela potência que marcou o recente ressurgimento do afrofuturismo. Os jovens voltam no tempo diversas vezes tentando impedir o assassinato de um jovem negro pela polícia, apenas para, a cada retorno, ver um novo amigo morto.

Há, como o teórico da literatura Frederic Jameson aponta, uma condição inerente à Modernidade e ao Capital que impede sua representação como um todo.

As vanguardas artísticas do começo do século XX se dedicaram justamente à tentativa de representar através do fragmento este todo incapturável. Segundo Jameson, os pós-modernos nem mesmo tentaram, se abraçando à não representabilidade ou, mergulhando conscientemente no mundo como mera representação. O lastro do significante foi se perdendo na mesma medida em que o ouro foi deixando de ser lastro para a economia. Tudo se desmancha no ar, tudo se estica, contrai, ganha e perde valor. O relógio mecânico não tem tanta soberania sobre o tempo quanto os números na bolsa de valores, verdadeiras máquinas de viagem no espaço-tempo. O capital, como a ficção científica, também tem suas estratégias de manipulação do tempo. Mas ao invés de produzirem diferença, possibilidades de outros mundos possíveis, como sempre faz, no positivo ou no negativo, a boa ficção, elas produzem repetição concentrada, o mais do mesmo, cada vez mais.

No ensaio “In Hyperspace”, Jameson oferece uma leitura otimista com traços de otimismo. A ficção científica era naquele momento tanto resposta a uma angústia, o resto do mundo não-branco finalmente escancarado pela globalização, como reação produtiva, exploração da possibilidade de outras narrativas para o passado e para o futuro. (Descrição que cabe muito bem à obra de Octavia Butler, por exemplo).

No contemporâneo, no entanto, a ficção científica, parece ter perdido seus poderes. O problema não são tanto os outros, os invasores, sua multiplicidade desnorteante (no sentido também de tirar do norte), mas o eu, o mesmo, a reprodução unidimensional do Capital e do modo de vida ocidental. A multiplicidade do multiverso, suas possibilidades infinitas de salto, cada personagem infinitizado em infinitos mundos possíveis, cada homem-aranha com uma versão segundo um estilo de cada gênero de quadrinhos, por exemplo (na bela animação Homem-Aranha: No Aranhaverso, ganhadora do Oscar de 2019), como representação da pobreza criativa, artística e política, atual. Todo ano cada vez mais trabalho, com salários cada vez menores, em um planeta cada mais inóspito e com mais um filme do Homem-aranha em cartaz para tentar dar conta disso tudo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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