Militância e fofoca – Por Valerio Arcary

Os tão deploráveis e desleais cochichos indiscretos sobre a vida alheia estão em todas as relações humanas e, do lado de cá, não seria diferente

1 – Precisamos conversar sobre militância e fofoca em nossas organizações. Em especial, agora, em tempos de pandemia e confinamento. A fofoca é condenada entre nós como desagregadora e desleal. Fofoca não é uma diversão inocente. Fofoca machuca quem é vítima. Debates de ideias claros e francos são saudáveis e consolidam relações honestas. Ninguém gosta de ser contrariado. Mas discordar das ideias de outro não deve ofender. Todas as pessoas são mais complexas que uma tese, proposta ou opinião que julgamos errada. Acontece que em um ambiente envenenado por rumores e ruídos a desconfiança é contagiosa. É uma peste. Organizações saudáveis devem elaborar uma cultura interna que valoriza a pluralidade, mas estabelece limites. Tudo tem limites. Existe uma tradição na esquerda, na forma de estatutos, que são um código de conduta que nos protege dos outros e até de nós mesmos. Somos imperfeitos, e devemos estar sempre dispostos a aprender. Assim como um programa resume uma visão de mundo, os estatutos resumem uma experiência de convívio, na forma de direitos e deveres.

2 – Parece que em todas as sociedades os mexericos foram, mais ou menos, tolerados. Existe uma curiosa hipótese contraintuitiva que interpreta a fofoca com um fator de equilíbrio de grupos humanos. Embora surpreendente, a fofoca teria, nesta chave de análise, um papel estabilizador, e seria uma ferramenta social para manter a colaboração e até preservar a cooperação. O argumento é que sendo os conflitos interpessoais incontornáveis, em qualquer grupo humano, a fofoca seria uma válvula de escape, um mecanismo de compensação. As pessoas têm expectativas e desejos, alimentam rivalidades e invejas, e sofrem desgostos e frustrações. E são curiosas. A fofoca seria uma forma de regulação, um contrapeso, uma solução para diminuir os choques. Aonde há tolerância para falar mal dos outros, os conflitos teriam menor intensidade. Quando se descobre que alguém, em seu juízo, cometeu um erro ou age de forma imprópria, as pessoas sentem necessidade, ou até satisfação de criticar. Portanto, parece que a fofoca, até um certo grau, favorece a coesão. Quando se dissemina, provoca a divisão.

3 – Não devemos nunca esquecer que as organizações sociais e políticas de esquerda não estão imunes às pressões do meio em que estão inseridas. Não vivem sem interações sociais mais amplas. As circunstâncias impostas pela gestão catastrófica da peste que nos assola acentuaram as condições do isolamento. As diferentes correntes da esquerda funcionam, com maior ou menor intensidade, através das conexões virtuais. Uma maior solidão não diminui a importância subjetiva das relações de confiança pessoal. É previsível, portanto, que a intimidade tenha maior importância, quando os contatos ampliados sofrem obstáculos maiores. Na pandemia é provável que a fofoca tenha aumentado.

4 – Quando decidimos integrar um coletivo fazemos uma aposta. A não ser nos pequenos círculos, não conhecemos pessoalmente todos aqueles que fazem parte da organização. Toda aposta tem margens de incerteza. Mas ainda que deva existir sempre liberdade para a dúvida ou crítica, o cimento de todo movimento de luta contra a exploração e a opressão é a segurança de que estamos entre camaradas. Um clima de suspeita semeia a desunião, a dispersão, a fragmentação. Quando se perde a confiança mútua a militância não é mais possível. Existem vários graus na escala da confiança, evidentemente. Confiamos mais em alguns do que em outros. E quem confia confidencia é inevitável. Militantes dialogam sobre os acontecimentos, mas, também, sobre o que acontece em suas vidas, e têm opiniões sobre os outros e suas vidas. Gostamos de compartilhar aprovação e críticas. Uns mais, outros menos, falamos bem e mal uns dos outros. A fofoca seria uma traição da intimidade. Uma confissão feita em reserva e confiança não deveria ser espalhada. Mas é. 

5 – A fofoca mais nociva é aquela conversa que remete à vida privada dos outros. Fofoca é uma indiscrição maliciosa sobre o comportamento pessoal. Não há como evitar conflitos entre militantes. Em um coletivo convivemos com uma enorme variedade de diferenças individuais. Primeiro, há as origens de classe, gênero, raça, as gerações, as experiências de vida, a formação cultural. Tudo que amplia a diversidade e enriquece uma organização pode também fragilizá-la com rivalidades. Depois, há o choque de personalidades. Alguns são discretos e outros exuberantes. Há os narcisistas e os humildes. Os ambiciosos e os circunspectos. Os devotados, porém, difíceis, e os brilhantes, mas complicados. Os constantes e os instáveis. Não fosse o bastante, as pessoas têm as mais distintas preferências sobre tudo. Maneiras mais comuns ou mais extravagantes de vestir, de falar, de comer, qualquer coisa. Os que são mais iguais entre si se reconhecem e constroem relações de confiança com mais facilidade. Falar mal de alguém que não está presente e que nos parece, estranhamente, distinto, não é incomum. Mais grave, existem as fofocas verdadeiras e as falsas. Fofoca é disseminar informações sobre a intimidade dos outros. Mas quando é mentira é uma desonra, infâmia, calúnia. A questão, portanto, é: como se explica, por quê? 

6 – A influência da esquerda é importante no Brasil, porque opera na escala de milhões, seja através da intervenção direta, seja pela divulgação de ideias nas redes virtuais. A ampliação do acesso à internet produziu uma mudança de qualidade na interação política da esquerda com sua base social e entre as correntes. A imprensa escrita era a referência “oficial” das distintas posições. Individualmente, os ativistas conversavam, essencialmente, de forma presencial com aqueles que se encontravam nos locais de trabalho ou estudo, nos espaços comuns ou nos eventos. Isso mudou. Ao longo dos últimos anos, cada militante construiu redes de contatos diretos com centenas ou até milhares. As figuras públicas têm acesso a dezenas de milhares ou mais. Uma intriga nessas condições de circulação vertiginosa de informação é um dilúvio vulcânico.

7 – Não há nada de errado em polêmicas públicas. Um debate é uma das formas mais educativas de formação. As forças organizadas da esquerda não vão além de algumas dezenas de milhares. Somos de alguma maneira uma “bolha” subdividida em “bolhas” menores. A bolha sindical, a estudantil, a LGBTI, a negra, a popular, a acadêmica, a feminista, a ambiental, a cultural, e por aí vai.  Os petistas, os psolistas, os do PCdoB, os estalinistas, os trotskistas, os anarquistas, e por aí vai. Nelas e entre elas conversamos, discutimos e polemizamos. As chamadas “tretas” proliferam de forma hemorrágica. Se a informação compartilhada, reservadamente, é de domínio público e verdadeira, não há nada de errado na crítica. Se não o fazem em público é porque, em primeiro lugar, não querem se expor. Em ambientes seguros há menos fofocas. Onde há receio de reação ou até de represália, há alguma dissimulação. Mas há, também, o boato, a intriga, a conspiração. E não é só a curiosidade e o medo que estimulam as cizânias.

8 – Um dos critérios da esquerda é que a militância é uma atividade que se vive coletiva e presencialmente. A esquerda valoriza reuniões. Reuniões são um espaço em que se discute a realidade em que estamos inseridos e o que fazer. O princípio de conduta que atribui sentido á luta socialista e deve prevalecer é o da transparência. A retidão de caráter compromete os ativistas a dizerem o que pensam na frente uns dos outros. Portanto a intriga é condenada. Depois de um ano em que a maioria das reuniões é virtual e, portanto, mais rápidas, e os contatos pessoais são, essencialmente, telefônicos, ficou muito mais difícil o funcionamento de organismos. Mas ainda assim há bisbilhotice e mexericos entre nós.

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9 – A experiência confirma que não há movimento, corrente ou partido em que não haja fofoca. Em maior ou menor medida há rumores, diz-que-diz, zunzunzuns, ti-ti-ti, ou seja, rumores. Mas há alguma confusão sobre o que é e não é fofoca. Trocar informações ou opiniões políticas em confidência não é fofoca. Entre alguns militantes se estabelecem relações de confiança maiores do que entre outros, o que é normal. A camaradagem favorece a conversa informal. As pessoas formam juízos uns sobre os outros. Somos todos, em maior ou menor medida, pessoas que cometem erros, temos defeitos, estamos em transformação, inacabados. Seremos criticados, faz parte da vida militante.

10 – Os diálogos políticos reservados remetem à esfera da vida pública. Não há nada de errado em falar o que se pensa fora de reuniões, inclusive sendo, severamente, críticos sobre as ideias ou comportamentos de outros. O critério de que militantes só podem dizer o que pensam em reuniões formais de organismos é inviável e até absurda. Uma organização política não é uma irmandade silenciosa ou conspiração militar. Um ambiente de intriga permanente de corte bizantina é irrespirável. A esquerda deve ser saudável.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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