Ser mulher no mercado do amor – Por Ingrid Gerolimich

No existencialismo francês costuma-se dizer que ser livre não significa “obter o que se quer", mas “determinar-se a escolher”. Ou seja, a liberdade está no nosso poder de escolha

Dia desses ouvi de uma mulher a máxima que todo homem é mulherengo e que isso não seria exatamente um problema, pois caberia às mulheres administrarem esse fato para, segundo ela, não terminarem sozinhas. E, isto sim, na sua visão, seria um grande problema.

Tem duas coisas que obviamente me incomodam nesta fala: a primeira é essa ideia já tão fora de moda (ou cringe, para agradar a geração Z) de que homem não consegue se controlar quando o assunto é sexo. Na vida, estamos o tempo todo exercitando nosso autocontrole nas mais diversas situações. No caso do sexo isso não é diferente, caso contrário, todo homem terminaria sendo um estuprador diante de uma eventual recusa, já que seria assim tão impossível se controlar, não é mesmo? A questão, naturalmente, não está então, em ter ou não autocontrole, porque isso se sabe que o homem tem, mas em como a mulher ainda é vista e tratada enquanto um corpo objeto de consumo em nossa sociedade.

Há muitas possibilidades de arranjos numa relação: monogamia, poligamia, relacionamentos abertos, etc. Mas, falar sobre isso sem conversarmos sobre a forma nada saudável com que exercemos a nossa sexualidade no mundo capitalista, uma sexualidade fast food aprendida através da pornografia e que objetifica a mulher, seria um tanto quanto inócuo. De qualquer forma não vou me ater a esse tema, pois isso já é assunto para outro texto.

A segunda coisa que me incomodou profundamente na fala dessa moça e é a que vou me ater aqui, é essa ideia de sujeitar a mulher na sociedade ao medo da solidão e tudo isso como uma consequência da rejeição masculina.

É impressionante como, apesar de todos os avanços das últimas décadas, ainda permanece em nosso imaginário o sentimento de que só somos completas se formos escolhidas por outrem. E este é, na minha visão, um dos maiores empecilhos a uma verdadeira libertação feminina. Pois, de uma forma muito equivocada e leviana, fala sobre algo que acreditamos ser determinante para a felicidade humana: o amor romântico.

Acontece que, neste caso, o significado da palavra “amor” foi distorcido de tal forma que perdeu seu lugar de potência para assumir, principalmente em relação às mulheres, uma função castradora, anulando nossa existência como sujeitos livres e com desejos próprios para submeter nossa afetividade e sexualidade ao exercício do poder masculino.

Como consequência dessa lógica, estar só deixa de ser uma opção para se tornar um martírio, um castigo, um atestado da incompetência em se fazer ser amada. E, de acordo com esta narrativa, ainda que tenhamos êxito em diversas áreas da vida, este ainda se constitui como um pilar central sem o qual não seria possível ser feliz.

Esta é uma maneira de se exercer controle social sobre os corpos femininos, pois, fazendo-nos temer a solidão de não sermos escolhidas, aplicam todo tipo de regras sobre como devemos nos comportar e sobre quando devemos silenciar a fim de não sofrermos as consequências de tais atos . “Vai ficar para titia”, pois “nenhum homem vai querer uma mulher assim”. Quem nunca ouviu algo desse tipo?

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Na minha opinião, esta é uma das formas mais cruéis de submissão humana, pois faz acreditar que o amor não está acessível a todos e que o objetivo não é o de amar, mas ser objeto do amor do outro, algo sobre o qual não temos o menor controle. Isso reduz e limita a existência de muitas mulheres a uma prateleira neste mercado amoroso, torcendo pelo momento em que finalmente seremos escolhidas.

No existencialismo francês costuma-se dizer que ser livre não significa “obter o que se quer”, mas “determinar-se a escolher”. Ou seja, a liberdade está no nosso poder de escolha. Isto significa que nós, mulheres, jamais seremos verdadeiramente livres enquanto este poder for delegado ao outro.

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Neste sentido, ficar só passa a ser uma opção tanto quanto a de se relacionar, pois finalmente entende-se que não estamos neste mundo para ser objeto de consumo de ninguém e muito menos que o amor encontra-se neste ato de “consumir” e “ser consumida”.

O amor que é passível do nosso controle é aquele que podemos sentir por nós mesmas e este sim é o pilar sobre o qual devemos alicerçar toda a nossa existência. Assim, mulher nenhuma ficará à mercê de relações nas quais homens carecem da impotência feminina para exercer o poder que ainda acreditam vir do seu falo.

É por isso que sempre digo e reafirmo que amar a si é um ato revolucionário. E a melhor parte é que isso nunca vai sair de moda.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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