“Não aguento mais não aguentar mais” – Por Ingrid Gerolimich

A fantasia pode ser potência de vida, enquanto que a racionalização pode ser sinônimo de fuga, de escapismo e, consequentemente, da ausência da vida.

Um dia ouvi esse desabafo de um amigo, que escutou de uma amiga, que talvez tenha escutado de mais alguém. E fiquei por um tempo pensando sobre o significado dessa frase, principalmente em tempos tão estranhos como esse em que estamos vivendo.

Fiquei tentando me lembrar das vezes em que me senti assim, dos momentos em que achava que não ia aguentar mais, mas aguentei. O que eu fiz para superar aquelas situações desafiadoras?

Foquei o máximo que pude nos detalhes de cada uma destas vezes em que caí e me levantei para, quem sabe, achar um denominador comum entre elas, algo que pudesse me levar a um método, uma técnica, uma fórmula, sei lá. Seria incrível poder criar um passo a passo para livrar pessoas deste sentimento de não aguentar mais.

Muitas coisas me vieram à cabeça: terapia, meditação, banho quente, conversar com amigos, caminhar, brincar com animais, assistir a um filme. Todas essas coisas sempre me ajudaram muito, mas ainda não era isso, esses são instrumentos que utilizamos para despertar algo que já está dentro de nós. E o que era isso que já existia dentro de mim que me fazia dar a volta por cima sempre?

Força, talvez?

Ao contrário do que muitos que me conhecem pensam, nunca me considerei uma pessoa forte, nasci com as dores do mundo dentro de mim e sempre foi um enorme desafio lidar com elas. E ainda tem esse mundo do lado de fora que devora a gente num segundo, fazendo com que precisemos criar aquela velha e conhecida carcaça para performar a mulher forte, a que segura o tranco. Se alguém aqui se identifica, levante a mão.

Então, o que seria?

Cheguei à conclusão de que resposta é “sonhar”. É isso. Eu nunca perdi a capacidade de sonhar.

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Outro dia, num desses momentos desafiadores da vida, alguém me disse que eu acredito em contos de fadas, em forma de crítica, é claro. Aquilo me causou profundo desconforto de início, não por me comparar a uma ingênua Amelie Poulain, mas porque essa pessoa quis me fazer acreditar que nas nossas vidas não há espaço para o sonho, quer seja o sonho como algo a ser realizado ou somente a fantasia que se basta em si.

Em “Escritores Criativos e Devaneios”, Freud faz uma análise sobre as fantasias e a imaginação da criança e pergunta: “Acaso não podemos dizer que ao brincar, toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade?”.

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Eu me pergunto e pergunto a vocês. E não é justamente aí que se encontra a maestria, na capacidade de criar o seu próprio mundo para aí sim conseguir caber nele?

Freud costumava dizer que os poetas descobriram o inconsciente antes dele e chamava esse conhecimento de “o saber dos poetas”, aos quais atribuía a capacidade de extrair “do turbilhão de seus próprios sentimentos as intelecções mais profundas”. Um saber imediato e não mediado, um ver sem olhar, pois não advém de uma construção do ego.

Winnicott chamava de “falso self” aquilo que ele acreditava ser o abandono de tudo o que há de mais espontâneo em nós. O falso self é uma forma de defesa que oculta e protege o verdadeiro self, este sim livre e criativo, que dá sentido à existência de cada um de nós. O falso self vive para agradar e ser aceito, o verdadeiro self simplesmente vive.

Assim, cabe problematizar junto àqueles que têm por hábito racionalizar tudo, que um dos mecanismos de defesa do ego é justamente a racionalização. Anna Freud dizia que este é um recurso inconsciente do ego através do qual o sujeito emite uma explicação aparentemente lógica com o objetivo de evitar o confronto com desejos e sentimentos que não consegue aceitar ou lidar, disfarçando assim seus conflitos internos para si mesmo e para os outros. Como no exemplo da fábula da raposa, que não conseguindo ter acesso às uvas que queria, justificou para si própria que elas não interessavam porque “estavam verdes”.

Neste sentido, acredito que a fantasia pode ser potência de vida enquanto que a racionalização, no contexto aqui colocado, pode ser sinônimo de fuga, de escapismo e, consequentemente, da ausência da vida. Então, assim como Scherazade, que adiava a sua morte contando estórias para o sultão, adio a minha morte criando as minhas próprias histórias das mil e uma noites capazes de gerar de mim não só um mundo, mas todo um universo. Essa é a minha força.

E é por isso que sigo, assim como a sábia Manu Gavassi, acreditando em fadas. E vocês? Também acreditam nelas?

**Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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