Raphael Silva Fagundes

20 de julho de 2019, 09h50

O conto da carochinha: a união entre patrões e empregados para um mundo melhor

Raphael Fagundes: “A ideia principal defendida pelo ponto de vista da direita é a premissa de que o capital tem o interesse de desenvolver toda uma nação e não apenas expandir as posses de seu dono”

Foto: Agência Brasil

Essa ideologia abrange os dois lados do espectro político. A direita formula a ideia de que os patrões, laureados com seus grandes recursos e investimentos, são os mais aptos para desenvolver o país; um raciocínio que, por sinal, assemelha-se ao da década de 1930, quando se acreditava em uma “burguesia nacional”.

Hoje, o capital estrangeiro possui um charme maior. Pelo menos em terras tropicais, onde é atribuído a ele um poder de sedução exagerado. Outrora, os sindicatos foram controlados pelo Estado, hoje, eles são exauridos para, assim, abrir espaço a uma suposta modernização da economia.

Bolsonaro deixa claro que os trabalhadores dependem dos investidores, mas estes, por sua vez, só estariam interessados no Brasil caso as leis trabalhistas fossem mais flexíveis. Depois da Reforma Trabalhista, veio a Reforma da Previdência, que animou o mercado financeiro; a mídia comemorou e, agora, fomenta o discurso das privatizações…

A ideia principal (o conto da carochinha) defendida pelo ponto de vista da direita é a premissa de que o capital tem o interesse de desenvolver toda uma nação e não apenas expandir as posses de seu dono…

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Por outro lado, existe uma ideia que encanta os membros da esquerda. É a famosa conciliação de classes (outro conto da carochinha). Patrões e empregados unidos, em um mundo sem classes sociais antagônicas, para combater as contradições desencadeadas pela sociedade industrial. A industrialização levou a mulher ao mercado de trabalho, portanto, é preciso libertá-la do fogão e da imagem tradicional atrelada a ela. Os excrementos liberados pelas fábricas causam danos ao meio ambiente, portanto, as empresas precisam se dedicar a projetos contrários ao desmatamento, poluição etc.

Símbolos dessa visão de esquerda, que cultua uma sociedade de risco e que, esquizofrenicamente, não enxerga mais uma sociedade de classes, são as corporações do Vale do Silício, as quais financiam movimentos pela legalização do aborto, das drogas e das liberdades sexuais.

O modelo da direita, que funde patrões e empregados, é mais conservador. Busca uma união por meio da hierarquia, na qual o trabalhador deve reconhecer a sua posição de dependência. Esse raciocínio de direita, também não se importa, por sua vez, com as liberdades sexuais e, quanto ao meio ambiente, as palavras de Trump e do governo conservador que foi eleito pelos brasileiros nas últimas eleições, servem mais do que exemplos de vilipêndio em relação ao setor.

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A esquerda visa conter os impactos causados pela industrialização, quer reconfigurar a sociedade para se adaptar aos novos tempos. A direita, por seu turno, não se importa com esses impactos, alegando ser exagero dos estudiosos. O objetivo deste último grupo é única e exclusivamente a expansão do capital em seu modelo tradicional.

Enfim, vivemos em uma era que se tornou dominante na política pensar por meio da relação harmônica entre patrões e empregados. Todos creem, liberalmente, que é possível a união dessas duas classes em prol do progresso, seja social ou econômico. O problema é que (como nos lembra o ditado popular) a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Portanto, quando o sistema capitalista entra em crise (o que é normal devido à lógica do seu próprio ciclo), os trabalhadores são os mais prejudicados, tendo que ceder suas conquistas em prol do restabelecimento da economia.

Isso aconteceu tanto na Europa, onde governos de centro-esquerda se entregaram aos interesses do mercado, o que decepcionou muita gente dos setores progressistas e, por conta disto, a extrema direita vem ganhando espaço; quanto no Brasil, e em outros países da América Latina, como na Argentina, onde a direita vem adotando uma política de austeridade para salvar as grandes fortunas.

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Seria sensato propor o fim dessa ideologia que está se tornando a mentalidade política de nosso tempo? Pelo menos, do lado da esquerda, é preciso rever essa questão, já que do ponto de vista da direita tudo não passa de uma retórica para manter a dominação e o incremento do capital.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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