O que o brasileiro pensa?
03 de abril de 2020, 00h05

O panelaço nosso de cada dia (ou de toda noite)

Você sabe a origem da bateção de panela?

Reprodução/Twitter

Reclusos em casa para conter a propagação do coronavírus, os brasileiros adotaram o panelaço para extravasar seu descontentamento com os rumos do país, que já vinha em profunda crise econômica e social que se agravou com o advento da pandemia, sem que o governante mor tome as rédeas do combate nas diversas frentes de batalha que se abriram – econômica, social, sanitária e humanitária. O ato vem sempre acompanhado de palavras de ordem contrárias ao presidente, sintetizadas em “Fora, Bolsonaro!”.

Ainda assim, nos primeiros dias deixou uma certa dúvida em setores progressistas sobre a natureza política desse tipo de protesto em terras tupiniquins, já que, em período recente, aqui no Brasil, esteve diretamente associado a movimentos de direita que golpearam o governo de Dilma Rousseff e, em consequência, conduziram ao atual estado de coisas.

Ironicamente, as panelas que bateram lá, batem agora aqui. E batem mirando justamente aquele que foi o maior beneficiário dos panelaços de outrora. Nesta época dramática de epidemia mundial do vírus corona, os panelaços no Brasil tornaram-se um símbolo da resistência dos brasileiros em quarentena. É como se o corona tivesse viralizado no país a ira contra Bolsonaro. Todas as noites as janelas e sacadas de prédios e casas de Norte a Sul e de Leste a Oeste do país se transformam em pontos barulhentos pelos quais os moradores manifestam seu repúdio ao presidente da República que teima em negar o perigo da doença e, pior, insiste em sabotar as medidas de contenção adotadas por governadores, prefeitos, autoridades e profissionais da Saúde – inclusive seu próprio ministro –, cientistas e a população em geral.

Para além de rechaçar Bolsonaro, algumas dessas recentes manifestações com aplausos, projeções de laser, apitos, panelas e outros objetos barulhentos se destinam a homenagear os profissionais da saúde que estão sob riscos nos hospitais, unidades básicas, farmácias e outros locais de atendimento à população que necessita de socorro, de medicação, de esclarecimentos. Portanto, seja para homenagear ou para criticar, as panelas se tornaram objeto símbolo do triste momento que estamos atravessando.

E não só no Brasil. O bater panelas (“cacerolazo”), originado na América do Sul e presente em dezenas de lutas políticas em países da região desde meados do século 20, compareceu também na Espanha neste período de pandemia do coronavírus. Lá, os espanhóis protestaram durante um pronunciamento do Rei Felipe VI reivindicando que ele doasse milhões de euros para hospitais públicos, que estão sob o caos. Nos Estados Unidos também houve há poucos dias protestos nas janelas por receio de as pessoas perderem o emprego, não conseguirem pagar o aluguel ou a hipoteca e ficarem sem suas casas, uma preocupação que assombra milhões de pessoas em todos os continentes. Um dos organizadores do protesto em Denver (no estado do Colorado) declarou ter se inspirado nas manifestações brasileiras contra Bolsonaro. O vizinho Uruguai também registrou panelaços para exigir do governo recém-empossado que tome medidas para proteger os trabalhadores que estão perdendo empregos, renda e a própria saúde.

Mais associadas à esquerda, principalmente na Argentina, essas manifestações com panelas, frigideiras e outros utensílios domésticos não têm exatamente um lado. Por serem fáceis de viabilizar, e podendo ocorrer sob anonimato, são adotadas por movimentos de todos os espectros, dependendo da situação política e do governo vigente no país ou na cidade em que ocorrem. Basicamente são demonstrações de oposição a algum poder estabelecido.

No Brasil, à época do regime militar, o Movimento Contra a Carestia tinha panelas vazias como símbolo da luta contra o alto custo de vida e reunia mulheres da periferia para fazer panelaços no Centro de São Paulo e em outras cidades brasileiras. Em 2002, a abertura do segundo Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, na presença de representantes de mais de 200 países, teve batida de caçarolas liderada pelas Mães da Praça de Maio (Argentina), grupo formado no período da ditadura militar no país vizinho para buscar filhos e outros parentes torturados, assassinados e desaparecidos durante aqueles anos de chumbo. Las Madres de Plaza de Mayo ajudaram a popularizar o uso dessa forma de protesto em inúmeras manifestações políticas em solo portenho desde 1982.

Fato é que, nos dias atuais, organizados via redes sociais, especialmente aplicativos de celular, esses protestos mostram-se eficientes não apenas pela rápida disseminação da informação, mas também para o alinhamento de palavras de ordem que organizam reivindicações e unificam a luta, além de aproveitar a ocasião para transmitir orientações sobre cuidados de saúde aos participantes. Uma forma de ativismo que anima e engaja pessoas de todas as partes do globo neste momento em que, paradoxalmente, o mundo globalizado se vê obrigado a fechar fronteiras e confinar seus cidadãos para preservar a humanidade.

Os panelaços dessa era da Covid-19 tornaram-se ato político não apenas de organizações sindicais, estudantis e partidárias, como também de cidadãos comuns que, sem poderem se reunir nas ruas para desancar a figura nefasta à frente do governo central, aderiram a essa forma de manifestação instantânea e barulhenta que pode ocorrer massivamente sem romper o isolamento social necessário no combate ao vírus. Momentaneamente, as pessoas saem das ruas e vão às janelas para dar o seu recado. No Brasil, o recado das panelas é antifascismo, antiliberalismo, antipobreza. Por democracia, por justiça social, por proteção à vida das pessoas desamparadas.

*Carina Vitral é presidenta nacional da União da Juventude Socialista, presidiu a UNE e foi candidata a prefeita de Santos


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