Raphael Silva Fagundes

03 de agosto de 2019, 20h16

“Os intelectuais não conhecem a realidade”: a frase que conforta os idiotas

Raphael Fagundes: “Ler ainda é a melhor maneira de encontrar boas ferramentas para interpretar, de forma lúcida, o excesso de informações que trafegam na realidade atual. Ler livros, principalmente”

Foto: Reprodução

Algumas pessoas, que acreditam pertencer à classe trabalhadora, gostam de deslegitimar as palavras dos intelectuais – principalmente sociólogos e filósofos – dando a seguinte resposta defensiva: “Vocês não conhecem a realidade”.

Esse argumento não põe em contradição teoria e prática, serve apenas de lugar-comum para que alguns indivíduos possam se proteger de sua falta de conhecimento, tanto sobre a teoria quanto sobre a realidade a que estão submetidos. E esse desconhecimento vem dos trabalhadores mais instruídos e economicamente “confortáveis”, que usam como desculpa o fato de trabalharem – como se o intelectual não trabalhasse – a razão de não terem tempo para ler. Digo isto com a propriedade de ter sido criado na favela e de me formar doutor vivendo na região mais vilipendiada da capital do estado do Rio de Janeiro, a Zona Oeste.

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Concordo com o que afirmava Oscar Wilde: “A miséria e a pobreza são […] degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana que nenhuma classe consegue realmente ter consciência de seu próprio sofrimento” (1). Este é realmente um problema chave. Viver na pobreza impede o acesso aos elementos interpretativos que podem servir para reconhecer nesta condição econômica o motivo principal para a luta política revolucionária. Ela é, em seu extremo, alienante porque os elementos usados pelas classes dominantes para empobrecer os outros são, também, alienadores. E isto, enfim, impede o acesso à realidade por aquele que vive na “realidade”.

Por muitos anos, as pessoas sofriam de presbiopia (não enxergar de perto). Contudo, o fato de que a maioria não exercesse a atividade da leitura, a noção que se tinha desse mal era praticamente inexistente. Era um problema que não incomodava ninguém. A leitura era reservada apenas aos monges que liam à luz de velas.

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O que mudou tudo isso, foi a invenção de Gutenberg nos anos 1440. As informações impressas começaram a circular de forma intensa e um número cada vez maior de pessoas viu a necessidade de discernir as pequenas letras que se multiplicavam e penetravam peremptoriamente em seu cotidiano. A imprensa, portanto, como explica o best-seller de Steve Johnson, “fez um número enorme de pessoas tomar consciência, pela primeira vez, de que era presbíope, e essa revelação aumentou a procura de óculos” (2).

Da mesma forma funciona a nossa compreensão da “realidade”. As pessoas só têm consciência dela quando algo novo é introduzido, algo que serve de ferramenta que intermedeia a nossa relação com o mundo. Ideais surgem desta maneira, como disse Wittgenstein: “A ideia está colocada, por assim dizer, como um óculos sobre o nosso nariz, e o que vemos, vêmo-lo através deles”.

Michel Foucault entende que o objeto emana perante nossos olhos através de relações complexas entre instituições, processos sociais e econômicos, tipos de classificações etc (3). Por exemplo, por muitos anos, uma menina se casar com quinze anos, ter um escravo, misturar religião e política, defecar nas ruas etc, nunca foi um problema. Diversas coisas aconteceram entre os séculos XVII e XVIII que fizeram com que tudo isso se transformasse. A escravidão teria fim se não existisse a ideia de que todos somos iguais, forjada pelos iluministas? Se não fosse uma necessidade econômica de mercado consumidor? Se os ideais e movimentos anticapitalistas não se espalhassem pelas diversas partes do globo?

O sociólogo José de Souza Martins mostra que há um “romantismo ingênuo” que marca os estudos sobre a cultura popular. “O comportamento coletivo não se desdobra necessariamente nos movimentos sociais nem neles se transforma. Ao contrário, ele tende a se constituir e a se manifestar como tendência oposta à destes últimos” (4). Este é um problema sociológico que podemos encontrar em diversos autores. O povo não é por natureza revolucionário, tem muito mais o intuito de conservar que de transformar.

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Enxergar as classes trabalhadoras como capazes de adquirir consciência por meio do próprio cotidiano, um ponto de vista oriundo do historiador inglês Edward Thompson (que analisa um tipo específico de configuração social), não condiz, necessariamente, com a realidade. A esquerda embarcou nessa viagem e dobra todos os objetos que estuda a tal teoria thompsiana. Isso fez com que alguns socialistas abandonassem a própria questão econômica como base de sua preocupação, pois se convenceram de que os operários se libertariam mais cedo ou mais tarde das garras do capital.

Não foi o que aconteceu. O que se sucedeu foi um vácuo sobre uma interpretação revolucionária em relação às condições econômicas da pobreza. Esse vácuo, por seu turno, está sendo preenchido pelos instrumentos interpretativos forjados pela direita conservadora, que hoje, de forma suja e vil, encastelou-se no poder. Isso explica porque, atualmente, é muito mais comum ver um trabalhador defender a perda dos direitos trabalhistas.

Bolsonaro conseguiu parir um exército destes “realistas”. E para alimentar a sua cria, o presidente nega fatos históricos documentados sobre a ditadura, ao mesmo tempo que nega fatos reais de seu país, como a fome e o desmatamento, ambos comprovados por diversas pesquisas.

Por seu turno, para combater a inteligência é preciso ser estúpido, como o ministro da Educação, Weintraub, que, sem argumentos para depreciar Paulo Freire, foi obrigado a dizer que o mural em frente ao MEC, com a imagem do renomado educador brasileiro, é “feio de doer”.

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A empreitada contra os intelectuais, encabeçada por Bolsonaro, tem a adesão de muitas pessoas por meio desse argumento: “O intelectual não conhece a realidade”. Um argumento falso, já que nem Bolsonaro e nem o próprio povo conhecem tal realidade. Sentir (viver) é diferente de conhecer. Em meio a um incêndio florestal, o indivíduo que está sendo devorado pela fumaça inebriante, não consegue ter conhecimento de onde emanam as chamas, mas aquele que de longe observa, de uma montanha ou de um avião, consegue.

Ler ainda é a melhor maneira de encontrar boas ferramentas para interpretar, de forma lúcida, o excesso de informações que trafegam na realidade atual. Ler livros, principalmente. Acessar estudos desenvolvidos por métodos científicos, isto é, embasados em dados e que foram subjugados a análises de outros especialistas, é a forma fundamental para termos um discernimento refinado sobre a “realidade”. O médico não aprendeu a lidar com o câncer desenvolvendo a doença em seu organismo, o psicólogo não adquiriu a habilidade de tratar transtornos por que estes atormentavam a sua mente, o biólogo compreende a composição celular de uma rã muito melhor que a própria rã…

1-WILDE, O. Desobediência: a virtude original do homem. In: WOODCOCK, G. Os grandes escritos anarquistas. Porto Alegre: L&PM, 1998. p. 67.
2-JOHNSON, S. Como chegamos até aqui: a história das inovações que fizeram a vida moderna possível. Rio de Janeiro: Zahar, 2015, p. 23.
3-FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do saber. 7 ed. Trad: Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. P. 50.
4-MARTINS, José de Souza. Linchamentos: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015. p.75.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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