Para onde vão nossos silêncios quando não dizemos o que sentimos? Por Ingrid Gerolimich

Não podemos achar normal calarmos nossa voz assim, diante do que sentimos, como também não existe este duelo entre razão e emoção, no qual uma precisa derrotar a outra.

Desde pequena nunca entendi direito essa coisa de não podermos dizer o que sentimos sempre que sentimos. E, conforme fui crescendo, esse estranhamento não mudou. Talvez porque ao nascer fui “premiada” como uma daquelas pessoas que viriam pra viver as emoções de forma um tanto quanto alucinada, tudo ao mesmo tempo e agora, na intensidade e velocidade cinco da saudosa dança do créu.

Agora, imagina para uma pessoa assim fingir que não ta nem aí, que nem doeu quando está doendo, muito. Duro. Não preciso nem dizer que a falta de habilidade em bancar a Frozen versão tupiniquim me rendeu desde a mais tenra idade o selo “Tá F…”, válido para relacionamentos e afins em âmbito nacional, internacional e até extraterrenos.

É claro que a forma como sentimos as coisas é responsabilidade nossa e a maneira como externamos isso precisa caminhar junto com uma consciência depurada a respeito dessa responsabilidade e sobre aquilo que cabe a nós e o que acreditamos caber ao outro. Não se trata, portanto, de projetar ou atribuir a alguém um dever ou uma função que é nossa. Precisamos atentar para isso e nos comprometer com um constante processo de evolução em relação ao que sentimos e como sentimos.

Mas, o assunto deste texto é outro: é sobre o fato de que desde sempre aprendemos que demonstrar o que sentimos é sinônimo de fraqueza, é se permitir surgir vulnerável diante do outro e isso é visto como um erro gravíssimo. Fomos ensinados que a razão deve sempre estar acima da emoção, como se esta última fosse um inimigo a ser combatido, não havendo espaço para que ambas caminhem juntas. Uma tem que inevitavelmente vencer a outra. E quem não consegue essa “maestria” está automaticamente derrotado.

Aprendemos que chorar é sinal de descontrole, homens fortes não choram e mulheres só o fazem porque tem TPM, são sensíveis demais, enfim, porque nascemos desprovidas dessa razão onipotente oriunda de um universo masculino marcado pela ideia da competição, da subjugação, produto de uma cultura que enxerga sempre o outro como um adversário, um inimigo em potencial. E, neste universo de disputas, esconder as emoções é tarefa obrigatória para a sobrevivência.

Tudo isso me soa tão cansativo.

Corta para as relações amorosas… Lembro uma vez em que estava sofrendo após passar pelo tão temível ghosting, uma prática que tem se tornado cada vez mais banal em tempos de laços tão efêmeros e significa o desaparecimento de alguém sem qualquer explicação quando tudo parecia bem, tipo o antigo “foi comprar cigarro e nunca mais voltou”. Angustiante.

Naquela semana tive dor de garganta, um claro protesto de um corpo que precisava falar.

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Lembro dos inúmeros diálogos com o vazio que tive durantes aqueles dias, quando eu mesma me acusava e me absolvia. Pensei em compartilhar minhas teorias com ele, mas sabia que não encontraria eco, achei que deveria ao menos dizer como me sentia, mas lembrei de tudo que ouvi por toda uma vida sobre não poder dizer o que sinto. Seria fraqueza. Então, calei.

Tempos depois, vi essa pergunta (Para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?) numa tirinha de quadrinhos da Mafalda, minha personagem predileta. Lembrei dessa situação que vivi e de tantas outras em que também achei que fosse melhor calar e fiquei por algum tempo pensando sobre qual resposta daria.

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Não sei se cheguei à tamanha conclusão, mas acabei chegando a outras: a de que não podemos achar normal calarmos a nossa voz assim, diante do que sentimos, como também a de que não existe este duelo entre razão e emoção, onde uma precisa derrotar a outra, isso é algo que nos fizeram acreditar. E que, além disso, se despir nas nossas emoções diante do outro é muito mais um sinal de coragem do que de fraqueza.

Então, faço a todos nós um convite a um exercício no sentido contrário: o de falar. Falar quando alguma coisa nos incomoda ou nos machuca, falar quando estamos tristes e sentimos que precisamos compartilhar com alguém, falar se mudarmos de ideia, falar quando quisermos algo, ou quando não quisermos também. Falar quando tivermos dúvidas. Falar. Verbalizar. Comunicar-se. E, principalmente, dialogar, pois, não nos esqueçamos de que para toda fala há uma escuta, ainda que seja somente a nossa própria.

E você? Já parou para se perguntar para vão os seus silêncios quando você deixa de dizer o que sente? Compartilha aqui com a gente.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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