Paulo Freire e a educação contra o capitalismo – Por Raphael Fagundes

"Educar, para Paulo Freire, não é ensinar a matéria de modo que o aluno a compreenda melhor, mas que compreenda melhor a realidade que ele vive"

Um professor chega à sala de aula de uma comunidade no Rio de Janeiro e traz com ele uma pipa. Ele pretende usá-la para ensinar matemática aos seus alunos. Mostrando a armação da pipa, ensina ângulos de 90° e 45°, catetos e hipotenusas. Ele acredita que com essa didática está aplicando o método de Paulo Freire em sua atividade. Ledo engano.

O método do patrono da pedagogia brasileira não pode ser resumido desta maneira, porque para ele educação é política. Educação é uma “ação cultural através da qual se enfrenta, culturalmente, a cultura dominante”. Uma prática de libertação que visa primeiramente ao reconhecimento por parte do oprimido de sua condição de classe, para depois transformar a sociedade por meio de uma revolução socialista.

Sobre Che Guevara, Paulo Freire dizia “este homem excepcional revelava uma profunda capacidade de amar e comunicar-se”.[1] Em outra obra disse que o guerrilheiro argentino “foi um dos maiores profetas dos silenciosos do Terceiro Mundo”.[2] Trata-se do diálogo, de uma liderança não impor o que pensa, não ser bancário, não libertar os oprimidos, mas com os oprimidos. O mesmo pensava de Camilo Torres, “amoroso sacerdote guerrilheiro”.[3]

Freire comenta que Fidel Castro “exigiu o testemunho corajoso, a valentia de amar o povo e por ele sacrificar-se”.[4]

Freire também elogia a Revolução Cultural promovida por Mao Tsé Tung em 1966. Venera o projeto maoísta de “superação da dicotomia trabalho manual – trabalho intelectual” e a “permanente mobilização do povo, no sentido de, conscientemente, criar e recriar sua sociedade. Ser consciente, na China, não é um slogan ou uma frase feita. Ser consciente é a forma radical de ser dos seres humanos”.[5]

Para Paulo Freire, foi quando Getúlio Vargas se volta aos oprimidos, incentivando a união destes, que a sua queda foi anunciada. “Ao apelar veementemente às massas para que se organizassem, para que se unissem na reivindicação de seus direitos e ao dizer-lhes, com a autoridade de chefe de Estado, dos obstáculos, dos freios, das dificuldades inúmeras para realizar um governo com elas, foi indo, daí em diante, o seu governo, aos trancos e barrancos até o desfecho trágico de agosto de 1954”.[6]

As elites dominadoras “vão tentando conformar as massas populares a seus objetivos” por isso são antidialógicas. “A burguesia se faz de si mesma às massas com a possibilidade de ascensão”.[7] Ela cria um mito de ascensão social, prometendo que todos podem ser como elas se fizerem o que elas fizeram. Assim, promove o silêncio, fecha outros caminhos de ser. Ela impõe um destino a todos, mistificador da realidade presente.

Deste modo, entende Freire que “para os burgueses, o diálogo entre as massas e a liderança revolucionária é uma real ameaça, que há de ser evitada”.[8]

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Para Paulo Freire a educação tem como objetivo a consciência de classe dos oprimidos e não ler palavras ou fazer cálculos. “Analfabetos ou não, os oprimidos, enquanto classe, não superarão sua situação de explorados a não ser com a transformação radical, revolucionária, da sociedade de classes em que se encontram explorados”.[9]

Paulo Freire também fala de uma consciência histórica, de que a realidade é mutável, que o mundo está sendo e não é. É contra a “cultura do silêncio” na qual as classes dominantes falam e os dominados apenas escutam.

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O nosso professor que quer ensinar matemática, pelo qual iniciamos este texto, apenas transfere o conhecimento, não deixa de ser bancário, de transmitir através do conhecimento dos oprimidos a cultura do opressor.

Essa cultura do silêncio é fatalista, pois força os oprimidos a acreditarem que a vida é assim e não há como mudar. O desemprego e a miséria são meras fatalidades. “Do ponto de vista de tal ideologia, só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada”.[10]

No entanto, “a realidade, porém, não é inexoravelmente esta. Está sendo esta como poderia ser outra e é para que seja outra que precisamos, os progressistas, lutar”.[11]

Educar, para Paulo Freire, não é ensinar a matéria de modo que o aluno a compreenda melhor, mas que compreenda melhor a realidade que ele vive. Não adianta ele saber a matéria para passar em exames e tirar altas notas em testes. A sabedoria é para a práxis transformadora da realidade. O conhecimento deve servir para ele reler a realidade que já conhece, e mudá-la, não um instrumento para retirá-lo daquele mundo, deixando para trás, na miséria, na desgraça, aqueles que não passaram nas provas. “… dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada que ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos. Aprendidos, eles operam por si mesmos.”[12]

Para lutar contra o capitalismo, que promove um saber que serve apenas para a sua manutenção, Freire acredita que a função do professor é a de conscientizar. “Contra toda a força do discurso fatalista neoliberal, pragmático e reacionário, insisto, sem desvios idealistas, na necessidade da conscientização”.[13] É função do professor “desafiar os grupos populares para que percebam, em termos críticos, a violência e a profunda injustiça que caracterizam sua situação concreta”.[14]

A função do educador é a de provocar a leitura crítica da realidade do educando. “Uma das tarefas fundamentais do educador progressista é, sensível à leitura e à releitura do grupo, provocá-lo bem como estimular a generalização da nova forma de compreensão do contexto”.[15]

Perceba que, enquanto a pedagogia voltada para formação de capital humano, ou seja, a educação para o mercado defendida pela OCDE, que nos impede de ser livre para ser, vê as escolas como instrumentos de conformidade que promove “relações que reduzem o conflito entre as classes”,[16] a educação de para Paulo Freire é conflitiva, direcionada para a revolução social.

Na Pedagogia da Autonomia, Freire relata quando um de seus alunos o questionou sobre o fato de ser defensor dos sem-terra, “uns baderneiros criadores de problemas”, disse o educando. Freire respondeu que “baderneira é a resistência reacionária de quem se opõe a ferro e fogo à reforma agrária. A imoralidade e a desordem estão na manutenção de uma ‘ordem’ injusta”.[17] E conclui: “É assim que venho tentando ser professor, assumindo minhas convicções”.[18]

Podemos concluir que os liberais são contrários à pedagogia freireana, esvaziando-a de todo o conteúdo revolucionário aproveitando apenas o método do uso da realidade do educando. Eles desfiguram sua filosofia. Usam-na, covardemente, para o mal. Já os conservadores a odeiam por ser revolucionária. São reacionários como os liberais, porém mais sinceros, pois odeiam Paulo Freire justamente pelo que ele era, contra o capitalismo.


[1] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Brasiliense: São Paulo, 1970, p. 169.

[2] FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1976, p. 80.

[3] Pedagogia do oprimido, p. 169.

[4] Id., p. 163.

[5] Ação cultural…, p. 93.

[6] Pedagogia do oprimido, p. 148.

[7] Id., p. 144.

[8] Pedagogia do oprimido, p. 146-7.

[9] Ação cultural…, p. 48.

[10] FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e terra, 1996, p. 22.

[11] Id., p. 83.

[12] Id., p. 34.

[13] Id., p. 60

[14] Id., p. 89.

[15] Id., p. 92.

[16] SPRING, J. Como as corporações globais querem usar as escolas para moldar o homem para o mercado. Campinas, SP: Vide, 2018, p. 75.

[17] Pedagogia da autonomia, p. 79.

[18] Ibidem.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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