Por que diabos ninguém defendeu a estátua do Saddam? – Por Lelê Teles

Nenhum adorador de estátua teve a brilhante ideia de aconselhar os yankees a manterem a escultura intacta: "Galera, nada de arrancar, é só colocar uma plaquinha ao pé do pedestal explicando quem foi ele"

Abril de 2003, Praça Firdos, centro de Bagdá. Leon Lambert, sargento de artilharia estadunidense, juntamente com o seu colega, o cabo Edward Chin, encapuzaram a estátua de Saddam Hussein com uma bandeira dos Esteites, colocaram uma corrente em volta do seu pescoço e, com um veículo da marinha equipado com um guindaste, fizeram o colosso de 12 metros tombar.

A imagem foi transmitida, ao vivo, para todo o planeta.

A estátua ficava de frente ao hotel Palestine, onde estava hospedada a imprensa mundial que cobria, acriticamente, a bárbara destruição estadunidense.

A Fox News e a CNN, durante toda a programação daquele dia, mostraram o boneco de bronze caindo.

Uma poderosa bomba semiótica, diria Wilson Ferreira.

Os estadunidenses sabem muito bem o poder simbólico de um ato como este.

O secretário de defesa, Donald Rumsfeld, se apressou em falar aos repórteres: “as cenas de iraquianos livres celebrando nas ruas, montando tanques americanos, derrubando as estátuas de Saddam Hussein no centro de Bagdá são de tirar o fôlego. Ao observá-los, não se pode deixar de pensar na queda do Muro de Berlim e no colapso da Cortina de Ferro. ”

Entende o valor simbólico da iconoclastia?

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Agora, se você procurar, em todos os cantos da internet, não encontrará nem um único destes advogados da estátua de Borba Gato a defender, naquela época, a estátua de Saddam.

Por que diabos?

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Nenhum adorador de estátua teve a brilhante ideia de aconselhar os yankees a manterem a escultura intacta, “galera, nada de arrancar, é só colocar uma plaquinha ao pé do pedestal explicando quem foi Saddam”.

Não li uma mísera linha de alguém defendendo a estátua por seu valor arquitetônico, histórico, artístico, antropológico ou sexual.

Enfim, a hipocrisia.

O macho branco tem um pacto de autodefesa e autoproteção que aflora, de forma instintiva, toda vez que o seu “lugar de falo” se mostra ameaçado.

Por isso, não tem o menor pudor em usar os mais elucubrantes e delirantes argumentos para defender a estátua de um estuprador.

E olha que a estátua de Saddam tinha muito mais valor histórico e cultural que a de Borba.

É que a Mesopotâmia – onde se inventou a literatura, com a Epopéia de Gilgamesh -, tem uma tradição milenar na arte estatuária. Eles estatuavam soberanos, animais, deuses, seres mitológicos, o diabo.

Em Paris, no Louvre, encontra-se a bela Estátua de Gudea, o príncipe de Lagash.

Por isso mesmo, no Iraque, havia centenas de Saddams espalhados por todo o país.

Antes da performance yankee, os ingleses já haviam derrubado uma estátua equestre que ficava sobre um prédio público, em Barsa, com Saddam a cavalgar.

Os intelectuais brazucas, os defensores de estátuas, não saíram em defesa nem do pobre cavalo.

Embora dezenas de estátuas tenham sido arrancadas pelos militares, nenhum destes atos teve a força simbólica da estátua de Firdos, porque havia duas centenas de jornalistas hospedados a poucos metros do evento.

Um porta-voz militar dos britânicos deu a seguinte explicação para o ato iconoclasta: “o propósito disso é psicológico, para mostrar ao povo que ele [Saddam] não exerce influência, e atacaremos qualquer símbolo representativo dessa influência em erosão.”

Como se vê, uma estratégia de tomada do poder simbólico, como diria Bourdieu.

Porém, os jovens que tacaram fogo em Borba Gato – pardos, pretos e periféricos -, o fizeram por serem ignorantes, vândalos e não terem a menor noção do que significa uma estátua.

Estamos, veja bem, diante de duas hiperrealidades, como diria o bom Baudrillard: de um lado a estátua de Borba, que tenta criar uma nova realidade, falseando a história; o historiador gaúcho Eduardo Bueno, que já chamou o nordeste de “bosta”, chegou a dizer que Gato não matou ninguém, e que o bandeirante era amiguinho dos índios e “vivia entre eles como um verdadeiro cacique”.

Por outro lado, temos os críticos do ato periférico, afirmando que a bomba semiótica periférica ofuscou as manifestações de rua que pediam fora Bozo.

Ora, ora, ora, é claro que um monte de gente caminhando na rua, erguendo blimps, bandeiras de partidos e cartazes aforísticos não produzem absolutamente nada de espetacular.

Se faltou aos “organizadores” da manifestação um mínimo de criatividade revolucionária, a culpa não é da moçada que queimou o Borba.

Eles tiveram sucesso em dar o recado deles, nunca se viu tanto historiador falar em plaquinhas ao pé de estátua, uma ideia que nuca havia passado pela cabeça de nenhum acadêmico, até verem seu irmão de cor arder em chamas.

Entendo que a tática anárquica e pirofílica dos periféricos ofusca a estratégia pacifista e passivista da turma dos blimps, mas fazer o quê?

Quem não quer enxergar as coisas como elas realmente são, empenha-se em construir narrativas para falsificar a realidade, criando um simulacro paralelo.

Aí volto de novo a Baudrillard.

A pergunta é a seguinte: por que diabos a turma que defendeu com ardor as estátuas de Borba Gato, de Cristóvão Colombo, do rei Leopoldo II e de Edward Colston não teve o mesmo ímpeto para defender a escultura de Saddam, hãn?

Cartas para a redação.

Oremos ao senhor.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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