Pra que isso, Paulo Galo? – Por Rodrigo Perez

O identitarismo é cavalo de Troia dentro do território da esquerda brasileira. Afasta do povo real, das necessidades imediatas do povo real. Insisto no que já falo há algum tempo: a esquerda identitária não gosta de pobre. Gosta de militante

Fiquei entusiasmado com Paulo Galo no primeiro momento que o conheci. Representante dos trabalhadores precarizados, carismático. Pensei: será que está nascendo o Lula do capitalismo pós-industrial?

E o que acontece? Ao invés de organizar sua base, de politizar os entregadores de aplicativo, de falar de direitos trabalhistas e seguridade social, o cara vai lá e taca fogo na porra de uma estátua que não significa nada para absoluta maioria dos trabalhadores.

Quem liga pra esse tipo de coisa pra além do identitarismo militante? O sujeito que tá em cima de uma bicicleta alugada entregando pizza? O motoboy que se arrisca no trânsito de São Paulo? O motorista de Uber que tá pagando R$ 6 no litro da gasolina?

O identitarismo é cavalo de Troia dentro do território da esquerda brasileira. Afasta do povo real, das necessidades imediatas do povo real. Insisto no que já falo há algum tempo: a esquerda identitária não gosta de pobre. Gosta de militante.

Quando não é militante, quando não está devidamente iniciado, o pobre é machista, racista e homofóbico. É o bárbaro a ser civilizado, ou mesmo o inimigo a ser combatido.

E o trabalhador normal não gosta de incêndio na praça, não gosta de nada que atrapalhe o fluxo de uma vida que já é muito difícil. O trabalhador normal não tem tempo pra se envolver em disputas simbólicas. A urgência material grita mais alto.

Pra quê fazer algo assim? Tão pouco a ganhar e tanto a perder. Faltou senso de prioridade. Na política, quando falta senso de prioridade, falta quase tudo.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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