Raphael Silva Fagundes

09 de abril de 2019, 23h28

“Pressão está forte para me candidatar em 2022”: como combater o pseudopatriotismo

Raphael Fagundes: “As esquerdas precisam investir em narrativas que possam iluminar as pessoas que, por seu turno, sabem os problemas que as assolam, mas ainda estão presas, devido à ausência de assistência de um Estado laico, a princípios medievais”

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Após ter dito que não nasceu para ser presidente, Bolsonaro inicia a semana dizendo que “a pressão está forte” para se candidatar em 2022. Isso, talvez, porque o seu pseudopatriotismo pode ser mais útil do que nunca.

Portanto, as esquerdas devem se preparar para o que vai acontecer em 2022: serão comemorados os 200 anos da Independência. E, sem sombra de dúvida, o governo irá investir intensamente em um discurso que procurará manipular o acontecimento histórico para enquadrá-lo nos seus interesses.

As esquerdas devem traçar uma narrativa sobre a Independência destacando a exclusão do povo na tomada do poder central em 1822. A política elitista apresentada pelos grupos que levaram D. Pedro I ao poder e a concentração de terras sustentada pela escravidão.

Propor uma independência em que todos tenham participação política e que os interesses de todos sejam ouvidos e colocados para a discussão. Uma independência em que não haja apenas uma mudança de mãos entre os donos do poder.

No Brasil, deixamos de ser colonizados pelos portugueses para sermos colonizados pelas elites agrárias nacionais. O que é chamado de colonidad del poder por Anibal Quijano.

O governo de Bolsonaro, sem dúvida, irá criar fake news, mentiras históricas etc., o que já vem fazendo. Contudo, no ducentésimo aniversário da Independência esse discurso parvo e alienante será ainda mais latente.

O governo de Médici fez o mesmo em 1972. A seleção brasileira era a atual campeã, o campeonato brasileiro havia sido criado no ano anterior e no seguinte viveríamos o milagre econômico. Essas conquistas em termos econômicos e culturais serviram para ampliar a concentração de renda e de terra e fazer permanecer um modelo de desigualdade muito próximo do período em que o Brasil se liberta do jugo português.

A história pode se repetir e parece que vai. O pseudopatriotismo do governo atual vai vir com tudo. Por isso, não basta apenas confrontá-lo apontando os erros e as farsas. É necessário expor uma narrativa séria, pautando-se em bases científicas sem perder o vocabulário simples e popular.

As lutas dos povos indígenas, da negritude e dos trabalhadores urbanos e do campo devem ser protagonistas nessa narrativa e, acima de tudo, ser a esperança a principal intriga que conduz essa história. Uma esperança que esteja para além do campo da moral; que seja concreta. Como dizia Ernst Bloch, o ser humano é impelido a ir para frente, opondo a esperança à lembrança. O governo vai lançar um discurso pautado no passado, nós precisamos de um discurso voltado para o futuro.

Engana-se – e muito – aquele que acha que a independência significava uma ruptura com Portugal. De acordo com a historiadora Cecília Helena de Salles Oliveira, a palavra independência era usada como uma contraposição à “escravidão política”, situação própria do absolutismo. Ou seja, independência não se confundia com emancipação ou autonomia administrativa.

Nesse sentido, a independência poderia ser conquistada mesmo sem o rompimento com Lisboa. O que ocasionou todo o imbróglio em direção à ruptura com a “Mãe-Pátria” foi a Revolução do Porto de 1820, quando surgiu a possibilidade de retrogradar o Brasil à condição de colônia.

Logo surgiu uma historiografia munida de argumentos retóricos que visava convencer a todos de que a monarquia era a melhor forma de governo. Para chamar a independência de revolução, comparou-a com a Revolução Gloriosa e a distanciou da Revolução Francesa. Para se falar de império comparou-se D. Pedro I a Júlio César.

Essa foi uma História escrita a mando do governo. Sempre com o objetivo de excluir os populares. Essa historiografia buscou esconder a participação dos pequenos e médios proprietários fluminenses, assim como a de lavradores e de produtores de pequenos recursos na insurreição contra as decisões da Revolução do Porto.

Essa historiografia atribui às classes dominantes a legitimidade de tocar os rumos da nação já que foram elas que deram ao povo liberdade. Essa interpretação da história excluiu os negros e os indígenas por anos, vendo-os como elementos passivos.

Essa historiografia, projeto de poder legitimador, excluiu as outras partes do país que lutaram no processo de independência, grupos radicais e a participação dos afrodescendentes na Bahia.

Nos duzentos anos depois, as classes dominantes que ainda possuem o domínio sobre os principais meios de comunicação buscarão forjar uma narrativa dos acontecimentos que legitimam os seus feitos. As grandes corporações midiáticas irão prolatar durante todos os dias que circundarão a data comemorativa que o problema do país foi o PT e o rombo nas contas públicas, sendo a solução privatizar.

Mais uma vez, a exclusão das populações mais pobres e a negação de seus direitos tornam-se a maneira mais adequada de enxergar os acontecimentos, legitimando assim a política econômica e social empregada pelo governo, que tem como finalidade salvar as fortunas das elites às custas dos mais vulneráveis.

No projeto de poder das elites iniciado em 2016 e que está a todo vapor, convencendo o povo a sofrer mais uma vez para salvar algo que não é dele, vemos um projeto de nação que visa concentrar as riquezas do país e embrutecer as massas para que essas não pensem em si.

Precisamos pensar em um Sete de Setembro sem Parada Militar, mas com Parada Popular. Mostrar para esse discurso econômico da imprensa que é a distribuição de renda que atrai investimento e não a concentração. E o povo sabe disso. 86% dos brasileiros acreditam que a desigualdade econômica é o que impede o progresso do país. 77% defendem o aumento nas alíquotas dos impostos para os mais ricos segundo pesquisa da Oxfam e parceria com a Datafolha (1). O problema é que a cada três brasileiros dois acreditam que a fé religiosa é fundamental para se crescer na vida, mais do que o estudo ou o acesso a saúde (2).

As esquerdas precisam investir em narrativas que possam iluminar as pessoas que, por seu turno, sabem os problemas que as assolam, mas ainda estão presas, devido à ausência de assistência de um Estado laico, a princípios medievais. Mostrar que a concentração de renda não é “culpa” do político, mas da classe que domina economicamente, empresários, latifundiários etc. A distribuição que dará ao povo ferramentas para construir seu micronegócio, que estimulará o consumo interno e que gerará empregos. A distribuição é a única solução para um projeto de nação que inclua o povo.

(1)https://epocanegocios-globo-com.cdn.ampproject.org/v/s/epocanegocios.globo.com/amp/Brasil/noticia/2019/04/86-dos-brasileiros-acreditam-que-atraso-do-pais-esta-relacionado-desigualdade-economica-entre-ricos-e-pobres.html?amp_js_v=a2&amp_gsa=1&usqp=mq331AQCCAE%3D#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fepocanegocios.globo.com%2FBrasil

(2)FBrasil%2Fnoticia%2F2019%2F04%2F86-dos-brasileiros-acreditam-que-atraso-do-pais-esta-relacionado-desigualdade-economica-entre-ricos-e-pobres.html
https://www1-folha-uol-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/www1.folha.uol.com.br/amp/mercado/2019/04/fe-religiosa-e-mais-importante-que-educacao-para-mudar-de-vida-diz-brasileiro-em-pesquisa.shtml?amp_js_v=a2&amp_gsa=1&usqp=mq331AQCCAE%3D#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Fmercado%2F2019%2F04%2Ffe-religiosa-e-mais-importante-que-educacao-para-mudar-de-vida-diz-brasileiro-em-pesquisa.shtml

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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