Rodrigo Perez Oliveira

29 de março de 2019, 06h00

Prometeu está desacorrentado!

“A Lava Jato não quer mais ser puxadinho para políticos estabelecidos. A Lava Jato quer governar a República, quer ocupar a Procuradoria Geral, quer assento no Supremo Tribunal Federal”, diz Rodrigo Perez Oliveira

Foto: Divulgação/TRF-4

Na mitologia grega, Prometeu é um titã ousado que tentou refundar o equilíbrio de forças no Olimpo. Ao roubar o fogo de Héstia e dar aos mortais, Prometeu assustou os Deuses, provocando a ira de Zeus, que puniu o rebelde da forma mais cruel possível. Prometeu foi amarrado no topo de uma rocha e todos os dias uma águia vem lhe devorar o fígado, que se regenera durante a noite para ser devorado outra vez no dia seguinte.

Desde então, os Deuses vivem vigilantes, pois sabem que se Prometeu conseguir se desacorrentar o mundo não será mais o mesmo, as antigas hierarquias serão demolidas.

Não há alegoria mais adequada para o atual momento da crise brasileira, quando a Operação Lava Jato parece ter se autonomizado das forças políticas que até aqui a controlaram.

A prisão de Michel Temer, em 21 de março, mostra que Prometeu está desacorrentado. O Olimpo está assustado.

A Lava Jato nasceu em março de 2014 com um objetivo muito claro, que seus operadores nunca se esforçaram para esconder: desestabilizar o projeto de desenvolvimento que estava sendo executado pelo governo comandado pelo Partido dos Trabalhadores.

A bibliografia especializada já desvelou a árvore genealógica da Lava Jato, mostrando os vínculos dos seus fundadores paranaenses com a elite local e com o PSDB. A estratégia foi muito bem montada, não dá pra negar. A Lava Jato se legitimou, transformando-se em sucesso de crítica e público, com uma narrativa baseada em duas premissas: a corrupção é o câncer que corrói o organismo político brasileiro e a justiça é leniente com criminosos ricos.

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As duas premissas são verdadeiras. De fato, o Brasil, desde sempre, enfrentas graves problemas com a corrupção e a justiça costuma ser dócil com bandidos de colarinho branco. A Lava Jato se mostrou especialista na arte de manipular a verdade, sem necessariamente precisar mentir.

Em qualquer democracia do mundo, o governo negocia espaços de poder em troca de apoio político. É que numa democracia não se governa sozinho. É pra isso que a democracia existe: pra evitar que alguém governe sozinho A Lava Lato, simplesmente, criminalizou a democracia.

Não que não tenha existido corrupção nos governos petistas. Existiu, e muita, como em outros governos também. Mas não era a corrupção o alvo da Lava Jato. Nos seus primeiros anos, a operação era manipulada por forças políticas que colecionavam derrotas eleitorais. Os adversários políticos do petismo cansaram de perder nas urnas e resolveram jogar fora das regras do jogo. Se soubessem onde a coisa chegaria, não teriam feito assim, teriam agido com prudência.

Mais vale ser um perdedor dentro do jogo do que ser um perdedor sem ter jogo pra jogar.

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A afirmação de que a Lava Jato, pela primeira vez, estava prendendo criminosos ricos também é uma meia-verdade. Os “ricos” não formam um bloco homogêneo, único. Entre os “ricos” existem diversos grupos, que muitas vezes estão brigando e disputando o controle da riqueza.

A Lava Jato levou pra cadeia um tipo específico de rico: aquele que tem sua riqueza baseada em negócios que envolvem investimentos em infraestrutura. A Lava Jato prendeu os maiores empreiteiros do Brasil, todos envolvidos com escândalos de corrupção, sem dúvida. Não tem inocente ali não.

Mas e os bancos? E os diretores do Itaú, do Bradesco, do Santander? Esses empresários (ricos, muito ricos) não fizeram doações de campanha? Não se envolveram em práticas de corrupção?

Todos sabemos que sim (espero), mas isso não interessou à Lava Jato. Ao mesmo tempo em que desmontou a estrutura produtiva do Brasil, a operação blindou os ricos que atuam no campo da especulação financeira. Impossível não ver aqui os vínculos entre a Lava Jato e o neoliberalismo internacional. Os mesmos vínculos podem ser percebidos na agenda política do PSDB.

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Mas as coisas mudaram, e como mudaram.

Aplausos no aeroporto, fotos com fãs, entrevista coletiva, editorial de jornal com perfil biográfico, milhares de seguidores no Twiter. Quem não gostaria?

Por que os operadores da Lava Jato ficariam na sombra de Beto Richa, Geraldo Alckmin, Aloyísio Nunes e Aécio Neves? Por que continuar sendo o braço se agora é possível ser o corpo inteiro?

O fracasso vergonhoso dos tucanos nas eleições de 2018 só veio comprovar o óbvio: a Lava Jato havia se tornado maior que o PSDB. O antipetismo tinha um novo dono.

Jair Bolsonaro, se tiver alguma inteligência política, dormirá com os dois olhos abertos, mirando-se no exemplo de Michel Temer. O vínculo de Bolsonaro com a Lava Jato não é orgânico. É apenas circunstancial.

Sem dúvida, Bolsonaro foi o político que mais colheu dividendos eleitorais com a Lava Jato, mas ele continua sendo exatamente isso: um político.

A Lava Jato não quer mais ser puxadinho para políticos estabelecidos. A Lava Jato quer governar a República, quer ocupar a Procuradoria Geral, quer assento no Supremo Tribunal Federal.

A Lava Jato quer fundar uma tirania controlada por funcionários concursados.

Prometeu está desacorrentado e faminto.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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