Andrea Caldas

política e educação

27 de novembro de 2019, 19h33

Uma tensa e difícil aliança, mas ainda uma aliança

Andrea Caldas: “Somos nós do campo progressista e de esquerda que temos condições de anunciar um projeto radicalmente democrático, inclusivo e soberano de país”

Bolsonaro e Paulo Guedes - Foto: Alan Santos/PR

O governo Bolsonaro se elegeu pela associação dos setores do financismo, militarismo e fundamentalismo religioso.

O capital produtivo – FIEP, CNI etc – na incapacidade de alavancar uma candidatura, que abertamente defendesse a redução de direitos trabalhistas, teve de engolir Bolsonaro.

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O apelo a segmentos expressivos da classe média – pelo ódio ao PT- e a “nova classe média”- pela decepção com o PT, especialmente pós-ajuste fiscal do governo petista -, conformou uma maioria eleitoral, combinada por diversos motivos e apetites.

Tudo isto, é claro, sob o beneplácito do STF e da grande mídia.

Uma vez eleito, Bolsonaro mostrou a quem – dessa grande geleia geral – atenderia, de fato.

Optou pelos militares de alto comando, em detrimento dos praças.

Danou os pobres na aprovação da reforma da Previdência e estuda acabar com a dedução fiscal dos planos de saúde no IR, voltar com a CPMF e cobrar mensalidades na universidade, atingindo a classe média (que se acha elite) que lhe apoiou.

Comprou briga com a Globo para favorecer a Record. Afrontou o STF e estimulou, nas suas hostes, uma campanha de difamação à Corte que garantiu que seu grande oponente eleitoral se mantivesse preso, até o fim da eleição.

E agora, Guedes – o Posto Ipiranga -, de forma clara e escancarada, trabalha pela valorização do dólar em confronto com os interesses da indústria nacional, que depende de importações de insumos e obviamente, com graves consequências para o mercado de consumo de massa.

Folha e Estadão – como representantes da FIESP, CNI… – abrem sua porteira de críticas ao “autoritarismo e incompetência” (sic) de Paulo Guedes e dos ministros bolsonaristas.

Miriam Leitão, no Globo, idem.

E, de repente, a democracia vira – sazonalmente! – um valor sagrado para os segmentos do capital que apoiaram um assumido defensor da tortura e dos torturadores.

A elipse do envolvimento com a milícia e da defesa aberta de ditadores foi conveniente para os setores “dito democráticos” do empresariado, enquanto se aguardava a aprovação da reforma da Previdência.

E ela ocorreu. Não tão draconiana como pretendiam, mas ocorreu.

Acontece que bravata afrontosa do bolsonarismo estimulou o agronegócio a declarar publicamente que iria colocar fogo na Amazônia.

Tal como no filme “Mississipi em Chamas”, os neofascistas brasileiros se sentiram à vontade para sair do armário, uma vez que um de seus legítimos representantes ocupa o Palácio do Planalto.

E mostraram a cara, convocando o “Dia do Fogo”.

Conseguiram publicidade…internacional!

Graças a esta façanha, hoje, o mundo inteiro teme o destino da Amazônia.

Este temor, que espirra inclusive na eleição dos EUA – afastou os investidores financeiros, mesmo com a aprovação da reforma da Previdência.

Bolsonaro e o Posto Ipiranga não conseguiram entregar – in totum – o que prometeram, embora estejam vendendo a Embraer, a Petrobras e tudo o que der.

Daí que os setores “racionais” do mercado resolvem criticar os excessos, na tentativa de conformá-los à sua planilha.

Bolsonaro truca com a organização do seu exército de milicianos e fanatizados.

Ainda não é possível saber quem vencerá a queda de braço interna.

O que é possível entender é que se trata de uma briga da capa de cima.

Nenhum dos lados desta aliança tem compromisso com um projeto de país soberano e democrático.

Imaginar que devemos optar por uma das frações ou mesmo compor com ela, em busca do “mal menor” ou do etapismo, é insistir nos erros do passado.

Somos nós do campo progressista e de esquerda que temos condições de anunciar um projeto radicalmente democrático, inclusivo e soberano de país.

Aliados serão benvindos… ao nosso projeto.

Ao projeto de defesa da soberania e da democracia.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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