Vamos falar sobre sexo?

Leia na coluna de Ingrid Gerolimich: "Casos como este que aconteceu com a menina do Espírito Santo não podem ser tratados como um fato isolado, mas como parte de uma cultura que vai continuar permitindo a violação dos corpos de outras inúmeras crianças caso nada seja feito para mudar esta realidade"

Sexo é um assunto sobre o qual todo mundo adora falar, não é mesmo? Então, vamos conversar sobre isso. Só lamento informar que hoje não vou me concentrar no lado divertido do assunto. O caso terrível da menina do Espírito Santo, estuprada pelo tio desde os seis, e que precisou fazer um aborto para preservação da própria vida, me leva a querer tratar deste assunto de uma outra forma.

O pior é que, para além da monstruosidade do fato em si, tivemos que nos deparar com diversas manifestações contrárias ao aborto necessário e amparado legalmente. Após descobrirem o nome e endereço do hospital onde a menina faria o procedimento, através de uma criminosa que me recuso a citar o nome, manifestantes ocuparam o local e, aos gritos de “assassina”, promoviam um verdadeiro espetáculo de horror que será difícil de apagarmos das nossas memórias.

Agora, reveja comigo a situação: um homem estupra uma criança de dez anos desde os seus seis anos de idade. Essa criança engravida de um destes inúmeros estupros. A gravidez, para além do horror psicológico que ela representa, provoca sérios riscos à vida da menina. Mas, nada do que aconteceu a essa criança parece chocar essas pessoas, algumas delas, inclusive, insinuam que a menina estaria gostando dos estupros que sofria, ela é chamada até de “cadela no cio’’ por uma delas. E quanto ao pedófilo estuprador? Por mais surreal que pareça, quase nenhuma palavra de indignação, nenhuma vigília na porta de delegacia, nenhuma campanha nas redes sociais para que seja encontrado, nada além de um desconcertante silêncio. Por que isso acontece?

Para fazermos essa análise, precisamos nos concentrar aqui nos contornos sociais que moldam a prática sexual, o que quero dizer com isso é que a sexualidade tem relação intrínseca com o modelo de sociedade em que vivemos. E, no caso da sexualidade masculina, ao longo da história ela vem reproduzindo sobre as mulheres os mesmos padrões de opressão e objetificação exercidas em outras esferas da vida social.

Então, estamos nos concentrando aqui em homens considerados absolutamente normais pela sociedade, muitos maridos e pais de família. Homens respaldados por uma cultura que culpabiliza as mulheres por despertarem os instintos sexuais masculinos e que hiperssexualiza as meninas desde muito cedo, aquela que “tinha o corpo desenvolvido demais para a idade” ou a que “tão novinha já sabe rebolar” e outras aberrações discursivas. É o que sempre escutamos como verdade desde muito cedo, que é muito difícil para um homem resistir a um apelo sexual feminino, como se estivéssemos falando de um animal que não tem controle sobre suas próprias ações diante de uma manipuladora perigosa. Por isso, quando uma mulher é estuprada há tantas reações no sentido de culpar a vítima e não estuprador.

Nunca esqueci de um episódio em que, quando ainda muito pequena, ouvi de uma tia que precisava colocar a blusa em um dia de muito calor para não atrair olhares masculinos perigosos. Esse dia me marcou profundamente a ponto de nunca mais esquecer daquelas palavras, eu era uma menina, não devia ter nem sete anos. Tenho certeza que toda mulher que ler este texto terá algo assim para contar sobre si ou sobre alguma mulher próxima, infelizmente.

A violência sexual contra a mulher é naturalizada na nossa cultura porque vivemos em uma sociedade que nos trata como um corpo despersonalizado formado por seios, vagina e ânus, como brinquedos sexuais prontos para saciar os desejos masculinos. Na cultura em que vivemos, a prática sexual exercida pelos homens heterossexuais é impregnada de fortes signos de poder e dominação exercidos sobre os corpos das mulheres. Não à toa, a esmagadora maioria dos sites de conteúdo pornográfico estão repletos de categorias de conteúdos misóginos incitando violência física, estupro, incesto e pedofilia. E quando não contém os tipos de violência citados, quase a totalidade dos outros conteúdos produzidos pela indústria pornográfica mostram mulheres submissas, objetificadas, corpos que estão ali somente para fornecer prazer ao homem. Já o prazer feminino nunca é mostrado como um fim em si mesmo.

Por isso, casos como este que aconteceu com a menina do Espírito Santo não podem ser tratados como um fato isolado, mas como parte de uma cultura que vai continuar permitindo a violação dos corpos de outras inúmeras crianças caso nada seja feito para mudar esta realidade. E isto não se dá somente através de legislações, é preciso ir além, é preciso uma mudança na maneira de como se configuram as relações de gênero na nossa sociedade. Enquanto mulheres forem tratadas como sujeitos de segunda categoria não poderemos ver grandes avanços.

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Neste sentido, a educação sexual nas escolas tem um papel importantíssimo não somente para prevenir crimes de violência sexual, entre outras coisas, mas também como um vetor importantíssimo de construção e disseminação de uma nova cultura da sexualidade, onde meninos aprendam desde cedo a não reproduzir práticas machistas e a despertarem para afetos capazes de construir relações saudáveis baseadas no respeito e  na empatia, e não em abusos e violência.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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