GOVERNO LULA, IMPRENSA E CENTRÃO

Por que Nísia Trindade e o Ministério da Saúde estão sob ataque

Movimentos sociais da área de saúde apoiam a ministra, os secretários demitidos e desaprovam críticas oriundas da mídia hereditária e do centrão; Para setorista do Outra Saúde, objetivo é desestabilizar o Governo Lula em ano eleitoral

Zé Gotinha, Lula e Nísia Trindade, a ministra da Saúde.Créditos: Ricardo Stuckert
Escrito en SAÚDE el

Após uma desastrosa gestão da saúde durante o governo Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu, em campanha eleitoral de 2022, que priorizaria a área. E assim o fez. Nomeou Nísia Trindade para chefiar o Ministério da Saúde, que liderou uma verdadeira “refundação” da pasta, outrora destruída sobretudo pela gestão do general Eduardo Pazuello, o mesmo que admitiu não saber “o que era o SUS.

No entanto, alguns problemas graves relacionados à saúde pública são estruturais e demandam mais tempo e esforços para serem resolvidos, como por exemplo a crise que perdura há anos nos hospitais federais do Rio de Janeiro. E aparentemente essa crise tem sido usada para promover uma série de ataques à ministra Nísia e ao próprio Ministério da Saúde.

Neste mês de março, em menos de 24 horas, a crise dos hospitais federais do Rio serviu como argumento para a derrubada de dois importantes secretários da pasta. Helvécio Magalhães, secretário de Atenção Especializada à Saúde (Saes), e Alexandre Telles, subordinado de Magalhães e chefe do Departamento de Gestão Hospitalar (DGH) do Estado do RJ, deixaram os seus cargos.

Em matéria publicada no Outra Saúde na última quarta (20), a jornalista Gabriela Leite mostra a dificuldade em resolver a crise instalada na saúde do Rio mesmo após 15 meses de governo Lula. “As causas do declínio são múltiplas, mas entre as principais estão o subfinanciamento prolongado do SUS e as dezenas de irregularidades encontradas reiteradamente na gestão dos hospitais”, diz um trecho da matéria.

A repórter explica a seguir que a crise no Ministério da Saúde teria iniciado tão logo a ministra Nísia Trindade e os seus subordinados começaram a “mexer nesse vespeiro”. A reportagem resgata a nota técnica mais recente do DGH que aponta para “fragilidades e irregularidades no âmbito da contratação de serviços continuados” e pede a centralização em torno do órgão das compras feitas pelos hospitais federais. Ainda aponta o favorecimento de empresas “sem justificativas técnicas, além de contratações e aquisições com preços acima do mercado”.

Pressionada por conta da nota técnica, Nísia então criou em 15 de março um Comitê Gestor que cuidaria da rede de compras durante um mês e seria comandado por Helvécio Magalhães. No entanto, uma matéria do Fantástico do domingo seguinte, que denunciava o estado de precariedade dos hospitais, antecipou a demissão do secretário.

Gabriel Brito, também setorista do Outra Saúde, falou à Fórum sobre o tema. Ele diz que não há ninguém nos movimentos sociais ligados à saúde pública que fazem coro às críticas. “Todo mundo apoia os secretários demitidos, a Nísia e o governo de um modo geral. A denúncia não é amparada por críticas oriundas daqueles que vivem o SUS por dentro”, afirmou.

Entre os recentes apoios declarados à ministra Nísia Trindade estão os da Academia Brasileira de Ciências e o da Frente do Serviço Público. Ambos apontam que o trabalho da ministra à frente do Ministério da Saúde é irretocável apesar da perseguição política e midiática.

Perguntado sobre a razão pela qual os ataques se originam, o jornalista não tem dúvidas: “É para desestabilizar o governo Lula”. Na sua opinião, o embarque da mídia hereditária na narrativa, liderada pelo Grupo Globo, foi apenas um efeito colateral das próprias políticas editoriais dos mesmos.

“A Globo, depois da matéria do Fantástico, parece ter baixado o tom. Eles não querem destruir o Ministério da Saúde, mas são antipetistas, têm uma política editorial de direita e militam por uma visão de sociedade que o PT nunca vai expressar mesmo sendo muito conciliador. São submissos ao ‘centrão’. Passamos 2023 vendo a Globonews bajulando o Arthur Lira, por exemplo. O alvo não é a política de saúde, mas a eleição municipal”, explica o setorista.

A seguir, faz uma avaliação mais detalhada do papel da mídia, sobretudo da Globo, nos ataques a Nísia e ao Ministério da Saúde.

“Minha avaliação da matéria do Fantástico, como jornalista, é a seguinte: dentro da vaidade do jornalista de dar um furo, fazer uma denúncia e ganhar notoriedade por isso, os colegas da Globo acabaram se prestando a fazer o papel de ‘garotos de recado’ de interesses escusos. A denúncia do Fantástico, por exemplo, é sobre uma mulher ligada ao ex-secretário que foi a uma reunião. E daí? É só isso mesmo? E como ficaram sabendo de uma reunião tão irrelevante, ocorrida seis meses atrás? Me parece resultado de uma disputa fisiológica interna ao Rio de Janeiro. E se deram conta disso após começarem a pipocar na imprensa textos sem profundidade de figuras abertamente antipetistas. Assim, creio, resolveram tirar o pé”, avaliou.

Na tarde desta quinta-feira (21) a ministra Nísia Trindade estava na CNN para explicar uma suposta disputa entre petistas no segundo escalão do ministério. Para Gabriel Brito, isso seria uma adaptação dos ataques uma vez que o “pé foi tirado” da narrativa anterior.

“Agora o secretário da Saes agora será o Adriano Massuda, um professor da FGV-SP, sanitarista ligado ao setor privado mas muito respeitado pelo movimento social pró-SUS. É um quadro técnico, que já foi secretário de saúde de cidades importantes. Ou seja, o centrão bateu mas não levou”, aponta o jornalista.

Vale lembrar que a Saes, incluída dentro do Ministério da Saúde dono do maior financiamento federal, mexe basicamente com a gestão de hospitais, com atendimentos de saúde de alta complexidade e tem o maior orçamento dentro da pasta, de cerca de R$ 70 bilhões – aproximadamente um terço do orçamento do Ministério da Saúde.

Além disso, os hospitais federais do Rio de Janeiro – que compõem enormes enormes complexos hospitalares oriundos do tempo que a Cidade Maravilhosa era a capital do país – representam um importante nicho dentro da abrangência dessa secretaria. “O bolsonarismo se locupletou nessa área nos anos passados e é daí que vem essa longa crise”, finalizou o jornalista.