Milos Morpha

por Cesar Castanha

Fórum Educação
15 de Maio de 2020, 23h39

Community: a possibilidade de se contar histórias

Recentemente, a Netflix voltou a disponibilizar, no Brasil, todas as temporadas da série de comédia Community. Confira no blog Milos Morpha

Foto: Reprodução

Recentemente, a Netflix voltou a disponibilizar, no Brasil, todas as temporadas da série de comédia Community. E, enquanto revia a série, me senti motivado a finalmente assistir a algum episódio de Doctor Who. Esta é, afinal, uma influência determinante para trabalho de Dan Harmon, autor de Community e da animação Rick e Morty.

Série televisiva inglesa que teve sua primeira versão (com quase 700 episódios) exibida entre 1963 e 1989, Doctor Who acompanha as aventuras de um “Doctor”, que pode viajar através de diferentes dimensões do espaço e do tempo. A narrativa multidimensional dá muitas oportunidades para a ficção da série confrontar a si mesma, ou, pelo menos, confundir-se de forma tão complexa que coloca em risco a sua própria unidade diegética – aquilo que estrutura o seu mundo ficcional. E é justamente essa confusão das possibilidades do ficcional que é herdada pela obra de Harmon.

Community foi uma série de comédia que adquiriu um status de culto para uma geração de espectadores no início da década de 2010. Elapertence ao gênero muito familiar da sitcom, a “comédia de situação”, geralmente ambientada em um mesmo lugar ou núcleo de personagens através dos anos (um local de trabalho, uma casa de família, um grupo de amigos em Nova York, etc.). Mas qual a situação, para usar essa nomeação do gênero, que opera como ponto de partida para a comédia em Community? Bem, qualquer uma.

O seriado acompanha seis estudantes através de sua graduação em uma faculdade comunitária (uma instituição de ensino superior de baixo custo). Ainda na primeira temporada da série, situações cômicas mais típicas da comédia televisiva (desavenças amorosas, conflitos de personalidade, etc.) abrem espaço para um crescente interesse da série de brincar com outros gêneros narrativos. E assim temos, a cada novo episódio, um diferente pastiche de filmes de gângster, faroestes, horror, ficção-científica, etc. Além disso, os eventos que se desenvolvem em Community são reconhecidos e comentados por um dos personagens – Abed (Danny Pudi), não por coincidência um fã de Doctor Who – como sendo um conjunto de narrativas televisivas que estão disponíveis a serem roteirizadas, manipuladas e desenvolvidas por ele.

Abed tem, na série, a perspectiva privilegiada de um olhar já viciado nos clichês e procedimentos típicos de narrativas televisivas ou ficcionais. Isso se torna um tipo de habilidade do personagem quando entendemos que, afinal, eles são de fato parte de uma ficção televisiva, o que concede a Abed uma clarividência ou até uma onisciência sobre o estatuto de existência desse universo ficcional e daqueles que o habitam. Enquanto Community passa por realidades alternativas, visualidades diversas (como um episódio animado ou outro ambientado dentro de um videogame) e diferentes regimes diegéticos (em uma síntese grosseira, o termo “diegese” ou “diegético” se refere àquilo que é realidade dentro de uma ficção), Abed está presente para refletir sobre o que faz dessa série televisiva uma série televisiva.

De Doctor Who, Community pega emprestado essa ideia de que o próximo episódio pode ter qualquer formato, ser sobre qualquer coisa. Evidentemente, isso é apenas uma impressão que essas séries criam sobre os seus espectadores enquanto ainda sustentam um conjunto narrativo coeso (seja de personagens ou daquilo que permite aos personagens atravessar esses diferentes contextos, como uma máquina do tempo ou uma faculdade comunitária). Mas acredito que muita da celebração de Community dentro do nicho que foi absolutamente dedicado à série (mobilizando-se mais de uma vez para mantê-la no ar) está relacionada a esse aparente descompromisso com a coesão narrativa e essa disposição da série de ser qualquer coisa que ela puder ser, sem levar a sério as regras do universo ficcional em que ela está inserida.

Que histórias são contadas em uma série sobre qualquer história? Quando essa pergunta é implicitamente colocada em cena por Community, o que nos é apresentada é uma reflexão insistente e rigorosa sobre aquilo que possibilita as histórias de serem contadas: uma rede criativa e produtiva, referências dentro de vasto arquivo de diferentes narrativas e, enfim, o sentimento que agencia tudo isso e mobiliza tanto os personagens quanto os fãs unidos contra o fim da série. É aqui que percebemos que o que está em jogo não é uma quebra da quarta parede (expressão que se refere ao limite diegético, tela ou “parede”, que divide o mundo ficcional em cena do mundo “real” do espectador), mas sim o modo como é articulada essa relação com a tela – em que ela não é mais tanto uma parede, um bloqueio, e sim um limite de outro tipo, um limiar entre diferentes regimes de existência que se contemplam através dela.

É exatamente quando esse limiar é colocado em cena por Community que nós, espectadores, somos convidados a pensar a nossa relação com a ficção, e os personagens são convidados a pensar em si mesmos como ficção. É esse duplo movimento que faz de Community uma das obras de comédia mais interessantes e intrigantes da televisão. Repito que o que importa não é tanto o que é feito (situações absurdas, referências a outros gêneros e metalinguagem), mas o modo como a série engaja personagens e espectadores no reconhecimento da narrativa e das suas possibilidades.

No universo de Community, os personagens se desenvolvem ao se depararem consigo mesmos como personagens, como interpretados de algum modo, com repetições, funções e arcos. Essa é uma das consequências mais bonitas do olhar que a série dirige para si mesma. Ao se perceberem como personagens, eles recuperam a escrita de suas narrativas na direção do crescimento e da mudança. Eles descobrem, afinal, que são as vozes que elaboram essa história sobre a nossa capacidade de contar histórias. Por isso, o controle da narrativa almejado por Abed é logo e sempre disputado pelos seus colegas, que negociam com ele outros desenvolvimentos, colocando em cena outras perspectivas sobre a história que está sendo contada.

O período em que Community foi exibida parecia um momento mais propício a esse tipo de experimento com o gênero da sitcom. Ia ao ar na mesma emissora, por exemplo, 30 rock, série escrita por Tina Fey que, embora não fosse tão maleável formalmente, trazia uma reflexão subversiva sobre a constituição econômica e ideológica da ficção televisiva estadunidense. E podemos perceber como, de certo modo, os trabalhos seguintes dos dois autores (Rick e Morty, no caso de Dan Harmon; e Unbreakable Kimmy Schmidt, no caso de Tina Fey) apontam para um caminho mais confortável no modo como se articulam dentro do seu gênero.

Em Rick e Morty, Harmon propõe uma releitura de Doctor Who: Rick é um cientista idoso e alcóolatra com equipamentos que o permitem viajar através de diferentes mundos e dimensões, o que ele faz acompanhado de Morty, o seu neto adolescente. Assim como Community, cada novo episódio de Rick e Morty pode ser sobre qualquer coisa, o que também leva a série a, frequentemente, testar a sua diegese (os fãs de Rick e Morty gostam de lembrar como, por exemplo, nenhum dos personagens que originou a série permanecem nela, uma consequência das repetidas viagens interdimensionais de Rick).

Que novas perspectivas sobre a narrativa Rick e Morty nos apresenta? A série está sempre no limite das articulações de seu universo ficcional, principalmente de seus personagens (a série frequentemente questiona o que faz deles personagens únicos, e não meramente mais uma reprodução de um tipo). Em “Never Ricking Morty”, por exemplo, um episódio mais recente da série, os dois personagens se descobrem em um “trem” de formulações narrativas, que coloca em risco, de diferentes maneiras, toda a estrutura diegética da série.

Os fãs de Rick e Morty, mais dedicados até que os de Community, colaboram com a mitologia da série apresentando uma variedade de leituras sobre ela que passam pelo existencialismo e a filosofia política. Mas, enquanto gosto da série a admiro imensamente suas experimentações com a diegese, ainda acho que ela faz isso de um lugar mais confortável que o de Community (ela está, afinal, dentro do absurdo esperado para uma série do Adult Swim, um canal dedicado a produzir animações adultas) e com efeitos menos interessantes.

Rick e Morty está sempre no limite do próprio universo criado, forçando as barreiras e recriando esse universo ficcional a partir de suas fronteiras. A série animada está armada para atirar contra os limites da ficção, enquanto Community contempla esse limite como uma janela para outras possibilidades da narrativa, uma janela a que os personagens precisam recorrer para crescerem e agenciarem as mudanças que precisam ser feitas naquele universo. E é essa a relação que Community nos convida a ter com a mesma tela, é assim que a série nos questiona sobre a possibilidade de contar histórias.


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