Milos Morpha

por Cesar Castanha

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03 de julho de 2019, 12h57

Crescendo longe de casa

Cesar Castanha: "Homem-Aranha é a personificação de tudo o que é idealizado em um herói da Marvel: um personagem evidentemente humano, bem-humorado, fragilizado apenas por sua indisputável constituição moral"

Foto: Reprodução

Toda história do Homem-Aranha é uma história de coming of age, uma narrativa de crescimento. Esse é um personagem, afinal, melhor definido por uma trajetória de disputa por maturidade. Em todas as suas grandes histórias – da canônica A Última Caçada de Kraven, nos quadrinhos, até os primeiros filmes de Sam Raimi –, todos os empecilhos, objetivos e conquistas que atravessam a jornada de Peter Parker tem bem mais a ver com o modo como o personagem se relaciona com sua identidade e articula essa construção de si mesmo com sua sempre problematizada responsabilidade do que com a salvação do mundo.

Homem-Aranha: Longe de Casa não é diferente. O filme encontra o personagem logo após os eventos de Vingadores: Ultimato e da morte de seu mentor, Tony Stark/Homem de Ferro. Em luto, Peter precisa superar suas inseguranças para dar conta do legado de Stark. Aqui, Tony Stark atualiza a figura de Tio Ben em sua reivindicação de uma maturidade que fundamenta as ações de Peter como super-herói. Essa atualização se justifica principalmente na iniciativa do Universo Cinematográfico da Marvel de entrelaçar as histórias de seus heróis, fazendo de cada filme um produto seriado, parte de um conjunto narrativo bem mais amplo.

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Parece inevitável que o personagem se reconfigure nessa nova articulação. O Homem-Aranha de Tom Holland e da Marvel Studios é consideravelmente menos trágico do que seus antecessores no cinema (mesmo na franquia mais cômica dirigida por Marc Webb). Isso não é um problema por si só: em Longe de casa, a comédia frequentemente funciona. Pelo primeiro ato do filme, o texto se assemelha às comédias adolescentes de Amy Heckerling, mesclando a medida certa de ingenuidade a um humor-esperto. Alguns personagens e atores conseguem levar esse tom adiante para todo o resto do filme com uma presença absolutamente cativante em cena, como é o caso de Jacob Batalon e Zendaya, que interpretam Ned Leeds e MJ, respectivamente.

Por outro lado, a ação do filme não apenas encontra um novo patamar no já muito sofisticado uso de efeitos especiais pela Marvel Studios como encontra uma maneira muito criativa de expor isso. No filme, é Mysterio, mestre da ilusão, quem cria artificialmente (por meio de uma mistura de hologramas e drones) as grandes imagens de fantasia que tomam a cena. Enquanto Homem-Aranha entra nas ilusões de Mysterio para sabotar os dispositivos por trás da cortina, é difícil evitar a sensação de que o herói se depara com as máquinas de ilusão da própria Marvel. As ações de Mysterio, nesse sentido, materializam-se no próprio filme: os efeitos visuais produzidos pelo vilão são, afinal, os efeitos visuais produzidos pelo próprio filme.

Longe de Casa encontra um problema mais difícil, no entanto, em estabelecer uma relação entre os gêneros. Isso se dá principalmente porque a estrutura do filme de aventura contemporâneo já está consideravelmente saturada (quantas vezes vimos se repetir a história do coadjuvante prestativo que termina não sendo uma pessoa legal?). Mas Homem-Aranha ainda é um personagem que consegue saltar tranquilamente entre diversos clichês e convenções de gênero e ainda formar um produto coeso. Ele é, afinal, a personificação de tudo o que é idealizado em um herói da Marvel: um personagem evidentemente humano, bem-humorado, fragilizado apenas por sua indisputável constituição moral.

A Marvel nos deixa muito claro o que ela entende do acordo feito com a Sony pelo uso do personagem: que o Homem-Aranha agora está em casa, como sugere inclusive o título do filme anterior (De volta para casa). Mas esse lar do herói é mais plural do que o estúdio gostaria de nos levar a entender. Homem-Aranha é, certamente, o herói que se ancora das mais diversas maneiras na cultura midiática hoje. Entre desenhos animados, jogos de videogame, quadrinhos e filmes anteriores, você pode entender o Homem-Aranha de qualquer maneira. Você nem precisa entendê-lo como Peter Parker, como nos mostra o excepcional Homem-Aranha no Aranhaverso, talvez o filme que mais se aproxima da tragédia dos filmes de Raimi.

Longe de casa traz mais uma expressão para o herói de algumas faces, mas é fiel ao destino de Peter Parker/Homem-Aranha, um super-herói preso a uma jornada de crescimento. No fim da história, Peter descobre, de novo, que o grande desafio não é o poder de fogo de seus vilões, e sim chegar a um acordo com sua própria responsabilidade. Alguns filmes, no entanto, têm mais facilidade de entender isso antes do próprio personagem do que outros. Sinto falta, ainda, do Peter que tem uma mesma dádiva e maldição (e certamente gostaria de ver mais de Miles Morales). Mas o Homem-Aranha de Tom Holland não está assim tão longe de casa. Este ainda é o amigo da vizinhança e, poxa, como é fácil gostar dele!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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