Milos Morpha

por Cesar Castanha

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08 de abril de 2010, 09h09

Filmes de Quinta – “The Book of Eli”

Mais uma coluna nova? É!

Mais um trocadilho infame? Sim!
Mais uma guilty pleasure do redator? Pode apostar!


Ontem ganhei convites pra ir ao cinema – coisa que aparentemente vai se tornar rotina, já que descobri uma amiga que ganha vários destes convites toda semana, e se propos a compartilhar alguns comigo – e resolvi assistir “The Book of Eli”, o novo do Denzel Washington. Dirigido pelos irmãos Hughes (quem? “From Hell”, lembra? Aquele do jack o estripador, com o Depp? Eu também não…), o filme conta também com o Gary Oldman (precisa de apresentação?) e a Mila Kunis (quem? A voz da Meg Griffin do family guy… tá?).
A parábola narra a peregrinação do Denzel por uma América pós-apocalíptica em busca do oeste. Aparentemente, nosso amigo acredita que lá está a terra prometida (Vegas??? Tijuana???), onde ele poderá descansar, desfrutar do seu harém de 100 virgens e ler em paz. Mas obviamente isso nao será possivel pois todo o elenco desempregado, sujinho e poeirento de Mad Max está no seu caminho! Como todo bom roteiro (nooot!), o rapaz precisa de uma mocinha indefesa pra tocar seu coração, e como Angelina Jolie estava ocupada demais com Salt, escalaram a Srta Kunis pra esta função.

SPOILERS E REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO ABAIXO.

Senta que lá vem a história: Um evento apocaliptico detonou com a camada de ozonio e as pessoas no mundo começaram a brigar umas com as outras. Ou foi o contrário. Ou a camada de ozonio nao tem nada a ver com isso e só adicionaram esse detalhe pros personagens ficarem mais cool de oculos escuros. No final das contas, foi tudo só um desculpa pra usarem muito chroma key e umas cores de céu exóticas nas tomadas do deserto. Eu sei que alguem teve a brilhante ideia de, no meio do caos, aproveitar pra destruir todas as biblias da Terra.Aí depois do pseudo-fim do mundo, as pessoas viraram seguidoras do hannibal lecter e finalmente deram o valor certo as coisas e aproveitaram pra dar um time-off na civilizaçao e aproveitar um pouco da barbárie. Mas o que ninguem esperava é que o Denzel, um megafanático jedi (nao esquecam que o jediismo é uma religiao!) ia surtar e começar a conversar com Deus, que lhe instruira brincar de cowboy e migrar pro oeste. Tihuana? Vegas? whatever. e arrumar um bom uso pro unico livrinho sagrado que sobrou – ei, as folhas desse livro nao sao de seda?
Então a gente vê um Wall-E negão vagando pela Terra abandonada, solitário, ouvindo um sonzinho vintage no seu ipod cool, vez ou outra uma cena de luta muuuito legais onde o Denzel mostra que mesmo velhinho ele consegue esconder um facão de 2m no cu e tira-lo sem que ninguem veja (nem mesmo ele, sacaram? hahaha!), decepar a cabeça de todos na sala e depois pedir um copo d’água, entrecortadas pela tentativa de construir uma narrativa meio Mel Gibsoniana (digam que ele tem um dedinho nesse projeto, digam!) de fé, penitência e … sangue. Afinal, o homem é o lobo do homem, e sem o pastor, as ovelhas vao pro brejo, né Hobbes?
Acaba que o plot se perde em um furo primordial – de que a fé e a busca pelo divino é uma caracteristica e uma busca inerente ao ser humano, que a religiao crista não é a unica do mundo e que mesmo depois de 30 anos sem xampu, os seres humanos não conseguiram se tornar 101% céticos em relação ao mundo e a natureza.
Aí, como eu ia dizendo, o profeta vai seguindo seu caminho, ignorando estupros e outras atrocidades ao seu redor, até que acaba a água e ele tem que parar num lugar dominado pelo Oldman – uma cidadezinha decadente e mequetrefe onde o messias recarrega seu ipod e se mete em confusão pois, o velho Gary tava a fim de se utilizar da metodologia cristã de arrebatamento para trazer mais gente pro lado negro – e como ele nao tem donuts, o jeito era apelar pra mente fraca dos seres humanos e o eterno poder das 100 virgens. Até que o Mussolini 2.0 que atende pelo nome de Carnegie descobre que o ladrão de mochilas de alunos da 1a. série (hello! my name is Eli!) tem uma biblia escondida e segue ele até o inferno, usando como moeda de troca uma de suas escravas (que é filha de uma sapatão desempregada que sempre quis ser mae no seu seriado de origem mas nunca conseguiu direito), que obviamente vai se apaixonar pela ideia do livro (mente fraca! mente fraca!) e ajudar o mocinho a chegar ao seu destino.
Neste ponto, descobrimos o senso de humor da alucinação auditiva de Eli, que o mandou reconstruir a religião cristã em San Francisco, Meca gay dos USA (alô sodoma!), entregando o livro ao Alex, que tava preso em alcatraz desde 19871 quand foi condenado pelos seus atos em laranja mecânica. e percebemos que sempre que um diretor resolver adicionar 3 minutos no final do filme, o editor e o montador devem fazer com que este footage fique perdido para sempre e nunca chegue nas salas de exibição (tal como A.I. deveria ter sido abduzido!) – pq a verdade é que o filme vai bem até Solara virar jesus 3.0, pegar uma roupa da alice (resident evil) emprestada e sair pregando por ai. Aliás, a populaçao mundial morre de insolaçao por causa do buraco na camada de ozonio, mas nao eh meio CRUEL por o nome da sua FILHA DE SOLARA?! Ela acha que está em battlestar galactica? ainda mais quando vc já NASCEU CEGA e agora TODOS podem ficar cegos por causa do SOL?! É algum tipo de presságio? É uma simbologia já que o messias cristão foi inspirado no deus sol pagão (assistam zeitgeist)? Nunca saberemos…
Mas ainda assim, The Book of Eli tem quase tudo que eu gosto em filmes pra me divertir e ficar me mexendo na cadeira:
cenário pos apocaliptico, check
cenas de luta bem coreografadas e muito gore, check
personagens com habilidades rpgisticas, check
mitologia própria, fail
zumbis, fail
maldades com gatinhos, check
(mas nem senti falta dos zumbis, tem o casal de velhinhos fofos!)

Finalmente (e agora a sério), o filme é altamente tendencioso, manipulador e ideológico, nao há debate ou reflexão sobre o fato do mesmo livro que eles acreditam ser a chave para a salvação da humanidade ter sido praticamente responsavel pelo mundo estar naquele estado. É como se sem a doutrina cristã, o mundo fosse virar um caos sem controle e sem limites, mas o coitado do Whitta (roteirista) esquece que existem pelo menos mais outras duas mil religioes por ai that would do the job. O filme tenta ser filosófico, tenta ser noir (1a. cena de luta), tenta ser cowboy, tenta ser bom mas… nao é nada disso da maneira que almeja. Mas com certeza, trabalha bem a alegoria da “cegueira” religiosa a qual algumas pessoas se submetem, e nao há rayban que resolva.


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