terça-feira, 22 set 2020
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Invocação do Mal 1.5, por Lucas Procópio

Assim que teve seu nome associado com lucro garantido, o malaio James Wan ganhou uma espécie de carta branca dos estúdios, seja em projetos modestos ou em produções gigantescas de orçamentos estratosféricos, caso de “Velozes Furiosos 7” (2015) e o ainda inédito “Aquaman”. Outro fator que chama a atenção em sua filmografia é que dos 11 longas-metragens em que é creditado como diretor, 7 fazem parte de franquias. Coincidência?

O que os produtores perceberam é algo que fica mais óbvio a cada filme, ou seja, que a grande vantagem de Wan é sua capacidade de conexão com o público, de agradá-lo sabendo adicionar mãos de tinta fresca à formulas que mesmo desgastadas ainda se provam eficientes. Afinal, nada é mais satisfatório para as plateias do que suas expectativas serem testadas a torto e a direito, mas, eventualmente presenciarem os cânones serem reestabelecidos. Prova disso são as centenas de milhões de dólares nas bilheterias, e também os 133 minutos de “Invocação do Mal 2”, que não só dão continuidade aos eventos do primeiro filme, lançado em 2013, como também os repete descaradamente.

Saem de cena a família Perron e seu casarão rural mal-assombrado em Rhode Island e entra o poltergeist que assola o sobrado no qual a Sra. Hodgson e seus quatro filhos residem, nos subúrbios de Enfield, Londres. E assim como na residência americana, somos presenteados com um longo plano-sequência com o intuito de estabelecer a geografia da decrépita moradia das novas vítimas – não sem antes uma introdução protagonizada pelo casal Warren solucionando um outro caso, da mesma forma que “Invocação do Mal” os apresentava às voltas com a boneca Annabelle.

Reforçados pelo desgaste emocional que o abandono do pai provocou na família, os fenômenos sobrenaturais teriam supostamente tido início após Janet, uma das crianças, ter tentado se comunicar com espíritos através de uma tábua Ouija improvisada. A partir daí ela e seus irmãos passam a ser atormentados pelo fantasma do antigo proprietário da casa, descontente com a presença dos novos moradores. Enquanto isso, os Warren também passam por um período difícil, com Lorraine sendo perseguida por visões premonitórias com a participação especial de uma freira sinistra muito parecida com o cantor Marilyn Manson em seus melhores dias.

Pareceu familiar? Pois não para por aí. O roteiro escrito a oito mãos reprisa a estrutura narrativa do filme anterior, inclusive respeitando algumas ‘deixas’. Inicialmente intercalando a narrativa entre Estados Unidos e Inglaterra e posteriormente deslocando a ação para um só núcleo a partir da visita dos demonologistas, o pouco que é mudado provém diretamente do caso dito verídico. E é justamente desta suposta veracidade que vem o maior mérito e também o maior deslize desta continuação.

Mérito porque Wan flerta com a incerteza da veracidade do caso, assumindo o filme como um relato não só do casal de paranormais, mas também das supostas vítimas, cujos olhares e falas sempre precedem as aparições – em determinada cena, uma personagem aponta para algo fora do alcance da câmera, pergunta o que é aquilo para Lorraine, e somente a partir do momento em que ela direciona seu olhar é que somos ‘autorizados’ a compartilhar seu campo de visão. Sempre que se manifestam, as assombrações são vistas por intermédio humano, justamente no único momento em que um personagem não olha diretamente para a entidade sobrenatural, a câmera de Wan a tira de foco, nos privando de sua evidência visual. Em um dos poucos diálogos inspirados, o roteiro concretiza esta ideia:

– “O que você fez quando finalmente encontrou alguém que acreditasse em você?”

– “Me casei com ele”.

E assim, através do casamento, da religião e de outras instituições de crença compartilhada é que relatos como esse sobrevivem, não necessariamente verídicos, uma vez que são validados por quem os partilha.

É, portanto, uma abordagem amadurecida, já que no longa de 2013 a genuinidade das ocorrências demoníacas eram defendidas como questão de honra. Basta lembrar da já famosa sequência em que a assombração bate palmas atrás da Sra. Perron (Lili Taylor), ou mesmo dos dizeres que encerram a trama.

Logo, chega a ser irônico que a caracterização visual destas entidades maléficas seja tão cartunesca aqui, chegando ao ponto de uma mistura de stop-motion e CGI ser utilizada para dar vida ao “Crooked Man”, personagem literário criado por Arthur Conan Doyle e saído diretamente de um zootrópio para atormentar o caçula da família. Não por acaso, zootrópios e lanternas mágicas eram utilizados em espetáculos de fantasmagoria no fim do século XVIII, nos quais as ilusões óticas causavam pavor na mesma proporção que fascínio. E é exatamente por esta lógica que operam alguns filmes de horror, esses que atraem multidões aos multiplexes: pagamos o ingresso com o intuito de acreditar que por duas horas nós e aqueles personagens de fato corremos perigo, com direito a sustos e berros reais, mas com a certeza de que as luzes se ascenderão e que estaremos bem, sãos e salvos no mundo real. E não é à toa que em alguns cinemas “Invocação do Mal 2” esteja sendo exibido em salas D-Box, aquelas cujas poltronas vibram e se movem de acordo com os sobressaltos sonoros dos filmes exibidos. Trata-se do passeio de trem-fantasma mais completo e autoconsciente. Ou quase. Afinal, não foi este o motivo pelo qual os produtores colocaram o diretor no comando desta continuação.

Obviamente, há um limite imposto para as sutilezas da direção e aí onde o filme derrapa. Por mais interessante que seja a questão da dúvida e dos pontos de vista, os elementos mais grosseiros do original retornam. Ainda se fazem presentes as cartelas com textos sensacionalistas, a montagem caótica, a trilha alarmista, além do já citado roteiro no melhor estilo ‘copy+paste’. Porque no fim das contas, a fórmula deve ser respeitada.

Ficam aqui os votos de que o êxito não limite Wan como limitou seu colega M. Night Shyamalan, cujo sucesso gerou uma espécie de obrigatoriedade em repetir com eficiência as reviravoltas e surpresas de seus primeiros filmes, resultando em esgotamento e perda de credibilidade. E ficam também votos de que o Wan seja de fato tão interessante quanto tem sinalizado.  Infelizmente, ainda não são por suas boas ideias que Hollywood tem se entusiasmado por ele.

Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.