Milos Morpha

por Cesar Castanha

Fórumcast, o podcast da Fórum
13 de novembro de 2017, 22h15

O futuro das ruínas em “Era uma vez Brasília”, por Alan Campos

Antes da exibição do longa em competição, Era Uma Vez Brasília (Adirley Queirós, 2017), a décima edição do Janela Internacional de Cinema no Recife sabiamente acertou ao exibir o curta apocalíptico Vacancy (Matthias Muller, 1999). A obra retira quase que por completo a presença humana de suas imagens de arquivo, restando uma cidade fantasma que, enfatizada por uma narração ensaística, desloca nosso olhar em direção aos caminhos possíveis a partir das imagens do nascimento de Brasília. Caminhos que apontam para sua construção, seu ideal de futuro e seu rastro inumano legado ao tempo presente daquelas imagens. O deserto de sua gênese nos é direcionado por uma perspectiva quase alienígena de um futuro tão inexato quanto desolador.

Vacancy possui uma nostalgia pelo gesto criador, por voltar às primeiras imagens de uma cidade realizada sob a promessa de um futuro. A tendência ao apagamento da figura humana povoa a cidade com assombrações. O futuro dessa Brasília não foi alcançado, é necessário um retorno, é necessário uma recuperação, é necessário que os fantasmas ressurjam no embate da narração melancólica com a sensação de terra arrasada que as imagens possuem.

A terra arrasada também é presente em Era Uma Vez Brasília, tanto na cidade táctil, quanto na cidade fantasma – essa que vive apenas idealmente. Branco Sai, Preto Fica (2014) – filme anterior de Adirley Queirós – falava da insurgência, da força que vinha de baixo em direção a superfície, era um filme ebulição, partículas agitando-se de maneira violenta, o ponto de mudança. Brasília é filme em estado gasoso, dissipado, e em constante ameaça de mudança para outro estado.

Mais lento e meditativo do que Branco Sai…, Brasília possui predileção pelo plano longo, pela ação inacabada, pela estagnação diante da força externa, pela suspensão temporal da fruição da narrativa – constantemente somos compelidos a observar a duração de certas atividades, ou a falta delas, sem cortes: um carro pegando fogo, um cadeirante diante do palácio do planalto, um homem escutando música, etc. Há ainda o excesso de temporalidades: o deslocar do viajante do tempo em direção a 1957 para assassinar o então presidente Juscelino Kubitschek, os áudios de Temer ao assumir posse, o discurso de Dilma ao deixar o cargo da presidência.

A Brasília do filme é constantemente anacronizada, um palco para atravessamentos. Assim como Vacancy, Era Uma Vez Brasília é um filme desnorteado por caminhos que nos levam ao passado, ao presente e ao futuro, fazendo permear uma sensação de uma impossibilidade de se conhecer Brasília unilateralmente. A cidade se torna menos um espaço material e mais jorro de marcas temporais – atreladas a sensações diversas, como o lento e o angustiante – de suas diversas encarnações: a nostalgia da promessa do futuro de 50 anos atrás, a cidade que sofreu um golpe de estado, os personagens periféricos. Através do nível de elementos da ficção cientifica, Brasília emaranha suas histórias, personagens e temporalidades pelo estranhamento em contato com a cidade.

Este é um filme onde o presente de seus momentos não é alcançado, um filme que anda em círculos, por ações que chegam a lugar algum, ocasionando em uma espécie de claustrofobia pelo excesso. O vagar em busca de algo coexiste com a imobilidade diante de algo (normalmente, um elemento fora do quadro, como o som dos deputados votando a favor do impeachment). Gestos que não existem relativos a uma intencionalidade clara por parte do roteiro, e sim devido a polaridade do filme em se apoiar na sensação de inquietude junto com a de aprisionamento. Um filme imerso em diversos “prestes a…”.

O que coloca Era Uma Vez Brasília em destaque na cinematografia nacional é sua capacidade de nunca cair na obviedade de seus elementos, nunca recorrer ao didatismo formal ou narrativo que promove um fim definitivo. Um filme relativo à experiência diante da lentidão, mas também um ensaio sobre o choque das brasílias que existem e sobrevivem.

Para o filme ensaiar sobre a cidade, é necessário ir aos rastros, suas ruínas. A câmera de Adirley registra a decomposição, o estado deteriorado da materialidade, indo à cidade através da madeira crepitando, do fogo consumindo os restos, dos dejetos abandonados. Um espaço que busca passados, que evoca ausências. Ao recuperar a própria materialidade desses elementos e acontecimentos, Adirley dimensiona seu filme para a representação de um espaço à mercê do tempo, mas ele também joga seu espectador à deriva nesse lugar, fazendo-o apreender aquela realidade por sensações.

Criar a memória de um futuro, memoriar um golpe de estado, imaginar uma missão de assassinato no passado. Reanimar e desenvolver tensões a partir do concreto e do idealizado. Estar à espera de uma ruptura, de uma explosão. Pois Brasília nunca fez calar as vozes da promessa do futuro idílico – como é exposto na fala de Temer no filme –, e o que é apresentando em Era Uma Vez Brasília é o incessante deslocamento diante das ruínas. Entre um desaparecer e uma eterna promessa de renascer.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum