Milos Morpha

por Cesar Castanha

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29 de junho de 2014, 22h21

O Grande Hotel Budapeste

Tony Revolori e Ralph Fiennes em O Grande Hotel Budapeste
Para ser franco, acredito que seu mundo desapareceu muito antes de ele sequer ter nascido. Mas eu vou dizer, ele certamente sustentou a ilusão com maravilhosa graça”, diz o personagem de F. Murray Abraham, Moustafa, sobre seu mentor. A frase surge no pequeno epílogo que segue a maravilhosa aventura de O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson, 2014) e define perfeitamente não só o excêntrico e fascinante protagonista do filme, o concierge M. Gustave, como também o seu criador.

Apesar de O Grande Hotel Budapeste ter sido inspirado na obra de Stephen Zweig, é um fruto muito próprio da mente de Anderson. O diretor materializa um universo que parece só existir dentro da sua cabeça. Como todos seus personagens, ele insiste em uma meticulosa sofisticação, que muitas vezes pode parecer fora de lugar ou de tempo. Procurando uma comparação com outros cineastas, é mais fácil encontrar inspirações para o seu rigor em Ernst Lubitsch e Charles Chaplin que em qualquer realizador  dos últimos 30 anos. E, ainda assim, arrisca-se uma injustiça com a comparação, pois o trabalho de Anderson é especialmente pós-moderno.

O Grande Hotel Budapeste é uma boneca russa de pontos narrativos. Assim, é também inevitavelmente uma história sobre contar histórias. É bem verdade que as quatro camadas — por assim dizer — recebem do diretor o mesmo tratamento, embora o tom mude um pouco de acordo com a época retratada. Ao chegarmos no núcleo da história, o espaço narrativo e temporal chave, onde o filme passará mais tempo, algo na forma como aquele momento e lugar são descritos me remeteu à frase que abre o clássico Ninotchka (Ernst Lubitsch, 1939): “Este filme se passa em Paris naqueles dias maravilhosos em que uma sirene era uma morena, e não um alarme — e se um francês desligasse a luz não era por causa de um ataque aéreo”.

A diferença de um filme de Anderson para um filme de Lubitsch — este grande e genial, um dos maiores — é que o primeiro está mais consciente do caráter falso de sua nostalgia. O diretor sabe que o lirismo de M. Gustave, a disciplina do escoteiro-chefe de Moonrise Kingdom (Wes Anderson, 2013) e a nobreza da antiga Rushmore são apenas ilusões de seus personagens, que nunca existiram, em nenhum tempo. Como Anderson, eles terão que se contentar em encenar a própria ilusão dos modos mais estranhos.

E como são deliciosas essas encenações! As construções cênicas de O Grande Hotel Budapeste são talvez as maiores conquistas que Anderson teve como diretor até hoje. Como em Moonrise Kingdom, todas as sequências fluem com a graça das melhores brincadeiras infantis. São longas, grandes e difíceis sequências de fuga e perseguição. Anderson as domina todas, com verdadeira maestria. A sua mise-en-scèneainda é uma das mais poderosas do cinema americano contemporâneo. Ele é, como seu personagem, “um vislumbre de civilização nesse bárbaro matadouro que conhecemos como humanidade”.

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