Milos Morpha

por Cesar Castanha

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09 de outubro de 2014, 14h33

O Homem Mais Procurado

Willem Dafoe e Philip Seymour Hoffman em O Homem Mais Procurado

O thriller é um dos poucos gêneros desenvolvidos no cinema clássico que mantêm uma identidade forte o bastante para perpassar quase todos os filmes que assim são identificados. Compartilha com o suspense e o drama policial certo tom nebuloso de surpresa esperada, mas indefinida. A diferença é que o thriller troca as armas e a contagem de corpos pelo processo burocrático. E esse reconhecimento da burocracia diz tudo sobre como o gênero busca entender a atividade de seus personagens. O thriller não tem heróis porque a burocracia limita a ação dos protagonistas. A vontade deles descobre, no sistema do qual fazem parte, barreiras que, dependendo do filme, são insuperáveis. E a trajetória dos personagens no thriller é o combate com forças invisíveis tanto do jogo burocrático quanto do seu próprio ego, que te cega justamente onde você quer ser cegado. No estudo de personagem que tem que ser feito para alcançar esses conflitos, o thriller acaba se aproximando de princípios do cinema realista, como o reconhecimento de um espaço para além do quadro e a fidelidade ideológica a personagens-chaves, nunca traindo o seu ponto de vista.

Não é muito evidente o que há em comum entre o que o cinema e a literatura reconhecem como realismo em seus respectivos meios. Por isso, tomo a liberdade para supor uma coincidência que John Le Carré seja um dos poucos autores do contemporâneo romance de espionagem, muito comprometidos que foram com a invenção cultural da Guerra Fria, a emular características do realismo literário, principalmente o estudo psicológico dos personagens.

Falo em coincidência porque um dos romances de Le Carré inspirou O Espião que Sabia Demais (Tomas Alfredson, 2011), um dos melhores thrillers recentes (o meu preferido deste século é Zodíaco, se interessa saber) e, agora, outro inspira O Homem Mais Procurado (Anton Corbijn, 2014). Quando comparados, o segundo apresenta uma construção de cena mais crua, embora igualmente cuidadosa. Isso talvez se justifique na ambientação temporal. Um filme de época, quando procura recriar fidedignamente um tempo passado, concede a ele um tom farsesco inevitável à construção nostálgica e tem como resultado uma ordem visual encantada, falsa. Ao observar a própria época, O Homem Mais Procurado tem uma maior liberdade estética, pois, no processo de ambientação, há menos erros que podem ser cometidos.

A nostalgia, no entanto, também está presente no filme. Nas duas adaptações de John Le Carré, os personagens lutam contra ela — e é crucial que eles vençam a luta para conquistarem seu objetivo. George Smiley, o protagonista de O Espião que Sabia Demais interpretado de maneira exemplar por Gary Oldman, precisava superar a própria nostalgia. Em O Homem Mais Procurado, Gunther Bachmann (Philip Seymour Hoffman, mostrando a falta que fará) precisa passar por cima de um sistema falido, ainda não disposto a abrir mão de métodos datados de solução de conflitos.

O Homem Mais Procurado reconhece as neuroses políticas do pós-2001, mas rejeita suas consequências brutais de autoritarismo desumano agindo em nome de uma obscura Segurança Nacional. Os diálogos e a representação de alguns personagens (principalmente aquela pouco ativa do personagem referido no título) reforçam o aspecto militante de O Homem Mais Procurado. Talvez porque o discurso do filme flui muito organicamente ou até mesmo pelo trabalho competente da direção, o discurso nunca cansa. Corbijn faz com que a preocupação moral dos personagens seja incluída na rede de disputas do jogo burocrático. O cinema americano pós-2001 mais crítico às ações do próprio país tende a colocar esse impasse; O Homem Mais Procurado vai além ao perceber que ele é institucionalmente ainda ignorado. Em um tempo em que a indústria midiática ainda cobre de fumaça as atrocidades praticadas pelo exército americano nas diversas guerras a países árabes, a contestação do filme é bem-vinda.



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