Milos Morpha

por Cesar Castanha

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06 de julho de 2015, 12h34

Sense8: televisão militante

Sense8

(Divulgação)

Eu gosto muito da Hollywood marxista dos irmãos Andy e Lana Wachowski. Matrix ainda resiste como uma pérola da ficção-científica mainstream. Apesar de suas duas continuações não serem muito apreciadas, o universo complexo que foi criado para a trilogia não esconde a inspiração nos conflitos básicos da sociedade capitalista. Gosto ainda mais, no entanto, quando os Wachowski enveredam pela tolice típica da Hollywood contemporânea, ou antes da má Hollywood, de filmes carregados de CGI e de pouca pretensão intelectual.

Não que A Viagem, seu projeto mais ambicioso e muito subestimado, não seja excelente. Mas não constrói a sua política da mesma forma absurda de um O Destino de Júpiter, filme que adota a estética dos atuais fracassos do mercado. É mais fácil abraçar o cinema camp de Paul Schrader e Paul Verhoeven, referentes a outras épocas e gêneros, que reconhecer a ousadia ideológica das produções dos Wachowski, próximas demais do atual e unânime filme ruim.

A série Sense8 desagradou tanto um amigo que ele chegou a escrever uma postagem no Facebook a comparando a uma novela da Record. Não conheço o bastante desta para desconstruir a comparação, mas acho que podemos concordar que o comentário tem outro fundamento: o tipo de texto e mise-èn-scene em que se desenvolve a trama da série. Sense8, diferente de outras séries do Netflix, abraça a televisão que o site parece superar. É realmente novelesca, no sentido de entregar o que já seria esperado dela em quase todos os pontos.

Outro amigo comparou a série às novelas de Glória Perez, imagino que pela representação de diferentes etnias. Em Perez, no entanto, há um exoticismo no olhar para o outro, persistindo o estereótipo imposto pelo estrangeiro. Não podemos dizer que Sense8, que se passa em oito cidades diferentes ao redor do mundo, mata o estereótipo. O olhar ainda é do outro, os Wachowski podem ter um entendimento de eu para com alguns personagens, mas lógico que não para com todos. Ainda assim, eles procuram a autorepresentação, novelesca, estereotipada e, por isso, ainda parcialmente problemática, mas preocupada com essas questões, problematizando-as. Sense8 vai à estética opressora para politizá-la. A série busca entender onde está e de quem fala e está disposta a sacrificar a própria legitimidade (estética e política) para isso.

Sense8 está muito consciente de seu lugar e tempo de existência. O movimento transfeminista cresceu nos últimos anos, exigindo uma representatividade trans maior na televisão e no cinema e rejeitando a representação pelo outro. Cresceram também o antigo conservadorismo do homem branco e um movimento feminista paralelo que rejeita pautas trans. Apesar de ser pró-transfeminismo, não acho que caiba a mim nem a este espaço julgar o muito complexo conflito ideológico entre as duas militâncias. A questão para mim é como Sense8 defende um feminismo (ou antes uma militância) intereseccional e solidário e como, dentro disso, trabalha seus protagonismos.

A história de oito pessoas que têm uma ligação sensorial metafísica, podendo fazer-se um só, presentes um pelo outro, lidando cada um com a opressão alheia, é uma história de empatia militante e de solidariedade. Assim, Sense8 se posiciona dentro do quadro maior da militância. Para a série, o inimigo é o opressor, e oprimidos e aliados devem caminhar juntos para construir, como a própria série, um aprendizado e consequente conhecimento do outro.

Acho que as virtudes estéticas e ideológicas de Sense8 (o enfrentamento típico dos Wachowski sendo a maior delas) são maior que as suas falhas. Um problema da televisão do Netflix é a falta de contato com respostas e leituras no decorrer da temporada (porque esse “decorrer” não existe), ou seja, a falta de crítica. Acho que isso tem prejudicado principalmente as séries que buscam a militância, como Unbreakable Kimmy Schimidt, Orange is the New Black e Sense8. Espero, então, ver o fruto desse aprendizado, o da série e o dos personagens, numa próxima temporada. E espero que esta aconteça, ainda falta ao cinema e à televisão muito do doce interesse dos Wachowski por fazer a coisa certa.


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