Milos Morpha

por Cesar Castanha

Entrevista exclusiva com Lula
29 de outubro de 2014, 11h59

Turistas

Uma das características mais motivadoras de um festival de cinema, pra mim, é a possibilidade de imediatamente confrontar leituras para os filmes vistos. Assim, desde que vi Turistas (ou Força Maior, o filme ainda não tem tradução oficial) no último sábado, parte da programação do Janela Internacional de Cinema do Recife, ouvi de amigos as mais polarizadas, certas, empolgadas e decepcionadas interpretações.

Turistas (Ruben  Östlund, 2014) é um filme que dá espaço para isso porque deixa muito claro que quer dizer algo, que não está evidente e mastigado, pela trajetória dos personagens. A construção da ideia — que nunca precisa ser só uma — está enveredada numa estrutura desafiadora, complexa não por se pretender inalcançável, mas por não ser ideologicamente linear. Aí as várias leituras que inevitavelmente surgem podem estar mais ou menos próximas da intenção do diretor (podem até ser mais interessantes que ela), mas dificilmente estão erradas, a não ser que sejam derrubadas por descobertas dentro do próprio filme.

Nesses dias, eu conheci vários Turistas, em calçadas de cinema, cafés e mesas de bar. O filme é tão rico que, mesmo durante a sessão, os tantos sentidos possíveis do que diz me atingiram. São muitas as suas possibilidades de discurso: instintos, conflitos, casamento e monogamia, relações de poder, construção da imagem, etc. Quase todas essas pautas são acentuadas ou postas contra a parede pela sequência final. Dentro do cinema, desejei o fim do filme cerca de 15 minutos antes de ele ter realmente terminado. Talvez se assim fosse ele seria mais aceito — sem dúvidas seria uma solução mais fácil —, continuar depois dali é uma bela demonstração de criatividade narrativa. Se interessar a alguém, Östlund fala em entrevistas de uma relação entre o seu final e O Discreto Charme da Burguesia(Luis Buñuel, 1972).

Por Turistas ser um filme de tão curiosas surpresas, prefiro não mencionar os caminhos do enredo. Simplificando-a, é a história de uma família nuclear (pai, mãe e dois filhos, um casal) sueca de férias nos alpes franceses. Determinado evento os confronta com seus instintos menos socialmente aceitáveis e expõe as relações de poder dentro da família invisíveis porque antes tranquilamente aceitas. E, quando as fragilidades do opressor estão visíveis aos oprimidos, há rebeldia (de esposa que não aceita o discurso do marido e filhos que não aceitam a ordem dos pais). Nas relações amorosas de Turistas, essa rebeldia se dá pela possibilidade de um conflito-base (até de questionamento do machismo cordial) enterrado há tempos. A percepção dessa possibilidade contagia inclusive outros personagens, que ou dão continuidade à rebeldia ou expõe também a fragilidade do rebelde em sua causa, sua hipocrisia e o papel de opressor que também ocupa. Ser descoberto é tão angustiante que eles precisam encontrar um jeito de voltar atrás, retomando a farsa. No final, as opções são aceitar as próprias fragilidades ou continuar mantendo a ilusão.

Pode ser também uma coisa completamente diferente.



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