domingo, 20 set 2020
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Vigília Oscar 2012: Os Homens que Não Amavam As Mulheres

Abdico aqui de toda a minha credibilidade ao me declarar como fã absoluto da obra de Stieg Larsson. Não satisfeito ainda acrescento: Ficher não fez um filme que eu não gostasse, nem mesmo Quarto do Pânico. Já tivemos várias provas do seu talento em direção, sendo a mais recente o maginífico A Rede Social. Portanto, como uma tentativa de criar certo equilíbrio, vou começar falando dos defeitos desta união, antes de vomitar todos os elogios.
A versão de Fincher foi menos do que poderia ter sido. Foi próxima demais do livro, consequentemente próxima demais da versão sueca. Como se fosse um remake melhorado e não uma readaptação, como era pretendido. Por várias vezes o filme cria um problema de foco narrativo, a história se divide demais ao ponto de o estupro e a vingança de Lisbeth parecerem um fato isolado mais que uma importantíssima chave para construir a personagem dentro do filme. Já quanto a mudança do final, apesar de se encaixar melhor no cinema, é pouco crível. Fincher não é Larsson, ele não teve a capacidade do autor de criar outra saída sem deixar mil buracos na trama.
A coisa é que lá dentro do cinema nada disso incomoda, os defeitos vieram depois junto com o fim do estado de hipnose que o filme me deixou. Não tive um momento sem tensão mesmo já sabendo o que acontece de có e salteado. E isto é crédito de Fincher, assim também como de Daniel Craig e Rooney Mara. A dupla tem uma química que deixam ambos personagens bastante interessantes. Pois com a Lisbeth Salander de Mara surge um novo símbolo feminino no cinema.
Alias, é Salander o ponto alto do longa. Fincher soube manter a pesada crítica social de Larsson quanto a marginalização da mulher e do diferente. Traz questões importantíssimas a serem discutidas e redescutidas. Para tanto ainda há o resto da trilogia para ser adaptada, em breve teremos The Girl Who Played With Fire que mergulha mais profundamente na personagem de Mara. Aí sim, Meryl Streep poderá interpretar de Cleopatra a Oprah Winfrey que o carequinha já terá uma dona.
Os Homens que não Amavam as Mulheres recebeu 5 indicações ao Oscar: Atriz (Rooney Mara), Fotografia, Montagem, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som
Cesar Castanha
Cesar Castanha
Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.