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O que o brasileiro pensa?
11 de julho de 2020, 13h51

A Lava Jato lançou um manifesto e isso é grave

Uma narrativa digna das fanfics de Joice Hasselmann, faltando apenas aquele tapinha mais desavergonhado

Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Se há algo para descrever a “bomba” do portal Vortex, essa é a definição. Ontem mesmo eu já havia pontuado a causalidade da publicação. As publicações que atacavam diretamente o ministro Dias Toffoli chegaram um dia após a decisão dele em desfavor da Lava Jato e que obriga “a militância” de Curitiba a compartilhar dados com a PGR.

O Diretor-geral e fundador do portal, Diego Escosteguy, lançou três “reportagens” prometendo ser o início de uma série, uma espécie de Vaza Jato às avessas.

Atenção para o primeiro texto da tal série, é nele que irei me debruçar. Uma verdadeira ode ao lavajatismo que se comporta de forma acintosa contra as instituições brasileiras e contra a própria democracia.

Logo no começo o texto, o autor já entra de facada em uma suposta ligação da sub-PGR Lindôra Araújo com um procurador que interrogava Marcelo Odebrecht. Ele queria saber se havia alguma informação envolvendo Rodrigo Maia ou indícios de corrupção na força-tarefa de Curitiba, mas o delator afirma que não.

Aqui já chegamos na primeira “casualidade”, justo após a idoneidade da “militância” de Curitiba ser colocada em xeque. Observação: um dos temas do texto seria a “a asfixia da Lava Jato”.

Ali o show de horrores impera, a narrativa tacanha e característica da lava Jato do Brasil versos Brasília chega totalmente desavergonhada em frases do tipo: “poderosos de Brasília”.

A narrativa fica toda orbitando entre ataques diretos contra Lindôra Araújo e Augusto Aras. especula-se até mesmo uma proximidade entre a sub-PGR e Flávio Bolsonaro, de maneira vaga e com relatos baseados em depoimentos de supostas fontes.

A coisa toda não parou por aí. O trecho seguinte do texto se chama “um PGR político” e é ali que o “manifesto de julho” toma forma. Se os camisas verdes tinham o manifesto de outubro, aqui não seria muito diferente.

Chega a ser risível o espanto do autor com a postura política da PGR afirmando ainda que pela primeira vez em sua história, a cúpula do Ministério Público Federal (MPF) se tornou um órgão político.

Ignorando completamente o histórico político do próprio MP, a Lava Jato já fez panfletagem eleitoral em praça de pedágio de rodovia. Deltan almejou um candidato do MP para o senado de cada estado do país e ainda ensejou ser senador pelo Paraná.

Então assim, mesmo que a cúpula do MPF realmente tenha se tornado uma facção política, não seria surpresa e certamente teria como referência a atual da Lava Jato.

E ali, mais uma vez, a narrativa Brasil versus Brasília aparece quando afirma que ‘Brasília ganhou imunidade da PGR’. É a antipolítica promovida pela Lava Jato em sua mais pura síntese.

Em “um poder incomparável”, temos a denúncia de que parte da suposta conspiração de Aras e Lindôra tinha como objetivo colocar as mãos no farto material da Lava Jato e que poderia servir de munição para, uma vez nas mãos de Jair Bolsonaro, servir de chantagem contra políticos.

A teoria, no entanto, passa longe de como a Lava Jato possa ter esse acervo. Até hoje, a força-tarefa não explicou se há e por qual motivo haveria uma penca de Procedimentos Investigatórios Criminais (PICs) ainda em aberto.

Tampouco explicaram por qual motivo estariam investigando gente com foro privilegiado e ainda há graves indícios de que exista um sistema clandestino de investigação próprio da Lava Jato.

Tudo ao arrepio da lei. O MPFSP inclusive pediu para que a Lava Jato em São Paulo parasse de distribuir processos de maneira viciada e indevida passando por cima dos canais de distribuição regular.

Mesmo que a PGR estivesse tentando colocar as mãos em dados da Lava Jato para chantagem, não haveria mérito para nenhuma das partes, as informações obtidas pela força-tarefa possuem indícios de serem coletados de maneira totalmente ilegal ao arrepio da lei, isso sem falar sobre a “grampolândia”.

Menção (des)honrosa para o início dessa parte do texto, onde o ex-ministro Sergio Moro é alçado ao posto de paladino do combate contra a corrupção. É inclusive nesse trecho que 2022 se adianta e a campanha começa.

E então vamos para “Um pilar do projeto de poder bolsonarista”, essa parte do texto é onde o “Manifesto de julho” se escancara e trata de uma trama obscura que busca sucumbir o Brasil aos males do Bolsonaro, só faltando falar que a única salvação para isso seria a própria Lava Jato e nada menos.

A parte seguinte se chama “Vou pegar o Moro”, e ali somos apresentados ao homem que pode salvar o Brasil e que se colocou contra uma turba que tem como seus principais objetivos obliterar um inimigo político. E, então, o ringue para o embate Moro versus Bolsonaro é montado para 2022.

Não é por menos que Rodrigo Tacla Duran vira alvo e sofre sucessivas tentativas de ser desacreditado. Tacla Duran é um costumaz e ferrenho opositor da Lava Jato e que constantemente denúncia os desmandos e arbitrariedades que foram cometidos até mesmo contra ele.

A riqueza dos detalhes – caso sejam verdadeiros – nos leva a crer que os vazadores da informação para o Vortex são pessoas ninguém mais, ninguém menos que membros da Lava Jato em Brasília e em Curitiba.

A penúltima parte do texto se chama “O ataque a Lava Jato para defender Bolsonaro”, e ali segue a montagem do ringue do embate entre lavajatismo e bolsonarismo para pavimentar o caminho para 2022.

Pergunto: o que Jair Bolsonaro tem de relação com a Lava Jato? Não faltam indícios de corrupção no entorno do presidente e seus familiares, mas até então Bolsonaro não possui nenhuma denúncia que coloque ele ou pessoas próximas como alvos da operação. Logo, eu pergunto: por qual motivo a Lava Jato seria uma ameaça para Bolsonaro?

O texto alega que seria a disputa presidencial em 2022, nada além disso. O que está colocado ali é em sua totalidade feitiçaria e malabarismo para justificar a história toda, como por exemplo afirmar que o objetivo seria diminuir o custo político de arquivar o inquérito em que a PF investiga a interferência indevida de Bolsonaro na instituição.

Um cálculo que não faz sentido algum. Há sim interesse da PGR em soterrar o caso, mas não existem maneiras de fazê-lo sem macular sua imagem ou piorar a cisão existente no MPF e na PGR. Ainda “alerta” para futuros ataques contra o santo Moro que estariam por vir, e então tudo que vem a seguir é uma declaração de guerra da lava jato contra o bolsonarismo, onde se colocam como os únicos que podem salvar o país.

Não sem antes enaltecer e exaltar Moro como o homem que coloca medo no Palácio do Planalto. O texto tem data: 2022.

Surreal que tenhamos um MP tão “porra-louca” e sem ninguém para colocar freios na delinquência.

Gostaria de saber se vão ameaçar Diego Escosteguy de prisão, igual ameaçaram o jornalista Glenn Greenwald. Ambos publicaram informações vazadas. Porém, só um beneficia a Lava Jato.

Em tempo: quem são os investidores ocultos da Vortex e qual foi o imbróglio com estes investidores que fez o site demitir diversos profissionais, fechar a redação em São Paulo e ocultar todas as informações sobre quem seriam os membros remanescentes do time? Desde dezembro do ano passado, a página ‘Quem Somos’, que contava com os nomes dos profissionais envolvidos no projeto, está desativada.


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