o colunista

por Cleber Lourenço

O que o brasileiro pensa?
16 de maio de 2020, 22h55

Brasil: Ame-o ou deixe-o e a “nova meningite”

Se os militares tratarem a Covid-19 da mesma forma que trataram o surto de meningite em 1971, teremos mais 4 ou 5 anos pela frente

Foto: Agência Brasil

Parece que a principal preocupação dos militares se tornou a imagem do país para o mundo, em um momento onde tudo que o Palácio do Planalto faz é se certificar que o país virou um verdadeiro descalabro.

Por conta deste momento de distúrbio político, o Brasil inevitavelmente chamou a atenção da imprensa mundial. Contudo, segundo o general Mourão, vice-presidente da república, a culpa é dos brasileiros.

“O prejuízo à imagem do Brasil no exterior decorrente das manifestações de personalidades que, tendo exercido funções de relevância em administrações anteriores, por se sentirem desprestigiados ou simplesmente inconformados com o governo democraticamente eleito em outubro de 2018, usam seu prestígio para fazer apressadas ilações e apontar o País ‘como ameaça a si mesmo e aos demais na destruição da Amazônia e no agravamento do aquecimento global’”

O problema é que Mourão culpa os brasileiros por apontarem os problemas que o próprio governo provoca e promove. Isto é tão doentio quanto culpar quem chamou os bombeiros pelo incêndio.

Repetem os mesmos erros de 1964. Porém, para a nossa sorte, hoje já não é possível ter um soldado em cada porta de redação para dizer que não existe corrupção com a baioneta do fuzil.

Mas não é só isso, se os militares tratarem a covid-19 da mesma forma que trataram o surto de meningite em 1971, teremos mais uns 4 ou 5 anos pela frente. A doença que começou com um surto em 1971, só foi devidamente controlada em 1976.

Se não bastasse, foram dois tipos de meningite meningocócica: do tipo C, que teve início em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974.

Sob o pretexto de não causar pânico na população, a censura dos militares proibiu toda e qualquer reportagem que julgasse “tendenciosa” sobre a doença. O que dificultou ainda mais o combate do surto que se agigantava, afinal de contas as pessoas não entendiam muito bem o que estava acontecendo.

E sob o mesmo pretexto, Jair Bolsonaro acusa a imprensa e governadores de serem alarmistas e tendenciosos, acusa a imprensa de gerar pânico desnecessário e insistentemente induz a população menos ao erro que pode muitas vezes matar.

É claro, o coronavírus é muito mais contagioso que a meningite. Contudo, para a nossa sorte, Bolsonaro não tem a censura institucionalizada como política de estado, embora isso não seja problema.

O presidente incita a sua horda de delinquentes e apoiadores que perseguem e agridem jornalistas, e não é só isso. Equipes que coletam testes para pesquisa nacional sobre coronavírus são detidas e agredidas em diversas cidades do país. Material chega a ser destruído por policiais militares de diferentes estados do país, segundo uma reportagem da Folha.

Infelizmente, parcelas consideráveis das PMs de todo o país seguem de maneira inequívoca o presidente da república, agem como uma espécie de GESTAPO do presidente, que em mais de uma ocasião estimulou a indisciplina da tropa junto com seus filhos, seja nas forças armadas ou então seja nos quarteis da PM.

Embora não seja institucionalizada, Bolsonaro estimulou o guarda da esquina, e nem precisou de decreto.

Em abril, uma organização de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar se propôs a ir de forma frontal contra as diretrizes do governador do Estado de São Paulo.

É o mesmo clima do Brasil de 1970, tão euforicamente lembrado pela desvairada Regina Duarte com a música “Pra frente Brasil”.

Assim como naquela época, o inimigo é a imprensa e uma doença assola o Brasil, que assim como naquela época, também não conta com qualquer ajuda do Palácio do Planalto que tenta a todo custo minimizar a doença, as mortes e os impactos.

Para não deixar dúvidas, o governo tentou até mesmo emplacar um AI-5 para chamar de seu com a Medida Provisória 966, que livra agentes públicos de responsabilização por ação e omissão no combate à pandemia do novo coronavírus.

Um excludente de ilicitude para quem matar por negligência seria uma carta branca para a delinquência. Contudo, o projeto certamente será barrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Infelizmente não temos um hino como na ocasião, mas se tivéssemos seria: “Para trás, Brasil”.


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