No rastro do crime ambiental nas praias do Nordeste
14 de março de 2019, 16h11

Dogolochan: até quando ‘mascus’ vão destilar ódio, ameaças e marcar hora para matar?

Massacre de Suzano foi celebrado em fórum acessado na deep web, mas não foi a primeira vez que um crime foi anunciado no grupo

O massacre da escola em Suzano que deixou dez mortos nesta quarta-feira (14), foi articulado num fórum da internet chamado Dogolochan. Os assassinos eram frequentadores desse espaço da deep web, onde sob anonimato, os participantes destilam ódio e planejam ataques, como denuncia há pelo menos oito anos a blogueira e professora da Universidade Federal do Ceará, Lola Aronovich.

“Não tive dúvida que era um crime de ódio. E imaginava quem havia incentivado os assassinos, imaginava qual fórum na internet eles frequentavam. E não deu outra: era mesmo o Dogolachan”, afirmou Lola, que sofre ameaças cotidianamente.

O Dogolochan foi criado por Marcelo Valle Silveira Mello em 2013. Ele chegou a ser preso e ser solto, até que em maio do ano passado foi preso novamente. E, em dezembro, foi julgado e condenado a 41 anos de prisão. “Só que ele deixou toda uma quadrilha pra trás, e todos os membros da gangue continuam soltos”, ressaltou Lola.

Não é a primeira vez que crimes são antecipados nesse espaço que reúne perfis que Lola chama de “mascus”. O termo mascu é uma abreviação para “masculinista”. “São misóginos e de extrema direita. Nunca vi um mascu de esquerda, em geral são eleitores do Bolsonaro”, disse em entrevista à Fórum, em janeiro de 2017. Na ocasião, a professora denunciava o autor de uma chacina que ocorreu na noite de ano novo na cidade de Campinas (SP). Sidnei Ramis de Araújo matou a ex-mulher Isamara Filier, o filho e mais dez familiares e deixou uma carta, onde chamava as mulheres de vadias entre outros termos, que levou Lola a identificá-lo como um mascu.

Outro crime anunciado foi o assassinato da jovem de 27 anos Luciana de Jesus do Nascimento, que estava sentada num banco de praça em Penápolis, interior de São Paulo, em junho do ano passado. A versão divulgada na mídia apontava que a mulher negou se envolver com um homem, que sacou a arma e atirou contra ela.

André Luiz Gil Garcia, que matou a jovem, segundo Lola, se autointitulava Kyo, e na véspera do crime escreveu no Dogolochan que iria se matar, que sua vida não valia a pena. “Os outros responderam, quase em coro: ‘Leve a escória junto’. Em outras palavras: antes de se suicidar, vire um herói. Mate mulheres, homossexuais e negros. Só depois se mate”, escreveu Lola na época.

Como disse o jornalista Renato Rovai, no programa Fórum Onze e Meia desta quinta-feira (14), está mais do que na hora de a Polícia Federal investigar esse tipo de grupo de ódio onde as pessoas “marcam hora para matar”. “Precisam usar inteligência para impedir que aconteçam massacres como o de Suzano”.

Jornalistas que escrevem matérias sobre o Dogolochan, assim como pessoas que se solidarizam com Lola costumam receber ameaças também. A repórter da Vice Marie Declercq, autora da matéria sobre a celebração do massacre de Suzano no Dogolochan,recebeu ameaças em seu e-mail.

Esta jornalista que aqui escreve, quando escreveu matéria sobre os mascus e as ameaças sofridas por Lola, também começou a receber inúmeros e-mails. Um deles trazia os supostos documentos com fotos, indicando que eles estariam sendo divulgados no Dogolochan e dizia “boa sorte”. Reportagem do programa Profissão Repórter, exibido em dezembro de 2015, tratou sobre as ameaças que Lola vinha sofrendo. Após o programa, o repórter Guilherme Belarmino, que entrevistou Mello, sofreu ataques racistas e ameaças de morte pela internet.

Até quando esse grupo vai continuar ameaçando pessoas, jornalistas e destilando o ódio e a morte impunemente? Principalmente agora com o acesso a armas facilitado pelo governo Bolsonaro.


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