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04 de julho de 2019, 06h47

Mudança no Enem segue modelo de negócio de Weintraub, diz Daniel Cara

Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, "toda essa reformulação do Enem tem a ver com o negócio dos cursinhos, dos materiais didáticos, com os serviços digitais, com as parcerias com as grandes empresas de internet"

Reprodução/Vídeo

O educador popular Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, criticou as mudanças do Enem anunciadas nesta quarta-feira (3) pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. Segundo ele, elas são precipitadas, caminham para um esvaziamento do Enem e fazem parte de uma visão do exame como um modelo de negócios.

Cara, vencedor do prêmio personalidade da Educação em 2012, da Nova Escola, pelo papel que teve na aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE), acredita que é irresponsabilidade do governo anunciar mudanças sem sequer ter aplicado uma edição do exame.

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“O Weintraub não conhece nada de educação, ele nunca implementou o Enem para saber. A gente tem um governo que durante a campanha e como presidente eleito, o Bolsonaro sempre criticou o exame. Meu receio é que essa reforma como está colocada faça parte de um esvaziamento do Enem como um grande modelo de ingresso. Apesar de ter restrições – eu queria que todos pudessem acessar a universidade – ele é o modelo mais democrático de acesso ao Ensino Superior que já foi implementado no Brasil”, avaliou.

Para o educador, as mudanças que visam seguir a reforma do Ensino Médio são catastróficas e seguem um modelo de negócio. “O mais preocupante é que a Base Nacional Curricular, que é bem complicada e criticada por muitos professores, também era criticada, não pelos motivos corretos, pelo governo Bolsonaro que dizia que ela propagava ‘marxismo cultural’. Isso mudou quando setores do governo perceberam que ela pode ser uma alternativa de negócio, a visão mudou e o governo passou a ser defensor dessa medida. O Weintraub incorporou essa agenda e toda essa reformulação do Enem tem a ver com o negócio dos cursinhos, dos materiais didáticos, com os serviços digitais, com as parcerias com as grandes empresas de internet”, explicou.

Ele ainda considera que há um projeto de desmonte da educação e que o Enem é dos mais visados pela relação com os seguidores do bolsonarismo, que demonizaram o exame. “O Enem é o alvo preferencial porque ele movimenta a base bolsonarista, que começou a considerar, absurdamente, o Enem como um instrumento de doutrinação ideológica. E o governo Bolsonaro é apenas isso: reforma da Previdência e inúmeras medidas para alimentar e fidelizar a base social e eleitoral do governo. Ele não está preocupado com o país”, afirmou.

Para Cara, a digitalização não é ruim por si só, inclusive o governo Dilma chegou a avaliar isso com o ministro Cid Gomes e a se aprofundar com o ministro Aloízio Mercadante, até pelo aspecto da acessibilidade, mas a forma como está sendo gerida é bem complicada. “Essa mudança vai trazer inúmeros desafios, como problemas logísticos, pode gerar uma elitização e ainda pode gerar desconfianças sobre a prova. Um aspecto que ainda pode acontecer, uma inferência, é o fato de que a digitalização pode impor uma revisão do banco de itens, que é obsessão do bolsonarismo”, disse.

O educador ainda pontuou que é curioso um governo que se elegeu colocando em dúvida as urnas eletrônicas apresentar um projeto que pretende extinguir a versão física do Enem e transformá-lo em uma prova totalmente digital. “É curioso, o governo que é contra a urna eletrônica quer tornar o Enem eletrônico”, ironizou.


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