44ª Mostra de São Paulo: Online com 198 filmes de 71 países, por Filippo Pitanga

Agora disponível para todo o Brasil graças à plataforma Mostra Play, confira destaques desta edição especial por streaming da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o maior evento de cinema do Brasil, como o último ganhador do Festival de Berlim, o polêmico iraniano “Não Há Mal Algum”, e nosso selecionado brasileiro em Cannes […]

Agora disponível para todo o Brasil graças à plataforma Mostra Play, confira destaques desta edição especial por streaming da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o maior evento de cinema do Brasil, como o último ganhador do Festival de Berlim, o polêmico iraniano “Não Há Mal Algum”, e nosso selecionado brasileiro em Cannes 2020, “Casa de Antiguidades”.

Fundada em 1977 pelo saudoso cineasta e curador Leon Cakoff, no aniversário de 30 anos do MASP (Museu de Arte de São Paulo), perpassamos mais de quatro décadas de existência da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para chegar à sua primeira edição predominantemente online devido à pandemia de 2020. Ora com a direção da também cineasta e curadora Renata de Almeida, viúva de Cakoff, de 22 de outubro a 04 de novembro daremos continuidade à tradicional volta ao mundo através do cinema com alguns dos filmes mais aclamados e premiados dos Festivais internacionais, bem como grandes estreias do cinema brasileiro (acumuladas por causa do fechamento dos cinemas e adiamento dos Festivais).

O acesso é super fácil pela plataforma Mostra Play e já vem sendo testado e aprovado pela imprensa na semana anterior ao evento, que começa oficialmente na virada do dia 22 para 23 de outubro, liberando todos os filmes de uma só vez para compra por R$ 6,00 cada ingresso. Mas atenção: os filmes terão limite de 2.000 visualizações (alguns até menos). Lembrando que, a partir da compra, você terá 3 dias para assistir ao filme adquirido, mas apenas 24 horas a partir do momento em que apertar o botão de Play.

Então, vale a pena procurar os mais concorridos e dar prioridade na primeira semana. Há de exemplo, o filme de abertura, ganhador do Leão de Prata em Veneza, “Nova Ordem” de Michel Franco (diretor que se debruça sobre a estética da violência, como no aclamado “Depois de Lúcia” de 2012). Além do nosso “Casa de Antiguidades” de João Paulo Miranda com Antônio Pitanga, forte candidato a representar o Brasil na categoria de filme internacional no Oscar 2021, especialmente após ter sido selecionado para Cannes este ano – que, mesmo não tendo acontecido na Croisette na época do pico da pandemia, ainda acumula muito prestígio em sua seleção para ajudar na carreira da obra.

Outro dos maiores destaques já pôde ser conferido por este correspondente para a Revista Fórum no início do ano no próprio Festival de Berlim (confira aqui), o ganhador da Berlinale 2020: “Não Há Mal Algum” de Mohammad Rasoulof. Cercado de polêmicas, como a prisão do diretor em sua terra natal, decerto a força política da vida real ajudou na visibilidade da reta final pelo Urso de Ouro. No entanto, a vitória não se deu sem mérito da própria trama, baseada em fatos reais, que se divide em 4 episódios em torno de famílias aparentemente comuns, e que irão passar por dilemas de vida ou morte na rigidez da violência opressora de um governo despótico no Irã – Sendo 2 destes episódios simplesmente brilhantes, o primeiro e o último. Mas é melhor nem falar muito sobre o tema para não estragar nenhuma surpresa, e sim apenas sobre o extracampo controverso…

Para começar, o diretor foi impedido por seu próprio país de comparecer à cerimônia, enfrentando censuras e processos similares aos de Jafar Panahi, cineasta conterrâneo de Mohammad. Assim, representado por seus produtores e sua filha Baran Rasoulof, também uma das protagonistas da obra, mesmo à distância por Skype acabou sendo pivô de um conflito em plena coletiva de imprensa, quando um jornalista iraniano refutou alguns fatos retratados na trama. Isso resultou não apenas numa chuva de indignação nas redes por parte do público acompanhando as lives do Festival, que começaram a enviar muitas provas de cada fato alegado na história narrada pelo diretor, como a repercussão da vitória do filme nas manchetes internacionais acabou levando Mohammad a ser preso por sua liberdade de expressão.

Outros destaques da Berlinale trazidos para a Mostra foram algumas joias raras de apreciação maturada, como “Siberia” de Abel Ferrara, com o gigante Willem Dafoe, com uma onírica montagem delirante que mistura presente e passado, realidade e pesadelo (confira aqui e entrevista aqui); “Days” de Tsai Ming-Liang, numa aula de cinema contemplativo e de amor livre, com a melhor cena LGBTQ do Festival (confira nas belas palavras do próprio diretor aqui); e o premiado documentário “Bem-Vindo à Chechênia” de David France sobre crimes homofóbicos, em denúncia bastante pesada (alerta de gatilhos). Além disso, filmes brasileiros já comentados nesta coluna também estarão na Mostra, como o horror histórico “Todos os Mortos” de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que concorreu igualmente ao Urso de Ouro (leia aqui) e recentemente em Gramado, e o lírico “Cidade Pássaro” de Matias Mariani, sobre imigração (aqui), ambos com distribuição garantida pela Vitrine Filmes.

Vale também destaque para coproduções internacionais com o Brasil e a Vitrine, como a revelação uruguaia “Chico Ventana Queria Ter Um Submarino” de Alex Piperno, premiado com o prêmio TAG Readers. Uma inusitada mistura de registro quase documental em três núcleos da trama de forma bastante naturalista, e que acaba transbordando suas histórias umas nas outras através de um artifício sci-fi: Um jovem rapaz num navio pela Patagônia descobre estranha passagem no convés que o transporta para o apartamento de uma jovem em plena metrópole urbana, assim como as ações de ambos repercutem numa cabana na floresta das Filipinas. A fugacidade fluida entre o espaço e tempo destes três núcleos começa a infiltrar a realidade de modo insuspeito, desde o som que invade lugares a que não pertencem até os elementos físicos como a água e o fogo, os quais se alastram de forma insólita como alerta de como o ecossistema está todo interligado.

Porém, nem tudo são flores. Existem produções advindas de Berlim que também podem decepcionar, como “Um Crime Comum” de Francisco Márquez, outra de nossas parcerias internacionais presentes na Mostra, desta vez com a Argentina. Um suspense psicológico entre quatro paredes que infelizmente não recompensa tanto quanto os outros filmes supracitados, ficando apenas na superfície do conflito de classes que almejava alcançar. Outrossim, o incensado “Fábulas Ruins” de Damiano e Fabio D’Innocenzo, ganhador de melhor roteiro em Berlim, tecla demais no humor naïf como contraste e negligencia o verdadeiro impacto que deveria desenvolver mais (leia aqui); e seu concorrente na Berlinale “Minha Irmã” de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond é só um drama comercial sem pretensão maior (leia aqui). Ou mesmo o risível filme tcheco “Cozinhar F*der Matar” de Mira Fornay, uma fusão equivocada entre a fantasia, violência e até coro grego para falar da opressão patriarcal na sociedade quase correndo o risco de culpabilizar as vítimas em seu péssimo timing pra tentar fazer humor na caricatura.

Vale ressaltar que alguns novos trabalhos de cineastas consagrados também dividem opiniões, como lúdico “Nadando até o mar ficar azul” de Jia Zhangke (diretor que assina o cartaz da Mostra este ano), documentário sobre sua própria família que pode ser visto como hermético para quem não for um fã cinéfilo (ampliando nosso conhecimento sobre o ídolo começado em “Jia Zhangke – Um Homem de Fenyang” de Walter Salles). Ou o romeno Cristi Puiu das obras-primas “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005) e “Sieranevada” (2016). Puiu volta com “Malmkrog”, uma narrativa exaustiva de mais de 3 horas calcadas em puro diálogo austero e sisudo sobre guerra, filosofia e religião numa mansão na Transilvânia do século XIX. Com mise-en-scène teatral e ascética, as discussões acaloradas mais parecem monólogos de tão extensos (quase sem contraplanos)… Valendo dizer que a estética da exaustão é intencional, e até gera uma grande catarse no meio do filme, uma vez que você descobre que os capítulos narrativos não estão dispostos necessariamente em ordem cronológica – mas o espectador é obrigado a aturar a proposta até o fim, sem nenhum alívio, para receber tal recompensa, numa via de mão única.

Outro filme até mais infame é “DAU.Natasha” dos russos Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel, porém oferecendo algumas recompensas talvez um pouco mais tentadoras para se pensar duas vezes antes de dar uma chance ou não. Parte de um projeto ambicioso e controverso por si só, desenvolvido ao longo de dez anos, envolveu em torno de 400 voluntários que aceitaram viver “quarentenados” numa simulação do padrão de vida soviético do período entre Lenin e Stalin, de modo a gerar centenas de horas de gravação com profissionais misturados a não-atores que gerou mais de um filme, todos começando com o nome “DAU”. De fato, um esforço dramatúrgico louvável que gera algumas forças espontâneas da natureza, como a fotografia de Jurgen Jurges (que ganhou melhor contribuição artística na Berlinale) e a atuação de Natalia Berezhnaya, a qual transcende todo tipo de tortura psicológica e física infligida a ela e nos outros, que ela começa a reproduzir. Porém, com tanto sadismo e movimentos cíclicos numa projeção que parece durar semanas, até a estética de looping esvazia a intenção da denúncia original e nos estagna no choque pelo choque… – sendo indicado apenas para os de estômago forte.

Mas existem igualmente outros exemplares que se equilibram no cabo de guerra de forças opositivas, ficando ao gosto do freguês. Há de exemplo a audácia de terem refilmado a obra-prima “Berlin Alexanderplatz” do saudoso mestre Fassbinder, agora numa pegada millennial pelo diretor alemão de origem afegã Burhan Qurbani (confira entrevista aqui), mas com a grata química da dupla de protagonistas Albrecht Schuch e Welket Bunguê (ator e diretor da Guiné-Bissau que possui trabalhos notáveis até com o Brasil, como “Corpo Elétrico” de Marcelo Caetano) – gerando alguns dos planos mais belos em capítulos irregulares, que vão bem até a metade, quando infelizmente desandam. E “Kubrick por Kubrick” de Grégory Monro, documentário de arquivo que não traz nada novo, mas serve aos mais saudosistas com áudios do próprio ídolo em vida narrando suas escolhas.

E há filmes melancólicos, porém extremamente belos, como o ousado “Mate-o e Deixe Esta Cidade” do polonês Mariusz Wilczynski, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Annecy, numa animação feita para adultos com algumas coisas que apenas são possíveis em desenho animado (vide uma cena pesada de necropsia e uma bela homenagem póstuma ao cineasta Andrzej Wajda, cuja voz é usada em uma das personagens desta cidade fantasma). Bem como o documentário “17 Quadras” de Davy Rothbart, filmando uma família por 20 anos com ajuda dos próprios membros, e perpassando perdas e decepções que simbolizam as agruras da própria sociedade norte-americana. Ou mesmo o poema visual “Lua Vermelha” de Lois Patiño, belamente fotografado, cuja história do naufrágio numa vila na costa da Galícia na Espanha, metaforizando a inércia das vidas pacatas através da magia oculta na rotina, dialoga bem com a transcendência quântica de “Evolution” de Lucile Hadzihalilovic (2015) e “O Barco” de Petrus Cariry (2018).

Por fim, sobre questões afirmativas, vale ressaltar a representação e representatividade feminina com força coletiva deste dolorosamente sensível “Mamãe, Mamãe, Mamãe” da argentina Sol Berruezo Pichon-Rivière, sobre uma devastadora perda em tenra idade em meio a uma família apenas composta por mulheres. Ou a biografia não ortodoxa da novelista Shirley Jackson em “Shirley” de Josephine Decker, com a deusa Elizabeth Moss recriando a realidade à beira do delírio criativo à la “Quem Tem Medo de Virgia Woolf” (1966), flertando com uma troca de casais não binária. Também “O Charlatão” da mestra polonesa renomada Agnieszka Holland (entrevista aqui), biografia de Jan Mikolásek, um fitoterapeuta tcheco perseguido pelo regime governamental por suas práticas alternativas e por sua sexualidade. Além da ficção-científica “O Problema de Nascer” da alemã Sandra Wollner (Prêmio Especial do Júri na Mostra Encontros na Berlinale), que vem sendo injustiçada por acusações infundadas similares às recentes feitas ao filme “Lindinhas” (leia aqui), mas cuja alegoria entre “Inteligência Artificial” (2001) e “Pretty Baby” (1978) na verdade denuncia o esvaziamento da infância e os usos de representações substitutivas da realidade no mundo virtual contemporâneo.

Confira a plataforma Mostra Play aqui, que irá liberar estes e ainda mais filmes entre 22 de outubro e 04 de novembro.

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema