quarta-feira, 30 set 2020
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Após caso de racismo, grupo Carrefour se nega a cumprir recomendações do Ministério Público do Trabalho

Mesmo multado em R$ 50 milhões, hipermercado não acha necessário contratar uma consultoria para orientar seus funcionários quanto às questões raciais

Depois de um recente caso de racismo ocorrido no Hipermercado Atacadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o estabelecimento recebeu a recomendação do Ministério Público do Trabalho (MPT-RJ) para recontratar a colaboradora que foi vítima de ofensas raciais e, ainda, contratar uma consultoria do Movimento Negro para orientar seus profissionais sobre como lidar com questões raciais no ambiente laboral.

No entanto, o estabelecimento, que pertence ao Grupo Carrefour, se recusou a cumprir as recomendações feitas pelo Ministério Público.

O caso, como reportou a Fórum, veio à tona na última segunda-feira (31). Na ocasião, a auxiliar de cozinha, Nataly Ventura Silva (31), disse que vinha sofrendo ofensas raciais de um colega de trabalho há algum tempo. O homem, identificado como Jeferson Emanuel Nascimento, costumava zombar de Nataly por ela ser negra e praticante do candomblé.

Como se não bastasse, no dia 28 de junho, Nataly foi surpreendida com a frase “só para branco usar” escrita à caneta em seu avental de trabalho. Ela levou o caso ao conhecimento de seus superiores.

Embora Jeferson tenha assumido a autoria da ofensa, a mulher acabou sendo demitida por justa causa, por ter “se envolvido em situações de conflito com outros funcionários”, segundo justificou o estabelecimento.

O Ministério Público autuou o hipermercado, cobrando uma indenização de R$ 50 milhões por danos morais coletivos.

A procurado do trabalho, Fernanda Diniz, disse que a empresa, por não ter tomado as medidas necessárias, foi omissa no caso de racismo e intolerância religiosa. Além do mais, o funcionário também não havia sido punido pelo estabelecimento quando se envolveu em outro caso de agressão, dessa vez física, contra uma outra funcionária.

Para a procuradora, a conivência da empresa estaria estimulando a má conduta do funcionário.

“A omissão da empresa ficou clara. A rigor, essa demissão de justa causa também foi errada, pois pela CLT [Consolidação das Leis do Trabalho], a justa causa tem que ser imediata. Não sendo, caracteriza perdão do funcionário”, explicou.

O Atacadão emitiu uma nota onde se justifica:

“O Atacadão atua a partir de políticas sérias de diversidade e repudia veementemente qualquer tipo de discriminação. Assim que tomou conhecimento do caso por meio do Ministério Público do Trabalho, abriu rigorosa sindicância para apurar o ocorrido, que resultou no desligamento do colaborador em questão.

A empresa reforça que, quando a denúncia do episódio mencionado foi realizada, a colaboradora já tinha sido desligada após avaliação de desempenho do período de experiência de 90 dias. O Atacadão conta com um canal exclusivo para denúncias, para que os funcionários possam reportar casos internamente de forma anônima.”

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.