segunda-feira, 21 set 2020
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Bruno Covas chama trabalho social do padre Julio Lancellotti de “incômodo necessário”

O padre que trabalha junto à população de rua vem sendo alvo de ofensas e ameaças, mas prefeito tucano disse que não há investigações contra servidores que possam estar atacando o religioso

Para o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), o trabalho social desempenhado pelo padre Julio Lancellotti é um “incômodo necessário”.

A declaração do tucano, que é candidato à reeleição, foi feita em entrevista ao jornal El País Brasil nesta quarta-feira (16). Segundo Covas, por vezes o trabalho do religioso é “um incômodo, mas um incômodo necessário para que a prefeitura não perca o foco”, se referindo às políticas sociais voltadas à população em situação de rua.

Recentemente, Lancellotti, que historicamente é alvo de ataques de grupos higienistas e elitistas por trabalhar junto à população mais vulnerável, principalmente na região da cracolândia, no centro da capital paulista, passou a ser alvo de novas ameças após investidas do deputado estadual bolsonarista Arthur do Val, conhecido como “Mamãe Falei”. Candidato à prefeitura, do Val se referiu a Lancellotti como “cafetão da miséria”, o que teria motivado os novos ataques.

Covas, na entrevista ao El País, chegou a defender o trabalho do padre, mas se limitou a dizer que a prefeitura “está à disposição” dele, informando que não há, por hora, investigações “para poder demitir ou retirar do serviço público qualquer pessoa que possa ter ameaçado ele”.

Segundo o prefeito tucano, se há alguém que poderia “reclamar” do religioso seria ele mesmo, já que recebe ligações do pároco todos os dias. “Mas nunca o padre Julio veio me solicitar que empregasse um primo, que contratasse empresa de um amigo, nunca veio pedir nada para ele, sempre veio solicitar para essa população que muitas vezes não voz”, ponderou.

Ameaças

O padre Julio Lancellotti denunciou nesta terça-feira (15) que estão crescendo as ameaças e ofensas contra ele, por seu trabalho com pessoas em situação de rua.

O religioso gravou um vídeo em que relata as ofensas e que diz estar em risco cada vez maior depois de ter sido atacado por “alguns candidatos à prefeitura”.

“Estava aqui na praça com os irmãos de rua. Passou uma moto por aqui e o cara falou: ‘Padre filho da puta que defende noia’”, começa ele no vídeo.

“Depois dos ataques de alguns candidatos à prefeitura contra mim, eu estou cada vez mais em risco”, continuou o religioso.

Lancellotti é pároco da igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca (zona leste) e vigário episcopal do Povo de Rua de São Paulo.  Seu trabalho é reconhecido por essa população, que tem nele muitas vezes a única voz a ser ouvida pelas autoridades. E isso incomoda a muitos.

Em seu vídeo, o religioso diz: “Quero deixar claro se me acontecer alguma coisa: se alguém me atingir, se eu for atingido por alguém vocês sabem de quem é a culpa, de quem cobrar”, afirmou, sinalizando a influência de Arthur do Val nos ataques.

Ivan Longo
Ivan Longo
Jornalista e repórter especial da Revista Fórum.