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29 de março de 2019, 08h19

Chanceler reafirma que “nazismo é de esquerda” e revolta especialistas alemães: “asneira e disparate”

Discípulo de Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo falou, pela primeira vez como ministro, da tese difundida nas redes sociais. Declaração causou revolta entre alemães que estudam o tema: "nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos"

Foto: Arthur Max/MRE

Discípulo de Olavo de Carvalho, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, tem entre suas obsessões a tese – considerada absurda e desonesta por especialistas – de que o “nazismo é de esquerda”. Defensor da ideia, propagada nas mídias sociais, desde antes de assumir o Itamaraty, o chanceler voltou a falar sobre o assunto em um canal de Youtube de seguidores do astrólogo e causou novamente revoltar entre alemães.

Segundo reportagem nesta quinta-feira (28) da emissora Deutsche Welle, agência de informação ligado ao governo da Alemanha, “a declaração, dada em longa entrevista a um canal simpático à extrema direita no Youtube, repete um discurso que esteve em alta nas mídias sociais brasileiras durante as eleições, mas que jamais foi levada a sério por acadêmicos na Alemanha”.

Na entrevista, questionado sobre a diferença entre o nacionalismo que defende e o pregado pelos regimes autoritários passados da Alemanha, Itália e Rússia, o ministro respondeu que o sentimento nacional teria sido distorcido por grupos que o utilizaram para chegar ao poder.

“Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, destacou Araújo, na entrevista divulgada em 17 de março pelo “Brasil Paralelo”.

Foi a primeira vez que Araújo, como ministro, classificou o nazismo como um suposto movimento de esquerda – ele já o fizera em um texto publicado em 2017 em seu blog.

O historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, deixa claro que os nazistas jamais seguiram políticas de esquerda. “Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirma.

Segundo Kansteiner, tanto o entrevistador quanto o ministro jogam com a palavra totalitarismo e, durante sua argumentação, Araújo tenta com ela traçar uma fronteira entre o nacionalismo, que seria algo bom, e o socialismo, que seria algo ruim. “Historicamente isso é um disparate”, ressalta o especialista, que também é autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã, em tradução livre).

“Quando um ministro do Exterior faz esse tipo de afirmação, considero altamente problemático diplomaticamente e um absurdo cientificamente”, afirma a historiadora Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim.

Segundo Schüler-Springorum, essa estratégia era uma posição clássica da extrema direita após a Segunda Guerra Mundial numa tentativa de proteger o “verdadeiro nacionalismo” e se distanciar do nazismo: “Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las”.

Doutrinação olavista
O debate sobre o nazismo como uma ideologia de esquerda foi levantado no Brasil a partir dos anos 2000 por Olavo de Carvalho. A visão rapidamente se espalhou por páginas de direita brasileiras, ganhando adesão também entre contas de viés liberal que adotaram posições conservadoras. Entre os adeptos está o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e atual presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara.

No país, os atuais defensores da visão “nazismo de esquerda” costumam se basear no nome oficial da agremiação nazista, chamada de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou NSDAP. A presença da palavra “socialista” revelaria a linha ideológica do regime. Historiadores internacionais de renome, porém, destacam que essa nomenclatura e a inclusão de políticas tidas como de esquerda no programa de governo apresentado antes das eleições de 1933 não passaram de uma estratégia eleitoral para atrair a classe trabalhadora.

“Na prática, isso não teve significado algum. O partido nazista se associou rapidamente e de maneira efetiva com as forças de direita da República de Weimar e, depois da tomada do poder, se juntou com as forças de direita da sociedade. Hitler nunca seguiu uma política socialista”, destaca Kansteiner.

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