domingo, 25 out 2020
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Bolsonaro volta a atribuir fogo no Pantanal e Amazônia a caboclo e indígena

Salles, do Meio Ambiente, diz que pecuarista do Mato Grosso está sendo perseguido e, por isso, acumulou mais material, o que, para ele, propagou o fogo

Em sua live semanal transmitida nesta quinta-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a atribuir a indígenas e caboclos parte do fogo no Pantanal e na Amazônia.

Ele discutia as queimadas nos dois biomas com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. “Em parte, não em todo, mas uma parte, tem uma cultura regional, é o índio que toca fogo no roçado, é o caboclo também, o pequeno produtor que toca fogo no roçado”, afirmou o capitão reformado.

A fala repete o argumento usado por ele no discurso feito na Organização das Nações Unidas (ONU) e que foi amplamente criticada por entidades ambientais. Estudos inclusive refutam a tese.

Pesquisa publicada em agosto deste ano na revista Science, feita pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostrou que 52% das queimadas de 2019 ocorreram em propriedades médias e grandes, onde também já foi registrado 67% do desmatamento de agosto do ano passado a julho deste ano.

Em nota divulgada nesta quinta-feira, o Ministério Público Federal (MPF) afirmou que “populações indígenas e ribeirinhas” contribuem muito para a manutenção e preservação de Amazônia, Cerrado e Pantanal. E escreveu que há evidências que apontam para a expansão da atividade agropecuária como a causa mais provável dos incêndios nesses biomas.

Pecuária ajuda, diz Salles

Mas não é o que pensa o ministro Ricardo Salles. Na live, ele disse que o pecuarista é um “colaborador” contra a propagação do fogo. “A pecuária ajuda a diminuir a matéria orgânica, o  gado come o pasto e não deixa acumular”, disse.

“E vem havendo naquela região, no Mato Grosso, uma perseguição muito grande aos pecuaristas”, afirmou, sem detalhar a que se referia. O governo de Mato Grosso informou que cinco perícias realizadas pelo Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman-MT) apontaram ação humana como causa da origem das queimadas na região, em cinco propriedades rurais.

“Resultado: diminui o gado, aumenta a quantidade de capim e de mato; quando pega fogo, é um volume gigantesco”, argumentou.

Salles vem defendendo que a propagação do incêndio no Pantanal, levando o bioma a bater recorde histórico de focos de incêndio, se deveu à falta de queima preventiva de restos orgânicos que se acumulam no bioma, como galhos, folhas etc. A teoria serve para minimizar a influência dos incêndios feitos em propriedades rurais. Ruralistas são apoiadores do governo.

Mas essa tese é refutada por especialistas na área. “Qualquer cientista sério acha essa hipótese risível”, disse à Fórum Thiago Junqueira Izzo, professor e coordenador da pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Fabíola Salani
Fabíola Salani
Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.