“Eu pauto a história de uma cidade invisível”, diz vereadora trans Lins Roballo

A parlamentar tem sido vítima de ataques de ódio por parte da extrema direita que possui ampla maioria na Câmara Municipal de São Borja

São Borja é cidade que fica na Fronteira-Oeste do Rio Grande do Sul e também é conhecida como a “terra dos presidentes”, pois é terra natal de Getúlio Vargas e João Goulart, e do governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola, ou seja, carrega na sua história biografias que transformaram a política brasileira.

Atualmente, a cidade vive um novo momento político que se deu a partir da hora em que os votos foram apurados e a candidata Lins Roballo foi, mulher negra, trans e oriunda dos movimentos sociais, foi eleita, sendo a única parlamentar a representar o Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara Municipal de São Borja, município que tem uma população de 60 mil habitantes.

Em entrevista exclusiva à Fórum, a parlamentar revela que a sua trajetória política vem da construção coletiva junto com os movimentos os sociais. “A minha trajetória de processos e de trabalhos é dentro dos movimentos sociais e populares. Há 14 anos eu participo de um movimento social que se chama Girassol – Amigos da diversidade, que é uma instituição que trabalha com as pautas LGBTQIA+, igualdade racial, direito à cidade, mulheres que sofrem algum tipo de violência. Então a gente pauta essas questões nessa perspectiva com a gestão pública, com a educação, com a comunidade.

Assim como tem ocorrido com mandatos trans em todo o Brasil, o trabalho de Lins Roballo na Câmara Municipal de São Borja está sendo atacado diariamente pela extremas direta que, representada pelo PP, partido do prefeito da cidade, tem se utilizado de todos os mecanismos possíveis para silenciar o mandato de Roballo. “Isso é o resultado de uma política de silenciamento que eles já têm e já vem agindo conosco desde que a gente entrou no espaço político. A gente não teve nenhum indicativo, requerimento ou qualquer outro documento interno aprovado. Sempre os vereadores da situação, do Progressistas, estão votando em bloco, derrubando nossos pedidos, e eles têm a maioria e nós somos uma minoria da oposição e eles claramente não aceitam haver uma mandata que trabalha exclusivamente com pautas minoritárias”, critica Lins Roballo.

O prefeito de São Borja é Eduardo Bonito, do PP, e que possui a maioria absoluta na Câmara Municipal da cidade. Na semana passada, a presidência da Câmara Municipal, sem embasamento algum, exonerou a chefe de gabinete do mandato de Lins Roballo. “Esse engodo que eles criam todas as vezes que eles vão para o plenário e atacam a mandata e a nossas produções é a resposta do próprio conservadorismo deles frente àquilo que eles acham estranho, diverso, esquisito e diferente. Eles não conseguem conceber uma mandata constituída por mulheres, trans, feministas q9ue atuam e defendemos pautas que são emergenciais”, critica Lins Roballo.

Fórum – Gostaria que você contasse pra gente sobre a sua trajetória política.

Lins Roballo – A minha trajetória de processos e de trabalhos é dentro dos movimentos sociais e populares. Há 14 anos eu participo de um movimento social que se chama Girassol – Amigos da diversidade, que é uma instituição que trabalha com as pautas LGBTQIA+, igualdade racial, direito à cidade, mulheres que sofrem algum tipo de violência. Então a gente pauta essas questões nessa perspectiva com a gestão pública, com a educação, com a comunidade. De um modo geral temos levados essas pautas e fortalecido essa ideia da participação dos movimentos populares dentro da sociedade e da produção cultural desses movimentos.

A questão política surge a partir dessa perspectiva: em 2016 nós pensávamos em uma participação política maior dentro do cenário de decisões político-partidárias, mas nós decidimos naquele momento efetivamente não participar para que a gente pudesse se formar e se qualificar. Então, a gente participou de muitas formações, a Rafa, que é a minha chefe de gabinete, pela Escola Latino-Americana de Política e pelo Vote LGBT. Neste período desses quatro anos a gente se formou e se qualificou nessas perspectivas.

No início de 2019 nós começamos um processo de formação continuada no movimento LGBT para decidir como seria constituída a nossa participação nesse processo. No decorrer do processo nós fomos formando uma ideia de coletivação. No início nós iríamos fazer um projeto de uma candidatura coletiva e decidimos não fazer esse projeto porque ainda não estávamos conseguindo visualizar uma certa capilaridade para esse tipo de candidatura. Então nós decidimos escolher uma pessoa que representasse essas pautas com mais participação social e resistência. Então digamos que chegamos no meu nome. Foi um processo coletivo.

Fórum – De acordo com a nota da Secretaria Nacional LGBT do PT hoje você está sofrendo uma perseguição por parte dos seus colegas da Câmara e, inclusive, a presidência da Casa exonerou a chefe de seu gabinete. O que está acontecendo na Câmara Municipal de São Borja.

Lins Roballo – Penso eu e conforme as situações que estão acontecendo, e elas não são de agora, elas só culminaram nessa semana com a reunião ordinária da Câmara de Vereadores com a exoneração da Rafaela e com a questão dos ataques… isso é o resultado de uma política de silenciamento que eles já têm e já vem agindo conosco desde que a gente entrou no espaço político. A gente não teve nenhum indicativo, requerimento ou qualquer outro documento interno aprovado. Os vereadores da situação, do Progressistas (PP), estão votando em bloco, derrubando nossos pedidos, e eles têm a maioria e nós somos uma minoria da oposição e eles claramente não aceitam haver uma mandata que trabalha exclusivamente com pautas minoritárias e as leva com tanta força e empenho para dentro da casa legislativa e discutir isso. Eles se sentem desacomodados e esse incômodo deles se reflete nessa questão dos ataques e da desaprovação das nossas proposições dentro da Casa Legislativa.

Fórum – Acredita que a ação desse bloco contra o seu mandato é movida pela transfobia e ódio contra as minorias (uso minoria no sentido da falta de representação legislativa)?

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Lins Roballo – Sim, a gente sabe que no legislativo nunca teve nenhuma minoria representada, não uma minoria representada que se expresse ou que se colocasse mesmo como minoria e se colocasse na defesa de outras minorias sociais. Eu entendo que esse engodo que eles criam todas as vezes que eles vão para o plenário e atacam a mandata e a nossas produções é a resposta do próprio conservadorismo deles frente àquilo que eles acham estranho, diverso, esquisito e diferente.

Eles não conseguem conceber uma mandata constituída por mulheres, trans, feministas que atuam e defendem pautas que são emergenciais, que são pautas de uma agenda política de inserção das minorias sociais dentro dos espaços políticos de existência da sociedade, de resistência dentro da malha e do contexto social, daí eles fazem essa retórica de tentar desqualificar os nossos processos políticos para que a gente se encontre fragilizada.

Fórum – Esse grupo tem ameaçado cassar o seu mandato?

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Lins Roballo – Abertamente eles não têm ameaçado de cassar o mandato, mas a gente já vislumbra essa possibilidade porque eles são uma maioria total de 15 vereadores, e eles têm metade dos votos mais 1, só do mesmo partido, que é o Progressista e mais dois partidos aliados, então eles têm 10 votos. É como se eles estivessem de férias aproveitando esses quatro anos, só- que eles não esperavam que dentro dessa pequena oposição teria uma Lins Roballo vinda dos movimentos sociais, articulada politicamente, que reflete criticamente o seu lugar no mundo, o seu lugar na sociedade, a importância de trazer e pautar a história de um país invisível, de uma cidade invisível, dentro do plenário, dentro do legislativo que os incomodasse tão fortemente.

Mas nós seguiremos firmes, fortes, conscientes da nossa representação política, conscientes da nossa força e conscientes daquilo que nós temos que fazer que é resistir e lutar por pessoas vulneráveis, que estão em situação de risco e que nos colocaram dentro desse espaço político para que a voz delas efetivamente tivesse uma representatividade e existissem.

Fórum – Nós temos acompanhado a história de outras vereadoras trans que também estão sendo perseguidas por grupos da extrema direita. Em São Paulo a co-vereadora Carolina Iara, do Mandato Feminista, foi ameaçada de morte, a também co-vereadora Samara Sosthenes do Mandato Quilombo, também ameaçada de morte; em Niterói a vereadora Benny Briolly teve que deixar o país por conta de ameaças. Como você analisa esse quadro?

Lins Roballo – Creio que esses casos, assim como o meu e outros que nós tivemos no nosso país já vem numa crescente desde a morte de Marielle Franco (vereadora carioca assassinada em 2018, no Rio de janeiro), que foi arquitetada por essa estrutura branca, patriarcal, machista, de homens na política que tomam decisões sobre esses corpos ditos minoritários, ditos marginalizados, que emergem da periferia, que estão nesse lugar de subserviência aonde apenas obedecem e não refletem criticamente sobre a sua quantidade frente a essa pequena minoria política no Brasil.

Esse último período eleitoral abriu as portas para que massas minoritárias que se encontram relegadas, lutando, fortalecidas, refletindo criticamente sobre esse espaço político, olhando esse espaço político e percebendo a necessidade de ocupar esses espaços políticos, pensaram a importância de impulsionar essas candidaturas. Só que ao mesmo tempo em que elas são impulsionadas e ocupam o espaço político, esse lugar tenta de toda forma extirpar aquilo que culturalmente não faz parte desse espaço. É como se houvesse um não lugar. Esse lugar, na cultura machista, banca e patriarcal desses políticos conservadores do Brasil, não pertence… esses mandatos negros efetivamente instruídos, efetivamente combativos, efetivamente que denunciam, não cabem nesse lugar onde esse existe essa política das benfeitorias, do assistencialismo, da parceria política, das costuras políticas perversas.

Então, todas as vezes que a gente percebe esse ataque, a gente percebe esses ataques como um desacômodo deles, como uma resposta àquilo que de alguma forma casa a eles uma repulsa, e eles querem nos tirar desse espaço. Por isso que eles nos atacam, nos violentam, nos violam, nos esmagam, tentam nos pressionar, nos desestabilizar para que a gente volte ao lugar de onde não deveríamos ter saído, que é o lugar que elege eles, que é o lugar que elege ele, o povo, e mantém eles no poder. As pessoas mais fragilizadas e vulneráveis: eles não querem que esses “fragilizados” e vulneráveis que elegem eles, eles não querem que essas pessoas estejam ao lado deles em tamanho igual. Então eles repulsam.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).

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