Idosa morre no AM após ser tratada com nebulização de hidroxicloroquina sem autorização

Filha descobriu depois que pediu o prontuário da mãe; polícia investiga outros casos semelhantes

A filha de uma idosa de 71 anos, que morreu por complicações da Covi-19, descobriu que a mãe foi tratada com nebulização de hidroxicloroquina em uma unidade de saúde de Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus, capital amazonense.

Depois de mais de um mês internada, a idosa chegou a ser transferida para atendimento em Manaus, onde foi tratada por três dias, mas não resistiu. A filha declarou que não houve autorização da família para tratar a sua mãe com hidroxicloroquina e que só descobriu que depois de pedir o prontuário médico. O caso foi denunciado para a polícia.

A Secretaria de Saúde do Amazonas informou que “não compactua com a prática de qualquer terapêutica experimental sem comprovação científica. Ao tomar conhecimento, a SES=AM encaminhou ofício ao município solicitando que abra processo administrativo para apurar o caso, tendo em vista que Itacoatiara tem gestão plena em saúde e irá acompanhar o processo”.

De acordo com informações do G1, a idosa deu entrada no Hospital Regional José Mendes, em Itacoatiara, no dia 6 de fevereiro. A filha disse que a mãe apresentou sintomas de Covid-19, mas que o estado de saúde dela não aparentava ser tão grave.

A família levou a idosa ao hospital, onde ela fez um exame de raio-x. E, de acordo com os parentes, foi a única vez que o hospital fez esse tipo de procedimento na paciente. Aos familiares, os médicos alegaram que a idosa tinha pneumonia e que a doença necessitava de cuidados no hospital e que isso levaria 15 dias. Mas, o processo como um todo levou um mês e 7 dias, quando a mulher morreu em Manaus.

A filha também relatou que teve dificuldade em transferir a mãe para um hospital particular em Manaus, que os médicos não autorizavam e alegavam que a paciente não aguentaria ser transferida.

“Eu só me atentei sobre a questão desse medicamento quando eu assisti a uma reportagem falando sobre o uso da hidroxicloroquina, a inalação e quais eram os sintomas que as pessoas sentiam, o que provocava isso. Eu me lembrei exatamente de como a minha mãe ficou no hospital. Eles faziam a inalação, mas apenas diziam que era inalação, não falavam com o que era feito a inalação. Falavam que ela tinha que fazer inalação com a máscara de bipap, que iria ajudar o pulmão dela, mas em nenhum momento foi nos informado com o que era feito essa inalação”, disse a filha ao G1.

O quadro da idosa se agravou ao longo do tratamento e, depois de ser transferida para o hospital Delphina Aziz, em Manaus, ela morreu depois de ficar três dias internada. O falecimento se deu no dia 13 de março.

Nebulização com hidroxicloroquina em Manaus

Esse não é o primeiro caso que acontece em Manaus. De acordo com a Secretaria de Saúde do Amazonas, pelo menos outras duas pacientes com Covid-19 foram submetidas a nebulização com hidroxicloroquina em uma maternidade em Manaus, em fevereiro, e uma delas morreu. A Polícia Civil investiga a denúncia de que pelo menos três mulheres grávidas morreram após a nebulização.

A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vinculada ao Ministério da Saúde, afirmou que considera o tratamento com cloroquina nebulizada em pacientes com Covid-19 em Manaus “um experimento clandestino e sem autorização legal”. Em nota, o órgão faz menção indireta às pesquisas com cobaias no nazismo.

Conselho de Medicina do Amazonas abre sindicância contra médica da nebulização com cloroquina

O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM) informou em nota enviada à Fórum nesta quinta-feira (15) que abriu um procedimento de sindicância para apurar o uso de nebulização com hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19 no Instituto da Mulher e Maternidade Dona Lindu, em Manaus.

O procedimento, que tramita em sigilo em respeito ao Código de Processo Ético-Profissional, foi aberto após vir à tona a notícia de que médica ginecologista Michelle Chechter estava aplicando a “técnica experimental”, que não tem eficácia comprovada contra a doença do coronavírus, e que uma paciente que tinha acabado de dar à luz teve piora em seu quadro de saúde e morreu após ser submetida ao tratamento.


Com informações do G1.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).