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25 de outubro de 2019, 08h50

Cientista canadense corrobora tese de geóloga que denunciou censura em divulgação de dados sobre tragédia do óleo no Nordeste

Ele criticou também o imobilismo e a resposta do governo: “para mim, é totalmente patética. É um segundo desastre. Primeiro o óleo, depois as respostas são um outro desastre. Eu não vi nenhuma evidência de um plano"

Foto: Divulgação

Assim como a geóloga Rosangela Buzanelli Torres revelou em artigo para a Fórum, publicado nesta quinta-feira (24), o especialista canadense em contenção de derramamentos de óleo, Gerald Graham, também não entende o mistério que envolve a origem do material que vem poluindo as praias do nordeste. Em entrevista à repórter Débora Brito, do Marco Zero, ele afirmou que “é muito estranho, até hoje tudo é muito estranho porque não se sabe de onde o óleo está vindo. É uma surpresa o óleo continuar chegando às praias. Parece que continua vindo da fonte original e ainda não se sabe de onde vem”.

Para ele, o mais chocante é o perigo a que voluntários estão se submetendo ao limpar as praias sem que o Governo Federal cumpra seu papel e assuma a retirada do óleo da costa. “Quando eu vi pela primeira vez essas notícias do vazamento, cerca de um mês atrás, eu falei com um jornalista e vi algumas imagens e pensei: ‘isso parece ruim!’”, lembra.

Graham é presidente da Worldocean Consulting, empresa especializada em planejar o uso de tecnologia no processo de limpeza em episódios de derramamento de óleo. Recentemente, deu uma série de entrevistas para apresentar softwares que permitem a visualização de cenários de derramamento de óleo, apontando os métodos mais rápidos e baratos de limpeza.

Para o cientista, “não há sinal de ninguém no comando, nem soldados. Eles não estão sequer devidamente equipados para a tarefa. Parece um caos completo para mim. As pessoas estão tentando ajudar limpando elas mesmas, mas elas não têm treinamento, nenhum equipamento adequado, nem estão tendo orientação das autoridades que deveriam ser responsáveis. A limpeza e a resposta a um vazamento de óleo como esse exige uma técnica específica, especialmente com o material grudento como o que tenho visto”, disse.

Ele criticou também o imobilismo e a resposta do governo: “para mim, é totalmente patética. É um segundo desastre. Primeiro o óleo, depois as respostas são um outro desastre. Eu não vi nenhuma evidência de um plano. E eu entendo as pessoas estarem tentando dar o seu melhor para limpar as praias, mas elas não deveriam estar fazendo isso. As pessoas vão acabar ficando doentes”, alertou.

Graham afirma que “as pessoas são afetadas pelo óleo, elas podem não sentir no começo, mas estão inalando. O óleo pode entrar pela pele, também pode ir para o cérebro. A questão é: se a autoridade federal não tem um plano de contingência do óleo não deveria deixar voluntários fazerem isso”. Ele diz também que “as autoridades regionais e locais, com as autoridades políticas, deveriam manter as pessoas afastadas da praia, evitando que elas sofram as consequências da exposição ao óleo”.

O cientista afirma que a única comparação que se pode fazer com o desastre no Nordeste brasileiro é com o caso do vazamento em Nakhodka, na Rússia. “Naquele vazamento, houve 1,2 milhão de voluntários, mais de 1 milhão envolvidos na limpeza. Houve uma forte resposta voluntária. Em casos como esses, com uma extensão grande de costa – eu não sei quantas pessoas estão envolvidas – não se compara nesse sentido, mas a questão é que o volume do óleo parece pequeno. Mas acho que é subestimado. Eu vi notícias que afirmam que 600 toneladas foram coletadas, eu ficaria bastante cético com essa contagem porque contando 200 comunidades, seriam apenas 3 toneladas por praia”.

Ele alerta que “o óleo, quando você recolher, vai estar misturado com areia. É relativamente um volume pequeno espalhado por uma área enorme. É incrivelmente não usual fazer essa comparação. Falando de um modo geral, parece uma quantidade pequena nas praias. Focos de óleo aqui e ali, então não parece um grande desafio limpar tudo. Não é como um massivo vazamento de óleo, como o que ocorreu no Alaska em 1989. Não deveria ser tão difícil de limpar”, conclui.

“Obviamente, você não consegue conter quando chega na costa, mas você consegue evitar que chegue na costa. Não vi evidência alguma de que isso foi feito. Normalmente, muitos países têm barreiras em pontos estratégicos da costa, caso algo aconteça. E no Brasil isso não aconteceu.

Uma vez que o óleo chega na costa, você precisa de pessoas treinadas – e não precisam ser profissionais, voluntários poderiam receber um treinamento básico da Marinha para saber como limpar. Poderia ser um curso de dois dias. E qualquer pessoa que não estiver limpando precisaria ficar afastada.

Você precisaria tirar as pessoas, pois é uma zona perigosa. Depois você forneceria o equipamento, técnicas e máquinas para coletar e retirar o óleo.

Esse seria o centro da operação, mas parece que ninguém sabe o que está fazendo e estão tentando ajudar, mas é uma operação extremamente amadora”, encerrou.

 


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