Excursões de bolsonaristas para atos golpistas têm até pacotes com hotel

Grupos que pregam invasão do STF e quebra da ordem democrática fretam ônibus em vários estados. Reportagem da Fórum descobriu que há destinos para todos os perfis e bolsos quando o assunto é lutar pelo golpe

Vários grupos intitulados “patriotas” e “conservadores” organizam excursões em diversos estados brasileiros para ir a Brasília e São Paulo no próximo 7 de setembro, Dia da Independência. A intenção é participar dos atos golpistas fomentados pelo presidente Jair Bolsonaro, que ganharam grande dimensão nos últimos dias após a difusão de um áudio do cantor sertanejo Sérgio Reis, no qual dizia planejar a invasão do Supremo Tribunal Federal (STF), e das notícias de que policiais militares, inclusive um coronel da PM paulista, estão incentivando insubordinação por parte de suas tropas.

Partindo da frente do Shopping da Bahia, no elegante bairro Caminho das Árvores, em Salvador, sairão três ônibus com destino à capital federal, de acordo com uma mulher que se identificou como Ângela. Um grupo intitulado Bahia Conservadora é quem organiza a caravana, que sai a R$ 375 para cada cidadão de bem motivado a incentivar Jair Bolsonaro em seus desígnios autoritários.

Já quem está em Niterói (RJ) pode optar por uma viagem mais curta. Destino? São Paulo, avenida Paulista. Um homem identificado como Ronald, que anuncia as vagas nas redes sociais, explica que já há dois ônibus confirmados, sendo que um deles ainda tem metade dos assentos disponíveis. O preço para levar os patriotas bolsonaristas à maior cidade do país e trazê-los de volta para casa é de R$ 188 e os veículos partirão na manhã do próprio Dia da Independência, da frente Câmara de Vereadores da cidade fluminense.

Para São Paulo sai também um contingente de bolsonaristas da Praia Grande, no litoral do estado. No entanto, o contato com os organizadores foi muito restrito. Eles exigem, via aplicativo de mensagens, a identificação e os dados daqueles que gostariam de reservar um lugar na empreitada golpista. O atendente limitou-se a dizer apenas que sairão alguns ônibus do balneário, assim como outros de São Vicente, cidade vizinha, mas impôs como condições para dar sequência à conversa a identificação imediata do interessado.

Conforto é tudo, até no golpe

Para quem é da cidade gaúcha de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina, há uma oportunidade e tanto para tornar inesquecível o dia em que alguns brasileiros tentarão romper com a ordem institucional por meio da invasão da sede de um dos poderes da República.

Saindo do Parcão (forma carinhosa de chamar o Parque Dom Pedro II), e recolhendo patriotas infiéis à democracia pelas cidades de Itaqui e São Borja, nos arredores, um ônibus parte na manhã de 5 de setembro rumo a Brasília. Os participantes da excursão golpista terão direito até a hospedagem num hotel na cidade projetada pelo comunista Oscar Niemeyer.

O organizador da viagem, que se identificou como Sérgio, explica que, por ser um trajeto longo, é necessário que o veículo seja de boa qualidade e que os cidadãos de bem fiquem bem instalados na capital federal, para que estejam bem dispostos no dia do ato de sublevação encabeçado pelo seu líder político. Ainda segundo Sérgio, o valor total por pessoa fica em R$ 620, mas ele ressalta que o preço vale pelo conforto proporcionado aos brasileiros que pretendem rasgar a Constituição Federal.

No município catarinense de Chapecó, no oeste do estado, terra que foi usada por Bolsonaro com “símbolo da eficiência do tratamento precoce”, ainda que isso não tenha qualquer resquício de evidência científica, uma excursão semelhante também garante um bom quarto e uma tranquila noite de sono aos conservadores que ameaçam vandalizar a democracia brasileira. Diferentemente do organizador da caravana em Uruguaiana, o homem que atendeu à ligação da Fórum em Santa Catarina não quis dar detalhes sobre quantos ônibus sairiam do local, nem o preço da viagem. Na verdade, o patriota apenas confirmou o direito que os participantes têm ao hotel e depois afirmou que mais informações só seriam passadas por meio de WhatsApp e com o envio de dados de identificação do interessado.

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