Governo Bolsonaro faz aceno a grupos antivacina: “Impor obrigações não está nos planos”

Governo deixa claro que ninguém será obrigado a tomar a futura vacina contra a Covid-19, para a alegria dos conspiracionistas; ex-ministro da Saúde avalia que orçamento proposto para 2021 pode não garantir vacina para todos

Nesta segunda-feira (31), em conversa com uma apoiadora, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não pode obrigar as pessoas a tomarem a futura vacina contra a Covid-19. A declaração soa estranha para o presidente de um dos países que mais vem perdendo vidas para a pandemia.

Nesta terça-feira (1), como se não bastasse a fala do capitão da reserva, a Secretaria Especial de Comunicação (Secom) do governo usou suas páginas oficiais nas redes sociais para reforçar o recado, em um aceno a grupos conspiracionistas antivacina que crescem no Brasil e no mundo.

“O Governo do Brasil investiu bilhões de reais para salvar vidas e preservar empregos. Estabeleceu parceria e investirá na produção de vacina. Recursos para estados e municípios, saúde, economia, TUDO será feito, mas impor obrigações definitivamente não está nos planos”, diz a postagem da Secom, que é acompanhada de uma imagem que reproduz a fala de Bolsonaro de segunda-feira.

O recado sobre a “não obrigatoriedade” da futura vacina contra a Covid-19 gerou uma série de críticas nas redes sociais.

“O problema é que vacina alguma tem 100% de eficácia e o controle de qualquer doença depende de uma boa adesão à vacinação. Algumas pessoas tomarão a vacina e não desenvolverão a imunidade, outras não poderão tomar por conta de problemas imunológicos, não é justo com elas”, comentou um internauta.

“Engraçado… Pensei que a função de uma secretaria de comunicação do governo fosse fazer campanha de vacinação (qualquer uma), não amplificar bobagens do presidente…”, postou outro.

“A obrigatoriedade da vacina ajuda no redimensionamento da Saúde para que otimize as ações, infraestrutura e força de trabalho graças às ações preventivas. Tornar opcionais campanhas de vacinas pode provocar uma ineficácia na saúde e na própria campanha”, escreveu ainda um usuário do Twitter.

lei nº 6.259, do Programa Nacional de Imunizações, prevê que o Ministério da Saúde pode instituir campanhas de vacinação obrigatória, no entanto, as campanhas geralmente são voltadas para crianças e adolescentes e não obrigam adultos a se vacinarem.

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À Fórum, o deputado federal e ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT-SP), criticou o não incentivo de Bolsonaro à vacinação e também citou a proposta do governo de orçamento para 2021, que prevê retirar R$35 bilhões da área da Saúde. Para o petista, independente de incentivo ou não à vacina, a falta de recursos pode comprometer a imunização da população.

“Que Bolsonaro é contra vacina nós já sabemos, não a toa, o programa nacional de vacinação vem sendo desmontado no seu governo, o sarampo voltou em mas de 20 estados, retirou cerca de 800 milhões do programa no orçamento de 2020 e agora quer retirar 35 bilhões da Saúde, interrompendo qualquer possibilidade de expandir a vacinação pública ou desenvolver a vacina para a Covid. Já viram Bolsonaro e seus ministros fazerem pronunciamentos a Nação para pedir para os pais levarem suas crianças para vacinar? Nunca”, pontuou Padilha.

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Atualmente, duas vacinas no Brasil estão em fases mais avançadas de testes: uma que será produzida em uma parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a empresa biofarmacêutica global AstraZeneca e a Universidade de Oxford, e outra produzida em uma parceria entre o Instituto Butantan, de São Paulo, e uma farmacêutica chinesa.

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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