No rastro do óleo do Nordeste
15 de outubro de 2019, 23h47

“Triste discutir retrocesso no Dia dos Professores”, diz Reginaldo Lopes sobre Escola sem Partido em BH

Na opinião do deputado mineiro, o nome do projeto pode confundir, mas prega uma escola “com partido”, com pensamento único, que não respeita diversidades

Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Após muita polêmica e 13 sessões, a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (MG) aprovou, nesta segunda-feira (14), em primeiro turno, o projeto Escola sem Partido. O deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), que é mineiro, lamenta que no Dia dos Professores a pauta seja um retrocesso em relação à educação, e não avanço. “O Brasil foi formado a partir do sincretismo e não pode tolerar uma nova ‘colonização’, ou seja, a imposição de um pensamento único que está a serviço das desigualdades”, reflete.

Confira a íntegra da entrevista.

Fórum – Como observa mais esse ataque à educação, à cidadania e aos professores?  

Reginaldo Lopes – É muito triste que no Dia dos Professores estejamos discutindo um retrocesso e não um avanço para essa profissão tão importante, que forma todas as outras e que nos prepara para a vida. A votação do primeiro turno do Escola sem Partido não contou com a presença da população, que foi impedida de entrar no local. O nome do projeto pode confundir, mas é justamente uma escola “com partido” que planejam impor; uma escola com pensamento único, que não respeita a diversidade de pensamento, como a diversidade religiosa, por exemplo. O Brasil foi formado a partir do sincretismo e não pode tolerar uma nova “colonização”, ou seja, a imposição de um pensamento único que está a serviço das desigualdades. Defendo uma educação plural, inclusiva e emancipadora, como deve ser.

Fórum – Justamente no Dia dos Professores, o que dizer a eles diante desse quadro de retrocessos na educação?

Reginaldo Lopes – A verdade. O bolsonarismo elegeu como inimigo justamente o pensamento crítico brasileiro e quem forma esse pensamento são os professores. O governo é de fanáticos, que questiona a ciência e a democracia. Mas também é verdade que as maiores manifestações contrárias a esse governo foram em defesa da educação. A sociedade sabe que os professores e professoras não são culpados pelos problemas da educação no Brasil, como o presidente da República tenta fazer parecer. Deixaria uma mensagem de esperança e de resistência. Nunca precisamos tanto dos professores e professoras, formadores do tão necessário pensamento crítico.

Fórum – Na lista de deveres do professor no projeto Escola sem Partido constam orientações que o impedem de discutir e debater temas, como política, ideologia, questões de gênero ou religião. O que representa isso para a conduta do professor em sala de aula?

Reginaldo Lopes – Cabe aos professores e professoras fazer seu trabalho, o que eu acho que eles fazem bem, a despeito, muitas vezes, da falta de reajuste e de condições mínimas de trabalho. O problema da educação no Brasil não é pela atuação dos educadores e educadoras, e sim pela falta de valorização da profissão, pela falta de investimentos públicos – congelados pela política do teto dos “gastos”, e pela falta de crença na importância da ampliação das vagas nos institutos e universidades federais, por exemplo.

Como está a questão do Escola em Partido em âmbito federal e como evitar mais retrocessos na educação?

Reginaldo Lopes – O projeto foi desarquivado este ano na Câmara dos Deputados e pode voltar a tramitar por meio de uma Comissão Especial. Para evitar esse e demais retrocessos é preciso mobilizar a sociedade, sair da zona de conforto e ir para a luta. A educação brasileira é cara demais para deixarmos ser destruída. Não toleraremos a perseguição a educadoras, educadores e à liberdade de cátedra.


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