Sob o solo em “Maligno” – Por Cesar Castanha

Obra é um horror amplamente influenciado pela tradição do giallo (subgênero italiano do terror)

Na tese “Lembranças de um passado imaginado”, o pesquisador Rodrigo Almeida Ferreira descreve as maneiras como ficções midiáticas participam na produção de sensibilidades históricas. Um dos exemplos que Rodrigo usa é o da série Arquivo morto (criada por Meredith Stiehm, 2003-2010), em que a detetive Lilly Rush (Kathryn Morris) fica responsável por recuperar casos não resolvidos do arquivo policial ficcional da Filadélfia e investigá-los, trazendo-os a uma tardia resolução. Essa série, do gênero de “caso do dia”, é permeada por flashbacks que procuram mimetizar alguns estereótipos midiáticos sobre cada período – como o uso do preto e branco e de uma estética noir para a década de 1930 e 1940 e demais escolhas nesse sentido. Rodrigo se interessa por como a série sugere reiteradamente que cada período histórico tem uma maneira de se apresentar esteticamente, um padrão de cores, texturas, luminosidade, enquadramentos, etc. Ao ver Maligno (dir. James Wan, 2021), Arquivo morto reapareceu para mim de outra maneira: nos cenários escuros e empoeirados dos arquivos policiais, médicos e legais e nos objetos recuperados nesses arquivos, como fitas VHS e grossas pastas de documentos, com prontuários médicos, fichas policiais e registros diversos de um passado a ser revelado.

Essas cenas investigativas não são necessariamente centrais para Maligno, como sem dúvida são para Arquivo morto. Madison (Annabelle Wallis), personagem central do filme, não é uma detetive envolvida em um ciclo contínuo de casos do dia, mas uma mulher que, após sofrer violência doméstica, começa a visualizar crimes cometidos por um serial killer não identificado enquanto esses crimes ocorrem. Maligno é um horror amplamente influenciado pela tradição do giallo (subgênero italiano do terror). O elemento da investigação, pela maneira como é utilizado, está mais relacionado a isso, no que os giallos geralmente sustentam uma trama de dúvida e mistério em relação à natureza e identidade de seus assassinos.

Há também aproximações visuais ao giallo. Algumas cenas são coloridas a partir de uma iluminação predominante e, o que é mais importante, os crimes tendem a ser testemunhados ou filmados como se fossem testemunhados (por Madison, em suas visões). James Wan é atento a esses detalhes cênicos em sua homenagem ao gênero, mas não se trata do mesmo tipo de imitação dos flashbacks de Arquivo morto, pois Wan não está interessado em informar um período específico do passado histórico a partir de uma linguagem audiovisual. A relação deste filme com uma ideia de História se dá de outro modo, muito mais interessante.

A elaboração desse problema histórico do filme ocorre nos desenvolvimentos paralelos de um mesmo conceito, o de que a história é enterrada, ocultada sob uma outra superfície para ser eliminada, retirada de vista. Maligno alude a essa ideia inicialmente em um exercício metafórico, no que somos apresentados a um bairro subterrâneo de Seattle, cidade onde a narrativa se passa. Uma cidade, somos informados, foi construída por cima da outra por necessidades geográficas. Esse lugar anterior pode ainda ser visitado por turistas, como um amplo porão compartilhado por toda a população contemporânea de Seattle. Essa informação nos serve para identificarmos o problema sofrido pela protagonista de maneira semelhante. O seu passado, o filme indica, foi enterrado em seu corpo, como um processo equivalente ao de construir um lugar sobre o outro ou, nesse caso, uma identidade sobre a outra.

No processo de tentar compreender como esse passado enterrado irrompe através do pavimento que o deixa oculto, Maligno entrega construções coreográficas e cenográficas criativas, buscando maneiras de traduzir esteticamente esses processos de ruptura do que esteve uma vez submerso para se tornar visível. Cenários se desmancham diante de nossa vista para dar lugar a outros, e corpos se reconfiguram ao transitar de sua identidade superficial àquela antes oculta. As transições entre espaços e entre posturas e ações corporais são inquietantes e ajudam a criar uma sensação duradoura de horror. Quando os porões do arquivo aparecem, empoeirados e escuros, subterrâneos, Maligno parece ter algo especial a dizer sobre esses espaços, tão comuns a esse tipo de narrativa de mistério. Se Arquivo morto tratava o que era informado por esses lugares como uma aparição reveladora, pronta para resolver todos os segredos de um passado por tanto tempo mantido no escuro, Maligno sustenta sobre esse imaginário sua própria perspectiva, a de que o que uma vez se guarda sob as superfícies não volta a ser plenamente iluminado. Lugares, existências e arquivos soterrados precisam negociar suas aparições de outro modo, na permanência dos interiores e nas estranhas movimentações no escuro.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Cesar Castanha

Do encanto com os créditos de abertura de "Alice no País das Maravilhas", visto religiosamente sempre que exibido nas tardes de sábado pelo SBT, veio a paixão pelo cinema como experiência estética, transformadora e expressão de uma ideia, uma história ou do próprio experimento. Por amar o cinema para além dos padrões de qualidade impostos a ele pela mídia, por outras instituições e até por uma crítica datada, veio o meu amor por conversar sobre cinema, aderi-lo, defendê-lo, apropriar-me dele. O Milos Morpha é uma conversa sobre cinema. Aqui, o texto nunca é certo e definitivo. O cinema não é uma fórmula para que cada cineasta se aproxime da solução mais correta, é um conjunto de experiências artísticas que já dura mais de 100 anos, é dessa forma que criticamente percebemos e experimentamos o cinema no Milos Morpha.

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