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13 de fevereiro de 2020, 15h02

Na era da milícia virtual fascista, por que jornalistas não se unem como fazem os petroleiros?

Sem recuperar a função social do jornalismo e continuar aceitando o jornalismo negócio interferindo em suas pautas, abraçando o neoliberalismo entreguista, os jornalistas, inclusive os sérios, continuarão sendo alvos do fascismo

Petroleiro em greve (Divulgação)

Há 13 dias os petroleiros estão em greve nacional, 108 unidades paralisadas em 13 estados. A greve iniciou em solidariedade aos petroleiros da FAFEN-PR ameaçados de demissão em massa, com o fechamento da única fábrica do país que produz ureia sem formol como suplemento alimentar do gado bovino. O blog Sindicato Popular, ao contrário de grande parte da imprensa corporativa brasileira, vem cobrindo o dia a dia da greve.

Na última terça (12/02) os petroleiros fizeram um protesto na frente da Globo contra a falta de cobertura da imprensa ao movimento. Há nas emissoras de radiodifusão um verdadeiros silenciamento sobre a Greve Nacional dos petroleiros.

Ontem também foi dia da liberdade de expressão e o Brasil vem sofrendo retrocessos neste direito tão importante garantido em nossa Constituição.

A liberdade de imprensa também está sendo severamente atacada. Tudo que colunistas e editoriais de O Globo, Estadão, Folha, Veja e outras empresas de comunicação acusaram os governos petistas injustamente de fazer estão sentindo na pele com Bolsonaro.

Reinaldo Azevedo, em 2013, chegou a escrever um texto cujo título era 50 tons de fascismo afirmando que Lula e outros petistas atacavam a imprensa. No ano passado, “tio Rei” participou do Ato em Defesa da Liberdade de Imprensa, do Jornalismo e da Democracia organizado pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), pela FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas), ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e Instituto Vladimir Herzog. Em sua fala Reinaldo ironizou trechos vazados pelo Intercept dos diálogos dos procuradores da Lava-jato e reafirmou: “Não há provas contra Lula”.

Lembremos que foi Reinaldo de Azevedo que cunhou o termo pejorativo contra o PT: “petralha”. O mundo dá voltas, nada como experimentar na prática um regime fascista e neoliberal para aprender.

Em 2019, Bolsonaro sozinho foi responsável por 121 casos de agressão contra a imprensa
O caso recente da jornalista Patrícia Mello, responsável pela matéria que denunciava o esquema de fake News pelo whatsapp na campanha eleitoral de Bolsonaro para presidente,  mostra-nos que a falange bolsonarista com sua milícia digital é capaz, inclusive, de mentir no Congresso Nacional em depoimento dado em uma CPMI.

A misoginia, o sexismo o machismo atacam as jornalistas em especial utilizando sua condição de gênero: Miriam Leitão, Vera Magalhães, Marina Dias, Talita Fernandes já foram alvos de Bolsonaro e de sua falange. Nas redes são desqualificadas como “feias”, “barangas”, “putas”, “mentirosas”.

Quando o jornalista é homem, Bolsonaro põe em dúvida sua sexualidade: “Você tem cara de homossexual” como se ser homossexual fosse algo ruim.

O relatório da violência contra jornalistas de 2019 produzido pela FENAJ traz dados assustadores: a eleição de Bolsonaro produziu um aumento de 54,07% nos casos de ataques a jornalistas e aos veículos de comunicação. Só Bolsonaro foi responsável, em 2019, por 121 casos de agressão: foram 114 ofensivas genéricas e generalizadas, além de sete casos de agressões diretas a jornalistas.

Ou seja, se o principal mandatário do país assedia moralmente os profissionais do jornalismo, todo fascista se sente à vontade para fazer imagens grotescas, geralmente de cunho pornográfico com seus alvos preferenciais: as mulheres. O objetivo é um só: desacreditar o trabalho jornalístico. As consequências são nefastas, se institucionaliza a violência, às vezes física, inclusive.

Só em 2019, ainda de acordo com dados do Relatório, houve dois assassinatos, 28 casos de ameaças/intimidações, 20 agressões verbais, 15 agressões físicas, dez casos de censura e outros de impedimentos ao exercício profissional; cinco ocorrências de cerceamento à liberdade de imprensa por ações judiciais, dois casos de injúria racial e outros dois de violência contra a organização sindical da categoria dos jornalistas.

De acordo com o levantamento da FENAJ a maioria dos ataques de Bolsonaro foi feita em divulgações sociais da Presidência da República (discursos e entrevistas do presidente, transcritos no site do Palácio do Planalto) ou no Twitter oficial de Bolsonaro. Foram 116 casos, já denunciados pela FENAJ em divulgação específica. A esses, somaram-se outros cinco casos de agressões feitas em entrevistas/conversas com jornalistas que não foram reproduzidas no site do Palácio do Planalto.

Bolsonaro também utiliza o poder do seu cargo para tomar medidas que visam enfraquecer financeiramente as empresas de comunicação não alinhadas a seu governo e a organização dos trabalhadores jornalistas. Entre as ações, está a Medida Provisória 905/2019, que prejudica a classe trabalhadora com um todo com o contrato Verde Amarelo e precariza ainda mais a profissão da categoria.

Diante de tantos ataques, por que os jornalistas não se unem como os petroleiros?
Há muitas hipóteses para essa questão, mas um fato a meu ver reside na baixa sindicalização desta categoria se comparada, por exemplo, a dos petroleiros.

Só em São Paulo, que concentra a parcela mais significativa da categoria, segundo dados da PNAD existem 40 mil jornalistas. No entanto, apenas 13 mil tem registro em carteira e cerca de 4 mil são sindicalizados. Ou seja, 10% de sindicalização, muito abaixo da média nacional dos trabalhadores urbanos.

As taxas de sindicalização no Brasil desde o golpe 2016 vem caindo, só no ano passado, 1,5 milhões de trabalhadores deixaram de ser sindicalizados.

A categoria dos petroleiros reflete um quadro mais promissor. Dos cerca de 27 mil petroleiros, base da FUP, mais de 16 mil são sindicalizados, ou seja 63% da categoria é sindicalizada. Em alguns estados há massiva filiação, como em Caxias, Rio de Janeiro, onde 85% dos petroleiros são sindicalizados e no Norte Fluminense, dos 9.853 petroleiros 7.664 são sindicalizados (78%).

Os petroleiros nunca fazem greve corporativista. É uma categoria bastante politizada e que tem profundo conhecimento sobre política econômica, soberania nacional e a estratégica cadeia do petróleo no mundo. As reivindicações de suas greves são sempre bastante amplas em defesa da soberania nacional.

Os jornalistas dos grandes jornalões, tvs e rádios adotam a linha da redação da empresa. É muito raro vermos dissonância entre suas matérias e a opinião do patrão e, quando existe, ou porque foi permitida e, caso contrário, é punida, geralmente com demissões.

A liberdade de imprensa e de expressão quando existem estão nos seus blogs pessoais e alguns precisam ter muita coragem para exercê-las.

Como combater o fascismo, o sequestro do estado por milicianos, olavistas, pela prática clientelista, pelo nepotismo que contamina vários ministérios se a linha editorial dos grandes jornalões, revistas, tevês, rádios e portais da imprensa corporativa coadunam com a política neoliberal de Paulo Guedes?

Assistir às manifestações de um Datena na Record em solidariedade à Patricia Mello  pode animar alguns. Mas se prestarem atenção em seu discurso, em nenhum momento ele contextualizou para seus telespectadores que a repórter investigou o disparo de fake News na campanha de Bolsonaro e que o agressor, que Datena diz que tem de ir para cadeia, faz parte disso. A Record virou uma sucursal do governo Bolsonaro.

Já presenciei esse grau de obediência irrestrita ao patrão até mesmo com profissionais da TV pública. Nunca vou me esquecer em 12 de maio de 2016, quando Dilma foi afastada e o julgamento do impeachment nem havia sido completado a sabujice de alguns profissionais no Anexo IV. Alguns se referiam a cada um dos golpistas que chegava para compor o governo ilegítimo de Temer como “ministro fulano, ministro sicrano”.

Em 2014, ao sair do palácio do Planalto com outros blogueiros, após uma entrevista com a presidenta Dilma, ouvimos de uma jornalista da Globo: “Vem gente, agora é o PIG” e depois riu copiosamente. O blogueiro Eduardo Guimarães tentou explicar que utilizávamos esse termo – Partido da Imprensa Golpista-, imortalizado pelo saudoso Paulo Henrique, para criticar os patrões e não os jornalistas. Mas ela, sem cerimônia, coadunava com a linha editorial da Globo.

Até hoje muitos jornalistas após os vazamentos do Intercept continuam sendo correia de transmissão da lava-jato.

Sem recuperar a função social do jornalismo e continuar aceitando o jornalismo negócio interferindo em suas pautas, abraçando o neoliberalismo entreguista, os jornalistas, inclusive os sérios, continuarão sendo alvos do fascismo.

Que a categoria se inspire nos valentes e politizados petroleiros que têm projeto de soberania nacional e passe a valorizar pautas de verdadeiro interesse da população.


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