Metade dos Millennials e da geração Z pensa em abandonar o Brasil

Atlas das Juventudes e de novos estudos da FGV Social mostram o aumento de desigualdade entre os jovens e o crescimento da desesperança neste grupo de 50 milhões de brasileiros.

Chamamos de geração Millennials as pessoas nascidas no início dos anos 1980 até meados dos anos 1990 e de geração Z, aquelas nascidas de meados dos anos 1990 até 2009. Essas duas gerações estão no recorte da juventude entre 15 e 29 anos. No Brasil atual, essa faixa etária corresponde a quase 25% da população brasileira.

Duas matérias publicadas hoje na Folha nos mostram que não há saídas no capitalismo predatório, ultraneoliberal e distópico em que vivemos, especialmente para a juventude. A primeira notícia mostra-nos a cor da desigualdade no Brasil e ressalta como nos estados mais ricos do país a desigualdade é ainda maior: o nível de desigualdade em São Paulo e o dobro do estado do Amapá, quando comparamos o acesso à riqueza entre brancos e negros. A segunda, diz respeito à perspectiva dos jovens brasileiros diante do futuro: metade dos jovens de 15 a 29 anos estão desesperançados com o Brasil e desejam ir embora do país.

Bônus demográfico e sentimento de abandono

Bônus demográfico é para os economistas uma janela de oportunidade. Esse é o intervalo onde a população dependente (menores de 15 anos e maiores de 65 anos) diminui e a maioria da população está em idade de trabalhar.

Exatamente quando o Brasil tem a maioria de sua população em idade economicamente ativa, o país atravessa uma de suas piores crises políticas, econômica, ambiental, social e sanitária. Saímos da posição de 6ª economia do mundo durante os governos Lula e Dilma, para a 12ª posição, no governo Bolsonaro. O Brasil tem cerca de 30% de sua população entre desempregados e desalentados (aqueles que já desistiram de procurar trabalho, porque o mercado está deprimido). Ou seja, já passamos do estado de recessão e chegamos ao de depressão econômica, no qual o país perde a capacidade de se recuperar economicamente, porque a sua capacidade produtiva também diminuiu (o fechamento de inúmeras indústrias, por exemplo).

Esse quadro de absoluto retrocesso somado à condução deliberada de Bolsonaro de ampliar o contágio da Covid, para alcançar, sem vacinas, a “imunidade de rebanho”, já levou à morte mais de meio milhão de brasileiros em 15 meses de pandemia.

É este cenário distópico, sem saídas que leva os jovens ao desânimo e desalento. Metade deles se pudessem deixariam o Brasil para procurar numa nação estrangeira uma perspectiva de futuro que aqui lhes é negada.

Se não conseguirmos reverter este quadro, literalmente, desperdiçaremos o futuro, pois estaremos desperdiçando o potencial da força de trabalho para crescimento produtivo no país.

O menor PIB de esperança

Em todos os cenários das pesquisas qualitativas e quantitativas a geração dos Millennials e a geração Z reflete desesperança.

A pandemia ampliou os “nem nem” (jovens que nem estudam e nem trabalham). Hoje eles somam 27,1% dos mais de 50 milhões de jovens da população brasileira. É o maior índice na história, numa faixa etária onde o estudo é prioritário. E mesmo neste grupo a desigualdade tem cor, gênero e pertencimento territorial: 32% estão no Nordeste, 31,3% são do sexo feminino e 29,1% são pretos.

Setenta por cento dos jovens têm dificuldades de encontrar emprego. A pandemia elevou a taxa de desocupação de jovens na faixa de 15 a 29 anos para 56,3%. Mais da metade da juventude brasileira enxerga o Brasil como um país pobre.

Os jovens brasileiros entre outros jovens latino-americanos são o que menos acreditam que irão progredir na vida ao trabalhar: entre os jovens bolivianos 91% acreditam que irão melhorar de vida com o trabalho, esse índice no Brasil cai para 70%.

Esse e outros dados constam do recém-lançado Atlas das Juventudes e de novos estudos da FGV Social. Eles incluem o histórico de pesquisas quantitativas do IBGE (como PnadC e Pnad Covid-19), no Brasil, e números da World Gallup Poll e das Nações Unidas, contemplando vários países, além de levantamentos qualitativos com aproximadamente 2.600 jovens brasileiros.

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