Bolsonaro usa spray de Israel para encobrir desastre na negociação de vacinas

Escassez de doses devido à falta de planejamento força cidades pelo país a interromperem campanha de imunização; governo recusou proposta da Pfizer para comprar 70 milhões de doses

Para encobrir a enorme falha de seu governo na negociação e planejamento da campanha de vacinação contra a Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) elevou a aposta em um spray desenvolvido em Israel para tratar a doença. Enquanto ele propaga o medicamento, a campanha precisará ser interrompida em cidades pelo país por causa da escassez de doses.

Logo na manhã desta segunda-feira (15), Bolsonaro postou em suas redes sociais: “EXO-CD24 é um spray nasal desenvolvido pelo Centro Médico Ichilov de Israel, com eficácia próxima de 100% (29/30), em casos graves, contra a Covid. Brevemente será enviado à ANVISA o pedido de análise para uso emergencial do medicamento.”

Mais tarde, seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fez uma publicação dando a entender que as tratativas estão avançadas. “A partir do diálogo do PR Jair Bolsonaro com o PM Netanyahu e meu c/ o chanceler Gabi Ashkenazi, já orientei nossa Embaixada em Israel a tratar c/ o Centro Ichilov e acelerar cooperação c/ o Brasil no uso do medicamento EXOD24, sujeito a autorização da Anvisa”.

O que os dois omitiram em suas publicações é que o medicamento ainda está em fase de testes naquele país. Ele foi aplicado em 30 pacientes com Covid moderada a grave, dos quais 29 tiveram uma recuperação completa em cinco dias. Mas ainda não houve testes, por exemplo, com placebos, para confirmar se foi mesmo o spray que levou à recuperação.

As publicações foram feitas em meio ao anúncio de que a vacinação contra a Covid-19 precisará ser interrompida em cidades do país devido à escassez de doses dos imunizantes. Nesta segunda-feira (15), por exemplo, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (DEM), disse que a campanha será paralisada na cidade a partir de quarta-feira (17) por falta de doses para levá-la adiante.

Por ora, o Brasil conta apenas com acordos de compra da CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, e com a AstraZeneca, cuja dose será fabricada no país pela Fiocruz.

Mas não precisava ser assim. Em setembro do ano passado, a Pfizer entrou em contato com o governo brasileiro e ofereceu 70 milhões de doses de seu imunizante, então ainda em fase de testes. A oferta incluía vacinas a serem entregues já em dezembro. Mas o Ministério da Saúde não fechou o acordo, embora no final do ano listasse tais doses em seu planejamento de imunização.

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A justificativa mais recentemente apresentada são as condições do contrato, em que a Pfizer se eximia de efeitos colaterais provocados pelo imunizante. O laboratório retrucou que todos os países que tinham fechado acordo com ela aceitaram tal condição.

Foi comentando essa cláusula que Bolsonaro deu a já famosa declaração de que “se você virar jacaré tomando a vacina, o problema é de você”.

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Fabíola Salani

Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.

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