JOÃO DONATO

João Donato, um compositor que ainda nem nasceu

Tentar encaixar Donato em alguma caixinha da nossa música é, ao mesmo tempo, impossível e completamente viável

João Donato.Créditos: Divulgação
Escrito en OPINIÃO el

Aos incautos é muito comum que digam “a música do meu tempo”. Sempre impliquei um tanto com a expressão. De que tempo afinal estariam eles falando, já que estamos todos ainda vivos no mesmo tempo?

A primeira vez que ouvi João Donato, ele fazia a música de um outro tempo, da Bossa Nova, dos anos 50. A seguir, Donato passou a fazer a música dos tropicalistas, imortalizado em parcerias com Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros.

E foi assim, pulando de uma era para a outra, que fui me dando conta que a música de Donato era mesmo de um outro tempo, nem do passado nem do presente, mas sim de um tempo que ainda está por vir. A música de João Donato sempre foi feita de futuro.

Um grande pianista e compositor. Ou o contrário. Na verdade, Donato foi grande em tudo. Tinha (tem) um jeito mínimo de tocar que se confunde com suas composições, feitas a partir de pouquíssimas notas combinadas com uma sequência rítmica surpreendente. Tudo isso desencadeado de uma maneira absolutamente elegante, leve, rápida, urgente e simples.

Tentar encaixar Donato em alguma caixinha da nossa música é, ao mesmo tempo, impossível e completamente viável. Ele fez parte de tudo não sendo, ao mesmo tempo, exatamente encaixado em nada. O que fazia era puro João Donato. Tinha a marca da originalidade. E também da beleza infinita.

O ouvinte mais ou menos neófito, como eu, que descobriu seus primeiros discos só depois dos seus grandes clássicos ganharem letras de parceiros consagrados, tem uma grata e grande surpresa. Já estava tudo ali, naquele piano jazz, com ecos do samba e da música cubana, em suas composições e interpretações.

Quando Caetano chega com a letra de “A Rã”, a genialidade que já estava posta na melodia ganha um efeito surpreendente:

Coro de cor
Sombra de som de cor
De mal me quer
De mal me quer de bem
De bem me diz
De me dizendo assim
Serei feliz
Serei feliz de flor
De flor em flor...

A mesma desfaçatez da conjunção da palavra ritmo/som/interjeição se dá em “Bananeira”, pelo também tropicalista Gilberto Gil:

bananeira, não sei
bananeira, sei lá
a bananeira, sei não
isso é lá com você

será
no fundo do quintal
quintal do seu olhar
olhar do coração

O gênio de Donato se espalhava por todas as possibilidades da nossa canção e de tantas outras mundo afora. Seu clássico “Amazonas”, uma linda melodia bem nos seus moldes ganha uma linda citação nada discreta no meio do mega sucesso “Caso Sério”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho. E de repente, lá está Donato, por dentro da fina flor do pop brasileiro: “à meia-luz, a sós, à toa”.

E assim foi, vida afora. Com sua música feita de futuro, João Donato entrava e saia de todas as ondas sem deixar a sua. Fez álbuns com parceiros (os mais recentes com Jards Macalé e também o com seu filho Donatinho são imperdíveis), acústicos, eletrônicos, elétricos, suingados, tranquilos, orquestrados, cantados, enfim, de tudo que foi jeito. Todos, no entanto, com uma única condição: a genialidade e a perfeição.

Donato nos deixou aos 88 anos, na madrugada de uma segunda-feira de inverno, na cidade do Rio de Janeiro, cidade que ele, nascido em Rio Branco, no Acre, adotou para viver e reinventar sua música.

A surpresa maior, no entanto, não é com sua partida, mas sim que um músico tão moderno como ele já tenha nascido e feito tudo o que fez.